Nacional de Todo-o-Terreno ruma a Loulé

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

Parentescos - Porque há cada vez mais famílias no MotoGP?

A circunstância, decerto rara, de dois irmãos Marquez caírem em duas corridas consecutivas no recente G.P. da Argentina (Alex na Moto2, brindando o “nosso” Miguel Oliveira com o seu melhor resultado na categoria, e Marc na MotoGP, pondo Viñales ao alcance de mais uma vitória) pôs-me a matutar sobre um facto cada vez mais em evidência, mas quase inédito há uns 40 anos, quando comecei a acompanhar os GP...

AdM @ 13-4-2017 21:19:34 - Paulo Araújo

Pablo e Angel Nieto

Pablo e Angel Nieto

O aparecimento de verdadeiras “dinastias” de pilotos, pais e filhos, por vezes a correr quase simultaneamente, mas normalmente com o pai a apostar no filho após terminar a sua carreira profissional.

Algumas destas duplas são tão conhecidas, que decerto já vos estão a vir à mente... Graziano e Valentino Rossi, Kenny Roberts pai e filho, Nietos Angel e Pablo, e por aí fora..

Mas voltemos por um instante à premissa original... porquê agora, nos últimos 10 anos, se vem assistindo à presença de tantos laços familiares nos mundiais?

E porque não há 40 anos, quando tudo era muito menos profissionalizado, e portanto, mais provável de ser um esforço familiar? 

O facto é que, há 40 anos, ou desde que o Mundial teve início, em 1949, a vasta maioria dos pilotos, salvo raras e pontuais excepções, eram apaixonados que asseguravam as suas próprias participações sendo preparadores, mecânicos e patrocinadores principais, tanto como pilotos.

Pertencer ao “circo continental” implicava algo de maluquice, e era uma coisa que só um homem maduro, que já não tivesse de dar satisfações a ninguém, se propunha fazer... até porque, com acidentes fatais frequentes, considerar uma carreira séria para a vida era, no mínimo, arriscado...

Nenhum pai que se prezasse, se tivesse sido piloto e sobrevivido, encorajava o seu filho a seguir-lhe as passadas. 

Descontando nomes menos conhecidos como os suecos pai e filho Bo e Peter Granath, os irmãos franceses Sarron, Christian e Dominique, eram praticamente a única excepção.

Até chegarem os anos 80... 

Fruto de muitas circunstâncias – uma foi mesmo o horrífico acidente que vitimou, em Monza, em 1973, Jarno Saarinen e Renzo Pasolini, a outra foi a “greve” de pilotos liderada por Kenny Roberts em protesto contra as condições de algumas pistas - as coisas começaram a mudar.

Ao entrar na era moderna, com as fábricas japonesas a envolverem-se oficialmente, o que até então tinha sido um desporto de paixão, profissionalizou-se, com motos e mecânicos de fábrica, e tudo aquilo que fazia tudo isso andar à roda: os patrocinadores, que permitiam grandes ordenados.

Graziano e Valentino Rossi

Graziano e Valentino Rossi

Homens como Sheene, Read ou Roberts tornaram-se milionários e os seus rebentos cresceram entre o cheiro a óleo 2T, rodeados de garagens cheias de motos, e a pensar seriamente que uma carreira como piloto era muito melhor que trabalhar. O resto, como se diz, é história...

Pioneiro nisto foi, talvez, o Canadiano Yvon DuHamel, que introduziu os filhos Miguel e Mario, estilo baile de debutantes, nas 24 de Le Mans de 1988...

Dois dos filhos de Phil Read, Roki e Graham, pelo menos, tornaram-se pilotos (eu sei, porque corri com o último). Kenny Roberts deu à Suzuki, através do seu filho homónimo, um Campeão Mundial, e também o mais novo Curtis andou por lá uns tempos.

A dinastia Haslam, primeiro Ron, e agora Leon, é bem conhecida. Os irmãos Hayden idem, e do Japão vieram os Aoki: Haruchika, Nobuatsu e Takuma.

Hoje, no Moto GP, temos irmãos como os Espargaró, Pol e Aleix, um filho do campeão alemão Helmut Bradl, (sim, Stefan, adivinhou), dois filhos do campeão espanhol Alfon(sito) Pons: Axel e Edgar e, quase sem ninguém ter reparado, Remy Gardner, filho do primeiro campeão Australiano de 500cc, Wayne... 

E ainda há os gémeos Lowes, que se repartem pelo MotoGP e SBK... em Inglaterra, Taylor Mackenzie, outro filho de um notável dos GP, Niall Mackenzie, começa a fazer–se notar, bem como o filho de Paul Iddon ou de Robert Dunlop, respectivamente Christian e Michael... 

Ser piloto já não assusta ninguém, e o futuro está assegurado!


AdM @ 13-4-2017 21:19:34 - Paulo Araújo


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