Aventura bem cozinhada: caravana ‘assou’ entre as Beiras e Alentejo com temperaturas que chegaram aos 45.ºC

Temperada com chuva, frio e até neve, temperaturas primaveris ou intensa canícula, o Portugal de Lés-a-Lés oferece, a cada ano, um paladar diferente, com as condições climatéricas a reforçar o carisma de uma aventura única no Mundo.

andardemoto.pt @ 17-6-2017 14:02:16

Na 19.ª edição do passeio organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, marcada pela estreia de figurino que reforça sentimento mototurístico ao longo de quatro dias na ligação de Vila Pouca de Aguiar a Faro, foi o calor a marcar presença desde os primeiros quilómetros em terras transmontanas. Calor intensificado na ligação entre o Fundão e Elvas, trajecto de 318 quilómetros cozinhados em lume… bem intenso, com o ‘forno’ a chegar bem perto dos 45.º C.

Jornada que até começou fresca, com os primeiros dos 1800 motociclistas a saírem da Capital da Cereja com temperaturas amenas, na ordem dos 25.º… às 6 horas da madrugada! Tempo para as primeiras curvas, ao longo de 30 quilómetros na bem tratada estrada N238 mas não sem antes prestar homenagem ao Padre Zé Fernando, parando na Aldeia Nova do Cabo, à porta da casa onde viveu o impulsionador do Dia do Motociclista. Apaixonado pelas duas rodas, dizia muitas vezes que “até 100, Deus protege; a partir de 100, Deus acolhe”, frase bem enquadrada com o espírito mototurístico do Lés-a-Lés – a que deu a primeira partida, em 1999, aos 100 motociclistas que arrancaram de Rio de Onor. Espírito presente na ligação até Janeiro de Cima, aldeia de xisto que é coqueluche do Fundão, com casas construídas com grandes pedras provenientes das margens dos rios, nomeadamente do Zêzere, e que conferem um marcante tom alaranjado. Rio que também foi ‘acompanhado’ pelas 1650 motos ao longo de vários quilómetros, oferecendo a possibilidade de apreciar ‘ao vivo e a cores’ o fenómeno geológico que formou a garganta do Zêzere. Isto através do vale bordejado por estrada que proporcionou excelentes momentos de condução até Oleiros, com paragem no refrescante Camping local, ideia interessante para ‘quartel-general’ de fim-de-semana em duas rodas. Tanto mais que praias fluviais é algo que não falta por estas bandas, oferecidas pelos rios Ocreza ou Tejo.


E uma delas, logo depois de Vila Velha do Ródão acolheu excelente Oásis – ou melhor, dois! – montados pela Bomcar, concessionário BMW em Leiria, e pela Via Verde/Brisa. Momento ímpar para descansar, tomar um café, higienizar o capacete numa moderna máquina instalado pela Bomcar, comer uma fartura (!!) ou tirar uma fotografia com  uma divertida Vespa. E onde havia água, claro, indispensável num dia em que a temperatura estava já nos 30.º às 9 horas, e às 10 h rondava os 40.º C. Algo que não intimidou Cândido Barbosa, experiente motociclista e muito habituado a provas de ciclismo em que rolava quatro ou cinco horas, debaixo de temperaturas elevadas, e onde o esforço da pedalada lesta gerava ainda mais calor, combatido com ingestão constante de água e a protecção do corpo.

Com a passagem pelas sempre imponentes Portas do Ródão e entrada no Alentejo, temperaturas ainda e cada vez mais altas, mas com os motociclistas mais conscientes a não abdicarem do blusão e luvas sempre calçadas. Até porque, além da questão da segurança, a falsa sensação de frescura ao rodar apenas com uma tshirt deve-se a mais rápida evaporação de água do corpo, causando desidratação e até queimaduras. E assim, com cautelas acrescidas, se passeou através de Nisa, Póvoa e Meadas e Senhora da Penha, de onde se oferece a melhor vista, deslumbrante, sobre Castelo de Vide. Na alva ‘Sintra do Alentejo’, o Oásis BP contou com imprescindível apoio do Moto Clube do Porto, cujos elementos disfarçados de judeus-cobradores-de-contas iam entretendo os participantes através do fresco Jardim de Cima enquanto não chegava a hora ideal de controlo. Revitalizados por sumos e doçaria regional, voltaram os aventureiros à estrada, ‘cumprimentando’ uma vez mais as famosas ‘árvores de fraldas’, os freixos com a parte inferior do tronco pintada de branco para maior visibilidade e segurança na estrada, passando ao lado da antiga cidade romana de Ammaia em direcção à Lapa dos Gaviões. Onde Rita Torres, uma jovem arqueóloga explicava as figuras das pinturas rupestres, decifrando as cenas de caça, as figuras humanas ou antropomórficas, além das marcações do calendário lunar que, à vista de qualquer leigo não passariam de um conjunto de traços mais ou menos organizado em conjuntos de sete barras verticais. Quadro pictórico perfeitamente enquadrado pelos divertidos e muito bem caracterizados homens das cavernas do clube Moto Galos, de Barcelos, que à falta de veículos de duas rodas, arranjaram um carro bem ao estilo dos Flinstones.


Paragem seguinte, Campo Maior, terra de contrabandistas e de festas com flores de papel, que ganhou outra dimensão com o crescimento do império do Comendador Rui Nabeiro, maior empregador da região e onde o papel social das empresas é levado muito a sério. Tal como o futuro das populações locais, criando incentivos para visitar a região ao mesmo tempo que gera novos postos de trabalho. Caso do Centro de Ciência do Café, considerado o melhor CC de Portugal em 2015 e que é verdadeiro orgulho para os mais jovens campomaiorenses, com destaque para o interessante museu interactivo. E, com Badajoz à vista, a entrada em Elvas fez-se com toda a pompa e circunstância naquela que é a maior Praça-Forte de Portugal, já foi a maior cidade fortificada da Europa e continua a ser a mais abaluartada do Mundo! Imponência histórica patente em toda a zona central da maior cidade do distrito, apesar da capital ser Portalegre, que os participantes puderam apreciar depois de jantar, aproveitando o facto da partida da última etapa, até Faro, ter lugar ‘apenas’ às 7 horas. Travessia do longo e desértico Alentejo, ao longo de pouco mais de 400 quilómetros plenos de promessas de espectacularidade paisagística e recantos de encher a alma mototurística. E calor, muito calor!

andardemoto.pt @ 17-6-2017 14:02:16