Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Andar de mota: o lado menos sexy da coisa

Ao contrário do que muitos pensam, os motociclistas que têm as “duas rodas nas veias” não falam 24/7 de motas, escapes, acessórios, aventuras e temas derivados. Mas é verdade que gostam de sublinhar várias vezes os prazeres e as inúmeras vantagens de conduzir um motociclo. Aliás, têm mesmo algum prazer em meter o dedo na ferida quando os amigos se queixam das horas que estiveram parados no trânsito ou da falta de lugares para estacionar, deixando escapar um: “Eu cheguei em 10 minutos” ou “Estacionei mesmo à porta”.

andardemoto.pt @ 4-5-2018 18:52:49 - Susana Esteves

O cenário pintado é sempre cor-de-rosa, até porque não há desvantagens nem cenários menos bons. Ou há? Digamos que há pequenos episódios menos sexys que ficam “esquecidos” nos relatos mais apaixonados dos motociclistas, mas que fazem parte das muitas aventuras que vivemos diariamente.

Andar de mota constipado é …um problema. Espirrar dentro de um capacete é…um nojo. O nariz insiste em pingar, lenços de papel não são uma opção e quando finalmente estacionamos existe um sem número de coisas que temos que fazer antes de podermos tirar o capacete. E quando não há lenços disponíveis? Vou deixar à vossa imaginação.

Fazer viagens de capacete aberto é dos maiores prazeres no verão. O que não é tão agradável é ter uma abelha ou outros insetos dentro do capacete, e travar uma verdadeira batalha com eles enquanto tentamos manter a mota direita. Matar um inseto lá dentro e ficar com os dedos e o cabelo cheio de bicho esmagado também é algo que dispensamos, mas que acontece várias vezes.


Por que é que usamos óculos de sol ou viseiras para baixo? Porque a probabilidade de nos entrar um bicho para o olho é de 99,9% e a história nem sempre acaba bem: nem para nós, nem para o bicho, nem para o olho. Também não convém ir de boca aberta.

Não devemos circular atrás de camiões e carrinhas de caixa aberta por causa da carga e das pedras que nos podem atingir. Certo! E qual é a regra com os pombos? Circular de mota em locais onde os pombos não respeitam o nosso espaço aéreo é complicado, até porque quando levamos com um em cima (no corpo ou no capacete), o pequeno pombo de alguns gramas parece um boi com muitos quilos. Aliás, aproveitando o tema dos animais, eu sei que são os carteiros que têm a fama de ter aquela relação ódio/ódio com os cães, mas a verdade é que eles também não gostam muito de nós, principalmente das nossas pernas e calças.

E por falar em calças, viajar de leggings e ter uma abelha cravada na nossa perna, que insiste em não sair apesar de todos os nossos esforços (de a tirar, de manter a mota direita e de resistir à dor), é algo digno de um Fail viral do YouTube. Mas aquele cenário magnífico de circular em zonas verdes, com o cheiro das flores e o sol e a paz, etc, etc é muito melhor sem abelhas. Estes bichinhos adoráveis também gostam de mãos e braços.

E as comichões que insistem em aparecer em locais aos quais não conseguimos chegar? E as calças que descaem e não conseguimos puxar para cima, que deixam mais à mostra mais do que queremos? Frio, chuva… tudo parece descobrir de repente esse bocado de pele.

Estes são apenas alguns dos muitos episódios que existem. São agradáveis? Nada. Vale a pena aguentá-los pelo prazer de andar de mota? Completamente.

Venham eles. Estamos preparados!

Boas curvas


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