OPINIÃO

O frio, a chuva, o calor, a moto e um mito

Este inverno tem sido particularmente rigoroso e tem provocado em nós uma necessidade de expressar esse facto reiteradamente, provavelmente pelo excessivo mau estar que provoca. Isto tem-se feito sentir nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, nos cafés, locais públicos, conversas de rua e um pouco por todo o lado.

José dos Santos @ 22-2-2014 18:25:40

Chuva para cá, mau tempo para lá, algumas interessantes piadas à volta do tema e fica-me a ideia, não sei se completamente certa, de que uma grande parte das pessoas que têm moto não têm andado por causa do mau tempo. Vejo e ouço frequentemente afirmações do tipo, já tenho saudades da minha burra, quando é que vem o sol, ou, hoje esteve sol, tirei a montada da garagem e matei saudades. 

Todos sabemos que este ano tem havido dias pouco aconselháveis para andar na estrada e por consequência de moto. 

Neste contexto tempestuoso, queria dar um pequeno contributo no sentido de desfazer um mito existente, nomeadamente, junto dos que não utilizam a moto nas deslocações diárias. 

Atenção: este conteúdo não se destina a motociclistas experientes na utilização diária de moto, em centros urbanos. Se é o seu caso, vá directo para os últimos três parágrafos. Aí, talvez haja algumas curiosidades que lhe possam interessar.

Já muitas vezes fui interpelado por pessoas que não andam de moto com as seguintes afirmações: com este tempo veio de moto?, ou, em dias de muito calor, então hoje com este tempo maravilhoso é que não veio de moto?.

No dia-a-dia, casa trabalho e vice-versa, especialmente nos grandes centros urbanos, é muito mais agradável e compensador deslocarmo-nos de moto em tempo fresco e mesmo chuvoso (não estou a falar de temporal) do que com muito calor. Em dias de chuva, normalmente o trânsito fica ainda mais caótico, a moto ajuda a chegar mais rápido ao destino e evita o stress. Em dias de frio, pode não estar tão caótico, mas continua a haver muito trânsito. Se bem equipados, vamos confortáveis e chegamos mais rápido ao destino, evitando o stress. Economizamos tempo, dinheiro e claro, stress. 

Com calor tudo isto é verdadeiro, menos um de dois aspectos: o conforto ou a segurança, mas as circunstâncias facilitam a resolução do problema. 

Segurança? Mas é muito mais seguro andar de moto com bom tempo! 

Sim, se andarmos bem equipados, mas com calor há a tendência para andar despido, porque os equipamentos tendem a aumentar o calor, especialmente nos circuitos urbanos. Nestes percursos há os semáforos, muitos, e quando paramos num, com muito calor e aumentado pelo calorífico que é o motor da moto e o alcatrão, a coisa complica-se. Quem tem experiência de andar de moto frequentemente em ambiente urbano sabe muito bem do que estou a falar.

Esta teoria baseada na prática tem a favor o facto de na altura de mais calor haver menos trânsito, isto porque, por exemplo, há mais gente de férias e menor necessidade de levar os filhos à escola. Sendo assim, demoramos ainda menos tempo a chegar ao destino, diminuindo o desconforto do calor do blusão, das calças, do capacete e do aquecedor (motor e alcatrão) nos semáforos.

Tudo isto pressupõe, claro está, que nos preocupamos com a segurança e por isso utilizamos blusão e calças com o mínimo de protecções, luvas, e obrigatoriamente o capacete, e nunca sapatos deslizantes

Mas como é que isso é compatível, por exemplo, com a exigência do meu chefe, com a minha preferência ou com a minha actividade que obriga a ir trabalhar de fato e gravata ou, no caso feminino, de fato ou mesmo de saia ou vestido e sapato alto

Esquecendo por momentos a saia, o vestido e o sapato alto, é muito simples e passados alguns dias não queremos outra coisa.. A imagem que se segue pretende sintetizar o processo. 

Um blusão/parka impermeável e de preferência com protecções mínimas (cotovelos, ombros…), umas calças com os mesmos critérios, umas luvas e umas botas ou capas (antiderrapantes) para os sapatos. Relativamente ao calçado, como pode ver na imagem, há soluções que conseguem o melhor dos dois mundos: indicados para a condução e compatíveis com um bom fato. No verão a mesma coisa, mas com materiais frescos e respiráveis. 

E o meu fatinho engomado, vai chegar bonito, vai! 

Não arranje desculpas. Hoje, há no mercado uma diversificada panóplia de artigos para todos os gostos, feitios e tamanho de carteira. Na minha opinião, no inverno, o blusão deve ser tipo parka, mais comprido. Se o veículo for uma scooter, pode também optar por um avental/capa. A escolha é sua, mas nunca esqueça a segurança na altura da decisão, mesmo que tenha de gastar um pouco mais, e claro, manter o fato engomado. Escolha, opte pela solução mais indicada ao seu corpo, ao seu gosto e necessidades diárias, e, voilá! O fato vai durar mais, gasta menos na lavandaria e vai constatar que não fez má figura, o fato estava impecável.

Se estiver frio e chuva, retire o equipamento só quando estiver dentro do local de destino, no escritório por exemplo. Aí, constatará que chegou mais seco e quente do que os seus colegas que utilizaram os transportes públicos ou o automóvel. 

Há outras alternativas, as quais são também compatíveis com a saia, o vestido e o sapato alto.

Simples: uma muda de roupa no escritório ou levá-la no top-case, que é uma espécie de bagageira ou mala rígida que pode também servir como encosto lombar para o pendura. Se o top-case for de dimensões generosas, verá que qualquer tipo de vestido, saia ou fato, chegam em melhores condições do que quando viaja de automóvel para uma festa glamorosa.

E compensa tanto trabalho? Depois de algum treino, o que parecia complicado torna-se numa prática muito simples e garanto-vos que compensa, e muito.

Princípios fundamentais: conduzir com cuidado, sempre bem equipado, atenção redobrada com tempo chuvoso e mais ainda para os que estão a iniciar, a quem se dirige especialmente esta prosa. Os outros permitam-me a dica: cuidado com o excesso de confiança. Pode sempre haver, por exemplo, uma porta de automóvel que se abre inadvertidamente, ou um buraco na estrada que não existia no dia anterior. 

É, também, por causa deste e de outros mitos, dos quais falaremos neste espaço, que há poucos portugueses a andar de moto, a comprar moto, fraca intenção de compra, e o que é mais preocupante, pouco motivados ou sensibilizados para as vantagens deste veículo na mobilidade urbana. Será que os portuguesesinteriorizaram, por exemplo, a possibilidade de conduzir moto até 125cc com carta de automóvel ligeiro (categoria B)? – Ver: Posso conduzir moto até 125cc com carta de carro?

O estudo que temos referido neste espaço, realizado em 2012, revela que cerca de 20% do universo estudado desconhecia esta possibilidade (ver universo em baixo). Este valor não parece ser muito expressivo. Significativo é, na minha opinião, o seguinte resultado: dos que afirmaram conhecer este facto, cerca de 75% não tem verdadeira consciência disso, ou por outras palavras, não interiorizou, não está sensibilizado ou motivado (ver imagem em cima).

Fica isto demonstrado quando se pergunta que tipos de veículo podem conduzir com a carta de condução de automóveis ligeiros (categoria B). E a pergunta não é de resposta espontânea; sugere as várias possibilidades de resposta, nas quais está, evidentemente, referido moto/scooter com cilindrada até 125cc. 

Será que, entretanto, alguma coisa mudou neste aspecto? Duvido muito, mas admito a possibilidade.


Nota: Estudo realizado no início de 2012. Universo: indivíduos residentes em Portugal, com 18 e mais anos e utilizadores frequentes de internet. Amostra: a amostra do estudo é de 1.091 entrevistas válidas e representativas do universo referido.

José dos Santos @ 22-2-2014 18:25:40


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