Teste Yamaha SCR 950 - Dualidade de género

Há motos que nos deixam na dúvida se havemos de as amar, ou de as detestar. No caso concreto desta nova Yamaha, ainda não me consegui decidir!

andardemoto.pt @ 24-10-2017 11:40:15 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira

Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Yamaha SCR950 | Moto | Sport Heritage

Com alguns daqueles motociclistas realmente apaixonados por motos, daqueles que fazem questão de experimentar novos modelos, de se aventurarem em outros estilos de motos e diversos caminhos, que gostam de andar depressa e fazer muitos quilómetros, nem que seja apenas pelo puro prazer de andar de moto, com esses, dizia, costumo conferenciar e trocar impressões sobre algumas motos. E frequentemente chegamos à derradeira e universal conclusão de que, nos dias de hoje, já (quase) não há motos más. O que há é motociclistas mais exigentes!

Com isto quero eventualmente desculpar qualquer desabafo menos simpático que possa nas linhas seguintes vir a ter relativamente a esta Yamaha cujo nome dá a entender, ainda que de forma subliminar, ou pouco óbvia, que se trata de uma Scrambler!

Antes disso, quero salientar que durante quase 10 dias, esta SCR 950 proporcionou-me imensos momentos de prazer. A rolar descontraidamente, a ouvir o compasso do escape de tonalidade grave e a embalar-me em sequências de curvas. Claro que tudo isto foi em asfalto, e do bom.

Como todos sabemos, uma Scrambler é basicamente uma moto para desbundar, para rumar sem destino, provavelmente a solo, a curtir a neura, e ir onde bem nos der na gana, provavelmente por caminhos por onde se não era suposto ir, desafiando as convenções e a sorte, enquanto a força, os euros e a coragem, nos permitam.

Por isso, uma Scrambler quer-se ágil, leve, estreita, ergonómica, confortável, com uma grande brecagem, uma boa altura ao solo, um motor responsivo e uma boa autonomia.

Ora bem… eu não vou ser muito exigente, mas esta nova Yamaha não corresponde, em praticamente nenhum destes pontos, à especificação da designação.

A SCR 950 é congénere de uma moto que já tive oportunidade de testar nestas páginas, a XV 950 Racer (clique aqui para ver) e descende igual e directamente de uma cruiser (a XV 950R que na América é conhecida por BOLT, versão que também já tinha tido oportunidade de testar) e a prová-lo estão os seus 252 kg de peso, a sua altura ao solo de apenas 145mm, e as suspensões, com um curso de apenas 135mm e 110mm respectivamente à frente e atrás, com afinação bastante rija.

Apesar de ter gostado imenso das duas versões que referi, nesta  SCR 950 constatei que a sua posição de condução é fortemente afectada pela enorme caixa de filtro de ar, que massacra o joelho direito, e pela cabeça do cilindro traseiro que nos obriga a manter também afastado o joelho esquerdo.

Os poisa-pés, apesar de proporcionarem um bom apoio, estão precisamente na pior colocação que podiam ter, e além de demasiadamente afastados e baixos, tanto que raspam no piso com enorme facilidade, estão mesmo a jeito de, a manobrar, nos deixarem as canelas num estado lastimoso, a menos que andemos com botas de enduro de cano alto.


O motor, apesar de debitar a sua potência de forma linear, é relativamente lento na resposta, e em caso de pressa, o seu carácter “cruiser” exige trocas de caixa frequentes, que fazem subir os consumos numa condução mais apurada, o que não é bom para o ambiente, nem para a carteira, e menos ainda para a autonomia, que depende de um depósito de combustível com capacidade para uns escassos 13 litros, e que em andamentos “normais”, dificilmente (ou nunca) chegam para 200km.

Por falar nisso, o tampão do depósito, quando aberto, fica solto, com a chave nele encaixada, o que constitui mais um motivo de preocupação.

Ainda sem querer parecer demasiado exigente, a SCR 950 padece de dois graves equívocos: 

  • O primeiro é a correia da transmissão. Para lidar com pedras, areias, ramos e troncos, a correia dentada não é uma solução eficaz, nem fidedigna, a menos que se ande efectivamente em busca de uma aventura desagradável.
  • O segundo é o assento. Demasiado estreito, demasiado rijo, e para muitos demasiado alto, cobra dividendos tanto mais cedo quanto pior for a regularidade do piso.

Longe do conceito “no road, no problem”, a Yamaha ressalva acertadamente que esta SCR950 não é uma moto orientada para o fora de estrada.

Caso a ficha técnica me tivesse passado despercebida, e me tivesse deixado enganar pelo guiador largo, pela protecção de cárter, pela jantes raiadas com a dianteira de 19 polegadas, e pelo nome SCR(ambler), essa explicação seria o suficiente para reavaliar todo o conceito. Ora se a SCR 950 não é para andar por maus caminhos, então é boa para andar no asfalto!? Certo? Bem, a verdade é que há alguns pormenores que...

Os travões, por exemplo, que se em pisos pouco consistentes têm na pouca incisão uma grande vantagem, em asfalto, o único disco dianteiro revela-se efectivamente escasso, e manifestamente abaixo do nível das prestações dinâmicas do conjunto. 

Do assento também já tinha referido que, de confortável, não tem rigorosamente nada, e a caixa de 5 velocidades tem um accionamento bastante rústico e pouco suave.

O canhão da ignição, colocado bem lá na frente e debaixo do depósito é de difícil acesso, tornando grotesco o acto de dar arranque, e à noite torna-se bastante mais difícil de encontrar, mesmo antes do jantar!

Também o painel de instrumentos, pouco “retro”, revela-se de difícil leitura sob certa iluminação, e praticamente ilegível para quem usar óculos com lentes polarizadas. 

Para acabar com a lista de desabafos, fica ainda uma nota para os acabamentos, onde se destaca, por exemplo, a ligação eléctrica do farolim LED e dos piscas traseiros, inexplicavelmente com lâmpadas convencionais, que dá ares de ter sido feita por um “vizinho jeitoso”.


Provavelmente para o Steve McQueen esta SCR 950 teria sido uma moto fantástica e uma verdadeira evolução das suas scrambler originais, mas nos dias de hoje, em que todos sabemos que uma boa Scrambler não se parece em nada com uma Scrambler, a SCR 950 tem que ser vista de outra forma, eventualmente como uma moto urbana, para pequenos trajectos, numa utilização ocasional em que se necessite de algo diferente e exclusivo.

Não sendo do género terra nem do género alcatrão, a SCR 950 pode no entanto, e por isso mesmo, ser considerada uma base cheia de potencial para uma transformação. E razões, como já vimos, não faltam! Ainda assim, justiça seja feita, ao longo dos dias em que a andei a testar, o seu charme cativou a atenção de muita gente!

Faça uma consulta e veja caracteristicas detalhadas:

Yamaha SCR950 | Moto | Sport Heritage

andardemoto.pt @ 24-10-2017 11:40:15 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira