Marco António Santos

Marco António Santos

3ª geração de uma família de motodependentes, Matosinhense e Guzzista

OPINIÃO

O dia da Águia de Mandello

Galgados quase 100 anos após a fundação da Moto Guzzi (est.1921), e depois dum 1º centenário cheio de sucessos à escala planetária, eis que por terras de Viriato e após largos anos de quebra fraterna, se juntaram os valentes e orgulhosos proprietários da Moto Guzzi.

andardemoto.pt @ 12-3-2019 08:30:00 - Marco António Santos


O dia era 12 de Janeiro de 2019.
O termómetro marcava 4.5ºC.
O vento soprava acima dos 35km/h.
A sensação térmica era de temperaturas negativas.
O encontro foi a 700 metros de altitude.
Participaram 3 nacionalidades.
Centenas de milhares de quilómetros totalizavam todos os odómetros.

Foi com estes números que, finalmente e após largos anos, se reuniram por terras lusitanas os proprietários de uma das mais emblemáticas marcas de motociclos do mundo.

Galgados quase 100 anos após a fundação da Moto Guzzi (est.1921), e depois deste 1º centenário cheio de sucessos à escala planetária, eis que por terras de Viriato (país sem grande tradição no que toca à paixão pela Águia de Mandello), após largos anos de quebra fraterna, se resolveram juntar os valentes (sim, VALENTES) e orgulhosos proprietários da Moto Guzzi. Digo VALENTES (com letra maiúscula), porque o dia escolhido não foi o mais simpático do Ano para se deslizar (Deslizar sim...uma Guzzi desliza, não rola...e desliza cravada de estilo).

Temperaturas baixíssimas (alguns participantes apanharam -2ºC), vento forte (e sempre de frente), uma sensação térmica absolutamente desconfortável (alguns de nós só desapertámos os casacos para almoçar), mas uma enorme vontade em andar de moto e, acima de tudo, reinstaurar algo há muito perdido: retomar a irmandade Portuguesa em torno do legado da Moto Guzzi.

Confesso que não foi, nem tem sido, uma tarefa fácil. Efectiva e infelizmente a marca tem ainda pouca expressão no nosso país, não conseguindo neste momento ombrear nem de perto nem de longe, com o mediatismo e presença de outras marcas semelhantes. Semelhantes mas não iguais.. pois.nada é igual "àquele" V2 a 90º de instalação transversal, a que não falta carisma, exclusividade, presença ou qualidade. 

A Moto Guzzi tem potencial para ser uma das grandes marcas em Portugal! Não digo "jogar de igual para igual" com as populares nipónicas, mas de certo que a Moto Guzzi tem todos os argumentos para ter uma presença, pelo menos, semelhante a uma (ou outra) marca Americana e, quiçá também, a uma ou outra marca Britânica. 

Deixo no entanto essa análise no "ar" para que alguém, com um conhecimento de mercado superior ao meu, o possa fazer. Afinal de contas o que eu sei fazer (acho até que razoavelmente bem!) é andar de moto, algo que nos meus 38 anos de idade já faço há mais de 31!

No entanto, desta feita, e depois de tantas adversidades e falhanços (a última tentativa de o fazer tinha resultado na presença abaixo da meia dúzia de Guzzistas), o evento realizou-se, pois conseguimos finalmente reunir um número muito interessante de participantes, proprietários de Califórnias 1.100 e 1.400 (desculpem os meus camaradas mas tinha de referir em 1º lugar as Cali), V7s de 3 gerações diferentes, Le Mans, Stelvios, NTX, Brevas e até...uma Yamaha infiltrada (que me fez companhia desde casa).

Pena foi que o importador não tivesse podido estar presente (tenho consciência de que o convite foi feito um pouco em cima da hora), porque esperávamos e desejávamos a presença da estratosférica MGX-21, moto que  já tive o enorme prazer de experimentar e que é, de facto, um motociclo fantástico, daqueles que me fazem perder os adjectivos, e rir-me sozinho dentro do capacete durante uns bons quilómetros. 

Mais importante do que a presença de vários e diferentes modelos de Moto Guzzi foi, de facto, a presença do "Guzzista", que fez parar as pessoas para olhar...para conversar...para posar para a foto. É verdade, mesmo...no local de ajuntamento (em frente à Sé de Viseu), foram vários os transeuntes que, curiosos com tal acontecimento, se meteram à conversa connosco.

Muitos pediram para tirar fotos, outros, sedentos de informação, procuraram saber mais sobre o evento e sobre a marca, mas principalmente indagaram sobre "aquele ser estranho" que é o Guzzista… Queriam perceber o que motiva este "ser" para se deslocar centenas de kms até à fria cidade de Viseu (sim, não estivemos propriamente em Aljezur), apenas porque...porque...porque sim! Porque é aquilo que o Guzzista faz… O Guzzista, vai! Apenas precisa sentir que há outros como ele!

De facto já ando nisto há uns anitos. A minha primeira moto tive-a aos 4 anos, uma FORVEL Vip2, nova, que o meu pai me deu quando comecei a andar de biciclete, mas essa não consegui andar nela. Já tinha 7 anos quando comecei efectivamente a andar de moto, numa Sachs Minor Saxonette que recebi de presente do meu avô, moto que ainda hoje mantenho.

Ao longo dos anos tive motos de várias nacionalidades e cilindradas, já fui a várias concentrações, passeios, ajuntamentos, etc, (e que me perdoem os meus compinchas da NORTADA - Vendaval em 2 Rodas), mas o Guzzista é de facto um "bicho raro".

Quer esteja na faixa dos 20's, 30's ou 70's, o Guzzista é sempre "Old School". O Guzzista quer é andar de moto, sentir a vibração do V2, sentir o "full package": estilo, exclusividade, qualidade; e aquele "je ne sais quoi" que apenas (acreditem que sim: apenas) a marca da Águia de Mandello pode oferecer.

Foi isso que fizemos. Juntamo-nos, convivemos, almoçamos (muito e bom), falamos de Guzzis (histórias desde o platinado do FIAT 850 da V7 do João,, aos mais de 4.000kms que a Cali do Chris fez desde a Finlândia, passando pela carenagem dos anos 50 do Piergiorgio), andamos de Guzzi e finalmente percebemos algo que há muito estava adormecido: percebemos que há mais gente como nós...afinal há Guzzistas em Portugal...afinal não andamos sós neste Universo motociclístico.

Percebemos que, afinal e sem saber muito bem como, há outros que, tal como nós, sentiram a "bicada" da Águia que nasceu em 1921 nas margens do lago Como. E percebemos que essa bicada deixa marcas para toda a vida. Percebemos isso, e ADORAMOS.

O sonho de Carlo Guzzi nasceu há quase 100 anos em Mandello del Lario, mas renasceu em Portugal em 2019!

andardemoto.pt @ 12-3-2019 08:30:00 - Marco António Santos



Mais