Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

Marquez, 7 vezes Campeão - De outro mundo

Marc Márquez obteve o seu sétimo título Mundial, quinto em MotoGP, no recente Grande Prémio do Japão, 3 corridas antes do final do Campeonato, antecipando assim a decisão.

andardemoto.pt @ 24-10-2018 23:32:00 - Paulo Araújo

Para conseguir esse feito, obviamente muito importante para os chefões da Honda pelo facto de Motegi ser o seu terreno de eleição, Marc Márquez pressionou incessantemente o homem que liderou a prova praticamente desde o começo da corrida, Andrea Dovizioso, colocando-se à frente dele a 3 voltas do final e mantendo-se aí apesar de uma pilotagem aparentemente descontrolada, mas tão controlada que, afinal, quando o Italiano tentou fazer o mesmo, acabou na gravilha a ver Márquez desaparecer à distância, e a corrida e o próprio Campeonato esfumarem-se-lhe numa curva.

Isto parece ser a grande arma de Márquez: uma capacidade de puxar para lá dos limites, todo o tempo, e escapar-se com manobras incríveis, que veriam um piloto de menor talento acabar no chão sem apelo nem agravo. 

Acresce que Marquez é de pequena estatura, e lida com uma MotoGP de 240 cavalos como se perder o controlo nunca fosse uma opção, mesmo até quando já o perdeu… as numerosas quedas nos treinos, ele explica facilmente com o facto de que, nos treinos, mil e uma coisas lhe estão a passar pela cabeça, como disse recentemente ao jornalista Mat Oxley, e é fácil desconcentrar-se e chegar a um curva depressa demais, ou ligeiramente fora da trajetória. Já em corrida, a concentração só permite dois pensamentos: Ser rápido e não cair!


Sorriso de miúdo

Sorriso de miúdo

O mais recente título do espanhol coloca-o em paridade na categoria rainha com os 5 títulos obtidos pelo mítico Michael Doohan, algo que aos 25 anos é uma grande conquista (Doohan tinha 32 por alturas do seu último título em 1998) . Mas Marc quer mais. Logo na conferência de imprensa após o GP do Japão, afirmou que nunca se cansa de vencer e que, apesar de querer aproveitar o momento, depois de todo o esforço feito ao longo da temporada, continuará em busca de mais vitórias. E esse espírito insaciável é precisamente aqui que pode levá-lo a bater, no futuro, todos os recordes estabelecidos.

Assim, depois de outro título Mundial no bolso, o Catalão torna-se o sexto piloto com mais coroas da história, atrás de Giacomo Agostini (15) Angel Nieto (12 + 1), Valentino Rossi (9), Mike Hailwood (9) e Carlo Ubbiali (9). Iguala também as marcas de Phil Read (7) e John Surtees (7). Já para trás com 6 ficaram Jim Redman e Geoff Duke…

A ascensão de Márquez começou com o seu primeiro título no Campeonato de 125 em 2010, apenas dois anos depois de sua estreia no cenário mundial aos 15 anos. Conseguindo um pódio no ano de estreia, apesar de algumas lutas no final da temporada, Márquez cedo impressionou. Logo no ano seguinte, em 2010 o seu talento brilhou em pleno ao conquistar a coroa e vencer dez das últimas 14 corridas do ano. Nesse ano, a entrega dos prémios da FIM foi realizada em Portugal no Casino Estoril. Após a cerimónia, falei com ele e encontrei um miúdo humilde, bem disposto, algo tímido mas com um sorriso rasgado… qualidades que, pelos vistos, anda ostenta hoje quando prefere partilhar o ambiente de boxe com os seus mecânicos a esconder-se na motorhome ar-condicionada de luxo como tantos outros.


Estilo incrível

Estilo incrível

2011 viu Marquez fazer a mudança para a Moto2. Foi um começo difícil para a temporada pontuado por acidentes, mas o Espanhol ganhou um impulso sério e conseguiu uma série de vitórias, nada menos que sete, para fechar a diferença para o líder do campeonato, Stefan Bradl. Marquez também subiu ao pódio em Phillip Island, na 38ª posição da grelha, na sequência de uma penalização, e isso colocou-o a uma distância impressionante da liderança - mas o Grande Prémio da Malásia mudou o rumo da temporada. Um acidente nos treinos acabou com o seu ataque, pois o número 93 sofreu problemas com a visão e foi forçado a perder o resto da temporada e a hipótese de conquistar a coroa.

Marquez passou aquele inverno em limbo enquanto procurava curar o problema, até que finalmente a cirurgia fosse bem-sucedida e ele estivesse pronto para voltar à pista. Apesar da temporada difícil, o número 93 foi o melhor, levando o campeonato em grande estilo - incluindo uma vitória do final da temporada em Valência para destacar o ano espetacular. Chegou então a altura de experimentar uma máquina de MotoGP pela primeira vez, preparando Marquez para a sua estreia na categoria rainha em 2013. A época começou com um estrondo, com o número 93 a duelar com Valentino Rossi para conquistar o seu primeiro pódio. Da próxima vez, Marquez venceu,  apenas na sua segunda corrida de MotoGP. Desse modo, tornou-se o mais jovem piloto a conquistar a coroa da categoria rainha depois de uma estonteante temporada de estreia e foi o primeiro rookie a conseguir a façanha em 35 anos. Isso foi um gostinho do que estava para vir enquanto Marquez começou 2014 com a vitória nas primeiras dez corridas para conseguir uma liderança impressionante e manter a coroa em Motegi. Essa foi a primeira vez que ele ganhou no Japão, na casa da Honda. 2015 começou bem, com uma vitória no GP das Américas mais uma vez, mas a temporada foi pontuada por mais alguns altos e baixos e Marquez perdeu o título pela primeira vez desde que subira para a MotoGP. O drama caracterizou o final daquela época, com o confronto com Valentino Rossi, e foi Jorge Lorenzo quem saiu vitorioso no Campeonato. Falhado esse ano, 2016 viu o espanhol numa missão séria para garantir que o insucesso não fosse repetido.

Não foi. Marquez pilotou para conquistar o título e não apenas para ganhar corridas, afiando sua agressão de uma forma mais direcionada e mais uma vez conquistando o título em Motegi, no Japão. Com vitórias no Texas, Argentina, Alemanha e Aragón, antes de encerrar com o terceiro lugar no Campeonato de MotoGP, foi uma época de consistência. 2017 não começou da mesma forma, já que o Campeão reinante sofreu um DNF na Argentina, e por alturas de Le Mans registrou o seu terceiro 0 em pontuações. Para manter a coroa, Marquez tinha uma grande montanha para escalar, mas foi isso mesmo que ele fez.


A colisão com Rossi

A colisão com Rossi

A equipa de Marquez garantiu-lhe que estaria na frente até às férias de verão e de alguma forma, ele estava. De volta ao topo no GP da Alemanha e terminando no pódio até ser excluído por um problema mecânico em Silverstone, a consistência estava de volta na parte final da temporada. Dessa vez, não houve hipótese de conquistar o título em Motegi, mas sim um impressionante duelo à chuva entre Márquez e o principal rival Andrea Dovizioso. O italiano ganhou, tornando-se o primeiro homem a bater Marquez num duelo de última volta. A luta continuou em Valência - com Marquez, eventualmente, emergindo vitorioso em virtude de uma salvação inspirada na Curva 1, quando saiu de pista a mais de 160 à procura da vitória. Em vez disso, subiu ao pódio em terceiro, mas acabou com o título número seis, o seu quarto Campeonato da categoria rainha.

Então começou em 2018 e a longa estrada do Qatar para Valência era composta por 19 rondas que decidiram o campeão e começou com fogos de artifício no deserto com "DesmoDovi" a sair com a primeira vitória da temporada. A Argentina foi a próxima, onde se esperava que Marquez fosse o favorito, mas com drama de linha de partida e três penalidades dadas ao campeão durante uma corrida desenfreada, foi um Grand Prix que o deixou sem pontos e causou alguns grandes debates no paddock.

Seguia-se o Texas, e Marquez estava numa missão, conquistando a sua primeira vitória da temporada, o que o colocou de novo na luta pelo título. Jerez foi dramático não por Marquez, mas por um enorme acidente na frente envolvendo três rivais - Andrea Dovizioso, Jorge Lorenzo e Dani Pedrosa. Todos eles colidiram e não marcaram, definindo o cenário para um grande total de pontos para Marquez. O azar continuou para Dovizioso na próxima partida em Le Mans e o italiano caiu na liderança, com o número 93 no topo da escala mais uma vez…

Mugello foi um abalo, no entanto. O clássico italiano foi uma corrida a recordar para a Ducati, pois levou os primeiros 1-2 - e foi Lorenzo a vencer pela primeira vez na moto vermelha. Ganhando por uma margem considerável, houve uma nova grande ameaça à missão de Marquez, e o maiorquino seguiu-a com outra vitória no fim-de-semana seguinte em Barcelona. Marquez foi segundo, no entanto, e fez uma boa limitação de danos - com a próxima corrida marcada para Assen na Holanda. A qualificação para o GP da Holanda fez prever que seria uma luta apertada na frente, mas ninguém poderia prever até que ponto. Uma das melhores corridas de todos os tempos viu uma enorme batalha pela vitória entre um grande grupo de pilotos, mas foi Marquez quem, mais uma vez, conseguiu puxar o pino mais tarde e fugir para a bandeira. A nona vitória consecutiva em Sachsenring deu sequência a um duelo com Lorenzo, que viu Márquez levar 3º na Checa, enquanto Dovizioso vencia.

O número 93 voltaria a defrontar o número 99 novamente na Áustria, no Grande Prémio seguinte… Rivalidade reacendida, a batalha pelo Red Bull Ring foi espetacular e foi Lorenzo quem levou o espólio. O Maiorquino estava em forma, pois seguiu-se a pole em Silverstone, mas com a corrida cancelada no Domingo foi um golpe para as esperanças daqueles que mostraram um ritmo superior nos treinos. Dovizioso venceu em Misano para ganhar terreno, mas Lorenzo caiu e o segundo de Marquez aproximou-o cada vez mais da coroa. Aragón apenas sublinhou a superioridade do 93, já que venceu Dovizioso no duelo da última volta, com a luta a chegar a Buriram no primeiro GP da Tailândia. De lá, seguiram para Motegi e uma primeira hipótese de arrebatar a coroa.

Marquez fez o trabalho, apesar de ter começado da pior posição de qualificação da temporada em 6º. Uma longa corrida com Dovizioso terminou com o italiano a cair a duas voltas do fim, dando o número de sete títulos ao 93… quem sabe aonde mais ainda chegará?

andardemoto.pt @ 24-10-2018 23:32:00 - Paulo Araújo

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