Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

Leon Haslam vence Britânico de Superbike - Meio século de glória para o clã Haslam

Leon Haslam é o mais jovem dum verdadeiro clã de pilotos, cuja história envolve glória mas também tragédia...

andardemoto.pt @ 17-10-2018 23:52:00 - Paulo Araújo

Depois de falhar por pouco o título em 2017, Leon Haslam sagrou-se Campeão Britânico de Superbike em 2018, após sete anos no Campeonato. Pelo meio, ficaram 5 vitórias no Mundial de Superbikes, duas nas 8 Horas de Suzuka, em 2013 e 2014, dois Campeonatos de Motocross infantil em 1995 e 1996 e também várias lesões, dor e angústia. No entanto, se o seu pai Ron é ainda sobejamente conhecido, mais pelos anos em que batalhou com a estranha Honda ELF500 no Mundial de Velocidade, sem nunca conseguir melhor que segundo lugar, poucos sabem que o diminuto Leon, de Langley Mill, perto de Derby, é o quarto piloto de uma família que é uma verdadeira dinastia de talentos.

Infelizmente, os seus tios Phil e Terry foram ceifados pelas agrestes condições de segurança das corridas de outrora, muito antes dele ter nascido. Phil Haslam, o mais velho, foi tido desde jovem como um grande valor das provas de velocidade britânicas no início dos anos 70 do século passado. Tudo porque em 1973, conseguiu a proeza de fazer duas voltas a velocidades acima dos 160 Km/h de média, no Grande Prémio de Manx, o encontro outonal que é presença obrigatória para os novos pilotos que anseiam ser aceites no Tourist Trophy da Ilha de Man do ano seguinte. 

Phil, tio falecido de Leon Haslam

Phil, tio falecido de Leon Haslam

Mesmo nos treinos, Phil Haslam já tinha conseguido duas voltas acima da marca das 100 milhas por hora, considerado então algo excepcional.

Nesse ano, o jovem que começara a competir em 1969, numa Suzuki, recebeu o prémio Grovewood para o mais promissor novo piloto. Logo no ano seguinte, porém, Phil Haslam perderia a vida tragicamente, quando a sua moto falhou na zona da Ponte e o avanço do seu guiador foi colhido por outro piloto, Derek Chatterton, o que projetou piloto e moto mesmo na trajetória de Steve Machin, causando-lhe a morte. 
Antes disso, já o outro irmão de Ron, portanto tio de Leon, era diferente, por ter escolhido os sidecar para competir. Isto porque, em 1976, ficou sem a carta e decidiu dedicar-se às corridas. O primeiro sidecar usado ainda tinha um motor BSA, mas depois, em 1983, seguiu-se-lhe um mais competitivo Seymaz.


Terry, o dos sidecar

Terry, o dos sidecar

Porém, mais uma vez a tragédia espreitava, e Terry Haslam e o seu pendura, John Gainey, bateram violentamente em Assen, na ronda final do Europeu de sidecars, em Setembro de 1984. 

E se o pendura escapou, apenas com algumas lesões internas, Terry teve morte instantânea. Sem nunca o ter chegado a conhecer, tinha tirado uma foto de Ron Haslam, a seu lado na grelha de partida em Donington, pouco tempo antes. Como é certamente a última foto dos irmãos juntos, ofereci-a pouco depois a Ron, que me agradeceu emocionado.

Também notável é que já nessa altura os irmãos (um muito jovem Ron Haslam já tinha começado a correr em 1972, com apenas 15 anos) eram apoiados por um verdadeiro mecenas das corridas em Inglaterra: Mal Carter. 

O dono das Pharaoh Garages, que faleceu há poucos anos, tinha apoiado os Haslam (que ostentavam sempre a cabeça do Faraó nos capacetes) antes de apoiar o seu próprio filho Alan Carter. Isto, em si, é digno de nota, porque Carter viria a ser o mais jovem vencedor de um grande prémio britânico, apenas na sua segunda corrida do Mundial de 250, no Grande Prémio de França de 1983… 

Alan Carter na Cobas

Alan Carter na Cobas

Não só Alan tinha então apenas 18 anos, mas a sua marca permaneceu durante muito tempo como o último britânico a ter ganho um Grand Prix, salvo erro, até Scott Redding ter ganho nas 125cc em 2008.

Ron Haslam, nascido a 22 Junho de 1954, o próximo do clã a chegar à ribalta, começou ainda mais jovem, provavelmente influenciado pelos irmãos pois todos (eram 10!) cresceram numa quinta onde sempre houve motos… e as azinhagas de Nottinghamshire, estreitas e sem trânsito, eram propensas a velocidades imprudentes! 

Como vimos, estreou-se numa Norton Commando em 1972, mas a morte já referida do irmão Phil fê-lo parar em 1974. 

Regressado em 1975, em 1976 já corria para a Honda Inglaterra, conseguindo 16 vitórias. Pouco depois, em 1978, consolidou a sua fama de grande versatilidade competindo em 125, 250, 500, 1000, Superbike e F1TT… 


Ron Haslam na Norton

Ron Haslam na Norton

No ano seguinte, adquiriu também uma 350 e tornou-se no primeiro piloto a ganhar 5 categorias no mesmo dia em Oulton Park e pouco depois, em Carnaby. Competiu também em Resistência, com um melhor resulta em segundo, nas 8 Horas de Suzuka de 1979.

Entre 1979 e 1984, Ron Haslam conquistou 4 títulos britânicos: os TT Formula One de 79 e 82, o MCN British Streetbike de 1981 (onde ganhou 7 das 8 corridas!) e a série World of Sport Superbike, patrocinada por uma cadeia de televisão, em 1984.

Outro recorde são 6 vitórias no “nosso” Grande Prémio de Macau. A ELF francesa convidou-o para pilotar a sua moto experimental, numa série de tentativas, que resultaram em recordes do Quilómetro lançado, 400 m de arranque, e 10 Km de partida parada.

Com estes antecedentes, não é de admirar que Leon Haslam estivesse destinado a grandes coisas… 

Ron Haslam e a Honda ELF

Ron Haslam e a Honda ELF

O benjamim da família, nascido a 31 Maio de 1983, é um batalhador e não teve uma carreira fácil. Há uns anos, quando começou a aparecer (sempre o conheci, mas do parque infantil de Donington, onde por vezes brincou com o meu filho Robert) entrevistei o pai a propósito, e a primeira coisa que nos disse foi: 
“Nunca o empurrei para as corridas, aliás tinha esperanças que ele fizesse outra coisa, mas quando se decidiu, então dei-lhe todo o meu apoio!” Como o pai era alcunhado “Rocket (foguete) Ron”, o filho ficou “Pocket Rocket” (foguete de algibeira) por ser mais pequeno.
Leon Lloyd Haslam chegou finalmente ao Mundial de SBK em 2003, tendo pilotado uma variedade de marcas incluindo Ducati, Suzuki, e depois entre 2009 e 2015 Hondas (lembram-se do brilharete com a HM Plant em 2008, um pódio em Portimão?) BMW, Aprilia, e finalmente Kawasaki. 
É com esta marca que se juntará a Jonathan Rea na equipa oficial já para o ano, onde vai ocupar o lugar de Tom Sykes. 
Das SBK, e até agora, leva 5 vitórias, 39 pódios, e 6 "poles" em 213 corridas. Já no campeonato Britânico, onde competiu com Ducati, Honda e Kawasaki, produziu 69 pódios, entre os quais assegurou 24 vitórias e 16 poles até 2017.
Em 2018, conquistou o título com 15 vitórias em 26 corridas, só tendo ficado fora do pódio em 5 delas, e uma delas para assegurar a conquista do título, na derradeira ronda, em Brands Hatch, quando tacitamente se deixou ficar em sexto para não arriscar e conquistar os poucos pontos que necessitava para a consagração.
Quem sabe aonde ainda chegará o mais jovem membro do clã Haslam... Ficamos à espera de ver!

andardemoto.pt @ 17-10-2018 23:52:00 - Paulo Araújo