Paula Kota

Paula Kota

OPINIÃO - Estórias de viagem

Sorte de viajante

A paisagem embriagante distraiu-me e deixei cair a noite. Chovia levemente. Faltavam 50 km para o destino... 

andardemoto.pt @ 22-11-2018 18:00:00 - Paula Kota

Entretanto tinha ficado escuro como breu, e caía cada vez mais água! Vislumbrei uma seta que parecia apontar para uma povoação.

Aproveitei e fui abastecer o depósito para qualquer eventualidade. Perguntei no posto por um Hotel. Havia um ali na vila, mas estava esgotado porque havia uma reunião de uma empresa qualquer. O empregado, que não falava uma palavra de inglês, apontou no mapa para uma cidade. Eram os tais 50 km que não me apeteciam fazer, para encontrar outro Hotel. Face à minha cara de desespero o homem fez um gesto para esperar. Veio o dono, que falava um inglês rudimentar. Estava escuro, chovia e eu estava sozinha. Agarrou no telefone e falou uns minutos. Fez um gesto para seguir atrás do carro dele.

Não havia ninguém nas ruas. Alguns fracos candeeiros iluminavam a estrada e faziam brilhar a chuva. Entrámos num pátio com edifícios à volta. Um homem esperava-nos. Num mau inglês apontou para o edifício da direita que tinha um quarto livre:  São 5 euros.

Ainda sentada em cima da moto, só tinha tirado o capacete, fiquei parada sem saber o que dizer ou fazer. A sorrir, o dono do posto de abastecimento explicou-me que estávamos na escola primária que tinha um edifício de residência para os professores deslocados. Desejou-me uma boa noite e foi-se embora.


O encarregado deu-me um par de lençóis, ligou o termo-acumulador e disse que me esperava na sala comum. Um duche quente consolou-me. Tinha de encontrar comida. Quando desci à sala, o simpático encarregado estava acompanhado pelo diretor da escola, que entretanto tinha voltado com um kebab (espetada de borrego) para o meu jantar. 

Esperaram pacientemente e depois de eu acabar de comer cravaram-me de perguntas. A conversa durou muitas e boas horas.

No dia seguinte acordei com o som dos cânticos a chamar à oração, e o chilrear de crianças a brincar. Saí do quarto já pronta para partir. Tinha um croissant e um iogurte amargo à minha espera. A moto estava rodeada de petizes que lhe tocavam com admiração. 

Quis pagar, mas não me deixaram. Tinham todo o gosto em me ajudar. Num cruzar de braços sobre o peito, o diretor da escola disse-me: Respect. 

Sem palavras, agradeci e despedi-me com o mesmo gesto. Mal saí para a estrada, outro pensamento dominou o meu raciocínio: o Irão está muito próximo.


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