Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Aquilo que não sabe sobre o Lés a Lés Offroad 2019

Já toda a gente sabe que o Lés a Lés Offroad atravessa Portugal de uma ponta à outra num trajeto com cerca de 1.000km dividido em 3 dias/etapas. Mas aquilo que a maioria das pessoas não sabe é tudo aquilo que se sente por quem realmente está lá e vive esta aventura de forma intensa e entusiasta.

andardemoto.pt @ 4-11-2019 20:00:00 - Márcia Monteiro

Se pensa que o Lés-a-Lés Offroad se trata de um passeio meramente turístico, está muito enganado(a): o Lés a Lés Offroad permite-lhe conhecer Portugal através de uma perspetiva completamente diferente, chegando a locais onde nunca conseguiria chegar de automóvel, explorando aldeias e vilas do nosso Portugal profundo que nos fazem ter a certeza absoluta que estamos num país incrível para andar de moto. Esta iniciativa promovida pela Federação de Motociclismo de Portugal não é apenas sobre os locais por onde o pelotão passa, mas sim sobre os momentos que guardamos para sempre na nossa memória. São os amigos que revemos de ano a ano, dos abraços e dos sorrisos saudosos e da vontade de rolarmos juntos. É o sentimento de inter-ajuda que todos os pilotos têm uns com os outros, é passarem por nós nos mais variados trilhos e perguntarem se está tudo bem, mesmo quando não nos conhecem de lado nenhum, é terem a preocupação de levantarem o polegar (uma linguagem própria bem conhecida da malta do offroad) para mostrar que está tudo bem e que podem seguir viagem. É levarmos as nossas capacidades físicas ao limite, muitas vezes com mais de 8h de condução diária, e percebermos que a nossa mente é muito mais forte do que o nosso corpo pois não cedemos à tentação de parar ou desistir quando o corpo pede para descansar. A nossa mente comanda a nossa vontade. Confesso que existem muitos locais por onde passei que já não guardo memória, estava demasiado concentrada na condução. Mas é precisamente nesses momentos em que eu tenho a certeza absoluta que estou ali a 100%... posso não me lembrar de todos os locais mas garanto-vos que não me lembro sequer dos problemas, das responsabilidades, dos compromissos etc... existe coisa melhor do que esta? É termos a certeza que embora esta iniciativa não tenha fins competitivos, existe uma competição muito forte que todos nós fazemos, a competição connosco próprios: “eu tenho de me superar e chegar ao fim”. Se pensa que qualquer pessoa consegue fazer isto, também está muito enganado(a). Quer perceber porquê?

Primeiro dia:

O despertador tocou às 5h da manhã. A primeira etapa que iria ligar Vila Pouca de Aguiar à Pampilhosa da Serra não era das mais longas, mas a dureza do percurso e as baixas temperaturas matinais adivinhavam uma etapa complexa onde o principal objetivo seria terminar antes do anoitecer.

Às 6h30 iniciei o percurso e 15 minutos depois fui obrigada a parar. Estava noite cerrada, a visibilidade era pouca (mesmo com a iluminação da moto) e as temperaturas rondavam os 5 graus. Tempo para beber um café, aquecer as mãos e seguir viagem. Os primeiros raios de sol surgiram no horizonte e logo após uma rápida passagem por Vila Real, chegou a hora de percorrer as imponentes serras escarpadas do rio Corgo assim como a antiga linha da CP (já desativada) que nos levou até às deslumbrantes paisagens do Douro Vinhateiro.

Foi a partir deste momento que eu senti que a verdadeira aventura começou: percursos técnicos e muito duros repletos de subidas e descidas com muita pedra solta, curvas e contracurvas onde quase não havia tempo de recuperar o folgo e limpar o suor. Estava em contrarrelógio para o anoitecer e já só pensava chegar à Pampilhosa da Serra com a luz do sol. Felizmente consegui.

Segundo dia:

O despertador tocou às 5h30 pois a falta de alojamento perto do início da 2ª etapa, levou-me a pernoitar a 30km da Pampilhosa da Serra o que me custou mais 45 minutos de viagem até ao local do arranque. As primeiras dores musculares começaram a surgir, mas desistir não era opção.

Embora atrasada, iniciei a etapa bastante otimista visto que seria a mais curta, mas estava longe de imaginar que iria percorrer locais tão diversificados quanto possível. Percorri deslumbrantes trilhos junto ao Rio Zêzere, mas foi na Serra de Mação que me diverti à grande. Percurso técnico, curvas fechadas e um sobe e desce constante em pedra solta, mas menos ingreme do que as serras transmontanas. Passagem também por Pedrógão Grande, Montargil, Couço e depois... bem a surpresa veio depois.

Muitos kms de areia solta até Coruche. No início desta etapa desistir não era opção, mas a areia ribatejana já ao final do dia, onde o meu rendimento físico já não era o mesmo, levou-me a questionar se iria conseguir ou não. Os últimos 30km da segunda etapa transformaram-se em sofrimento, mas cheguei ao fim antes de anoitecer.


Terceiro dia:

Chegamos à etapa mais longa (350km) e mentiria se dissesse que isso não me assustava tendo em conta as dores musculares e o cansaço físico. A manhã iniciou muito fria e o nevoeiro mesclado com o pó tornou a visibilidade quase nula. No entanto, assim que o sol raiou e as temperaturas começaram a subir, surgiu o animo que eu tanto precisava para continuar. 

O percurso apresentou-se mais rolante com estradões muito rápidos e algumas surpresas pelo meio tais como alguns percursos técnicos e uma curta passagem por uma pista de motocross. Já no topo da Serra Algarvia era possível avistar Faro e aqui era quase certo o pensamento que me assaltava a mente: vais conseguir. Pouco depois das 18h cortava a meta final e nada me dava maior satisfação do que saber que custou, mas consegui.

Na minha opinião, tendo em conta a minha participação nas 4 edições anteriores, a edição de 2019 foi a mais exigente em termos técnicos e foi também a mais completa pois permitiu experienciar quase um pouco de tudo: pedra, areia, terra, estradões, trilhos, etc. Sabemos que é impossível agradar a gregos e troianos e se as “bigtrails” se queixam das picadas em pedra solta, as “cabras” também se queixam do alcatrão.

É necessário sermos conscientes que esta iniciativa recebe qualquer tipologia de moto preparada para offroad, das mais pequenas às maiores e até mesmo scooters, por isso é perfeitamente normal que vão existir partes do trajeto que vão agradar mais a uns e menos a outros (e vice-versa). O mais importante é divertirmo-nos e termos a certeza que chegamos ao fim em boas condições.

O que mais gostei:

- os percursos técnicos e a sua dureza que trouxe mais adrenalina

- a beleza paisagística de alguns locais que foi indescritível

- a qualidade das refeições melhorou em relação a anos anteriores

- o sistema de segurança do parque fechado para guardar as motos

- a maior parte dos postos de abastecimento estavam bem sinalizados

- a amabilidade de toda a organização e patrocinadores

O que menos gostei:

- as ligações em alcatrão (mas entendo que em alguns casos são necessárias)

- algumas partes do percurso eram semelhantes a outras edições (também entendo que num país tão pequeno, não é fácil encontrar trajetos sempre diferentes)

- a distância dos alojamentos para o início das etapas. É necessário encontrar vilas ou cidades que tenham capacidade hoteleira para receber uma iniciativa desta dimensão.

- na minha opinião, à semelhança do Lés a Lés de estrada, os participantes deveriam estar identificados com um colete (como aconteceu na 1ª edição) por questões de segurança.

- algumas etapas iniciaram demasiado cedo e outras foram demasiado longas. É certo que são pequenos obstáculos que se superam, mas talvez encurtar algumas partes seja a solução.


Se tenciona participar no próximo ano, tenha em consideração os seguintes tópicos:

- A condução em “offroad” é muito distinta da “onroad” e mesmo para quem faz offroad com frequência, é muito diferente fazer um passeio de 100km de outro com mais de 300km durante 3 dias. É preciso resistência física? Sim é, muita resistência física, muita determinação e também muita motivação porque um corpo cansado vai dizer-lhe de forma repetida “eu preciso parar” mas nós temos de dominar a mente e repetir “eu tenho de continuar”.

- Ainda sobre a resistência física: quem participa no Lés a Lés Offroad sabe que dormir pouco e acordar de madrugada para iniciar as etapas faz parte. Ter dores musculares também faz parte. Ter bolhas e calos nas mãos é o pão nosso de cada dia. Ter a pele no rosto a escamar devido ao pó é a coisa mais natural do mundo e ter feridas no corpo provocadas pela fricção dos equipamentos é quase inevitável. Com o tempo, a experiência mostra-nos como contornar estes pequenos inconvenientes, mas se pela primeira vez tenciona participar em algo deste género, convém estar preparado(a) para isso.

- Todos os anos a história repete-se e ninguém está livre (nem mesmo eu): as motas avariam. Avariar faz parte, mas conseguem imaginar o quanto é difícil ter a mota avariada no topo de uma serra onde mais nenhum veículo consegue chegar? E quem fala em avaria, fala também em furos e outras coisas mais. É por isso que nestas condições é imprescindível ter uma pequena mala de ferramentas. A mala que levo à cintura pesa mais de 3kg e acreditem que em percursos tão longos, custa bastante na zona lombar. Mas foi graças a isso que já me safei muitas vezes de ter a mota avariada no meio de “nenhures”. É incrível a quantidade de motos que não chegam ao fim. É necessário que as mesmas estejam muito bem preparadas e não convém participar num Lés a Lés Offroad com uma mota “mais ou menos”.

- Infelizmente existe uma outra história que se repete que não é possível controlar, mas é possível prevenir: acidentes. Não é novidade para ninguém a quantidade de pessoas que vão parar ao hospital no decorrer do Lés a Lés Offroad. Não lhe digo isto para assustar, mas sim, para apelar à condução responsável. O Lés a Lés Offroad não é uma prova, muito menos uma competição, é necessário ter uma condução responsável por nós e pelos outros também. Conforme tenho vindo a dizer, o mais importante não é cumprir um cronometro, não é ser o primeiro a chegar... o mais importante é divertirmo-nos e chegarmos bem ao fim.

Boas curvas para todos!

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