Recordando ANGEL NIETO - O Campeão dos 12 + 1

Angel Nieto foi uma verdadeira lenda viva, só atrás do italiano Giacomo Agostini como o piloto com mais títulos mundiais de todos os tempos. Conseguiu o feito numa era em que tudo era, por um lado, mais difícil, mas por outro, mais simples, também. Em suma, quando talento,  determinação e vontade de vencer contavam mais que motos de fábrica ou grandes orçamentos.

andardemoto.pt @ 4-8-2017 11:17:55 - Texto: Paulo Araújo

É difícil nos nossos dias avaliar exactamente até que ponto Angel Nieto, o multi-campeão mundial agora falecido, na sequência de um acidente rodoviário em Ibiza, foi responsável pelo crescimento do motociclismo em Espanha.

O primeiro título de Nieto em 125, em 1971, foi de tal modo empolgante que quando o espanhol arrebatou o título ao vencer a corrida final em Jarama, o público espanhol invadiu a pista para o rodear - e os restantes concorrentes entraram pela multidão a 160 Km/h, resultando, miraculosamente, só num espectador com uma perna partida!

Assim foi a carreira de Angel Nieto, empolgando multidões, ao longo de anos que elevaram a Espanha à maior potência mundial do motociclismo de velocidade, catapultando os seus melhores pilotos para o estatuto de heróis nacionais. Nieto nasceu, de facto, em Zamora, a 25 de Janeiro de 1947- mas mudou-se com a família para Madrid quando contava pouco mais que um ano, razão porque a maioria o considera Madrileno. 

Abandonando a escola aos 13 anos, para trabalhar numa oficina de motos, começa a pensar em correr. Estreia-se pouco depois na velocidade, em Granada, numa corrida de feira, com um terceiro lugar na classe de 125 aos comandos duma velha moto de 65cc! De seguida, mudou-se para Barcelona, onde arranja trabalho na fábrica da Bultaco.

Depois duma série de peripécias, quando começara a assistir um piloto da época, é despedido e acaba a trabalhar para a Ducati Mototrans. Ao mesmo tempo, continua a correr, mas numa Derbi. Aos 16 anos, ingressa mesmo no departamento de competição da Derbi e ,com essa marca, consegue o seu primeiro resultado no Mundial de 125: 5º lugar no GP de Montjuic.

Quando regressa à Ducati, em 1965, é já como piloto profissional. Um ano e meio depois, com numerosas vitórias nacionais, volta à Derbi e em 1967 faz a dobradinha dos dois títulos espanhóis de 50 e 125cc, prenúncio do que estava para vir…

Com a Bultaco feita na Holanda

Com a Bultaco feita na Holanda

Em 1969, já andava no Mundial, vencendo o seu primeiro GP de 50cc “fora de casa”, no Sachsenring, em 1969. Nesse mesmo ano, ganhou ainda na Irlanda, arrebatando o seu primeiro título de 50cc. 

Ao longo dos 15 anos seguintes, até 1984, dominou totalmente as 2 classes mais pequenas do Mundial, nunca acabando fora dos primeiros três lugares até à sua última vitória em GP em 1985- por essa altura, já a classe passara a 80cc. 

É incrível o incremento que o sucesso de Nieto deu ao motociclismo espanhol. O público aderiu às corridas, a imprensa divulgou, a indústria apoiou, e outros pilotos apareceram atraídos pelo prestígio da modalidade e estilo de vida milionário dos homens de topo.

Tudo começou pelo madrileno diminuto, que no seu dia era um piloto hábil, inteligente, sabendo poupar o material, ler uma corrida e pressionar os seus oponentes com pilotagem inspirada, ou pelo contrário, aguentar-se atrás para vencer na última curva! É assim que Barry Sheene o recordava, numa das corridas mais insólitas da sua carreira, que disputou contra Nieto. De facto, embora conheçamos o inglês do Mundial de 500, Sheene começara por, e era também um especialista, nas pequenas cilindradas.

Em 1971, chegara ao topo do Mundial de 125 com uma Suzuki algo ultrapassada que ele próprio preparava e ele e Nieto eram rivais para o título. Sheene recordava o GP da Holanda desse ano, quando Nieto se pôs a jogar, mais uma vez, a sua técnica de se deixar passar, seguindo Sheene como uma sombra, para depois ganhar facilmente à boca da meta, sabendo a sua Derbi de fábrica mais rápida que a velha Suzuki do inglês.


Um título mais recente, nas 125

Um título mais recente, nas 125

Só que desta, Sheene entrou no jogo, e os dois começaram… a arrastar-se por Assen, cada vez mais lentos, baixando os tempos por volta em 9 segundos, a ponto do terceiro classificado, Borje Jansson, começar a apanhá-los com o resto do pelotão. Então, os dois fizeram sinal um ao outro e puseram-se a andar a sério de novo…

O final da corrida foi disputado a ritmo alucinante e Nieto ganhou, com a manobra habitual, vindo depois em Jarama, como vimos, a vencer o título esse ano pela primeira vez. Depois dos sucessos de início de carreira com a Derbi, ainda pilotou para a Kreidler e Bultaco nas 50cc e mais tarde para a Minarelli. A sua carreira de piloto acabaria na Garelli em 1984, uma carreira recheada de sucessos nos Mundiais de 50 e 125 e com um número sem precedentes de títulos Mundiais, só batido pela quinzena de Giacomo Agostini.

Supersticioso, como tantos pilotos, Nieto não deixaria nunca os jornalistas referirem-se ao número 13 em relação aos seus títulos: “Doze mais um, hombre, doze mais um!”- corrigia, assinando igualmente nos autógrafos dados 12+1.

Ultimamente, passava muito tempo em Ibiza mas ainda acompanhava o Mundial de velocidade, como comentador para a TV espanhola e até há uns anos atrás apoiava as carreiras dos seus filhos Pablo e Angel Junior, além da do sobrinho Fonsi Nieto, que chegou a ser vice-campeão mundial de 250.

PALMARÉS DE ANGEL NIETO

Campeão Mundial 50cc - 6 vezes- 1969, 1970, 1971, 1972- Derbi; 1975 - Kreidler; 1976 - Bultaco

Campeão Mundial 125cc - 7 vezes– 1971, 1972- Derbi; 1979, 1981-Minarelli; 1982, 1983, 1984-Garelli

Vitórias em Grandes Prémios: 90 ao todo, 28 em 50cc, 62 em 125cc

9 Vezes Campeão de Espanha em 250cc e inúmeras vitórias nas pequenas cilindradas



andardemoto.pt @ 4-8-2017 11:17:55 - Texto: Paulo Araújo