Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Motociclista: esse bicho raro

Nos filmes, os motociclistas são os rufiões, os vilões e os criminosos. Os feios, porcos e maus que têm uma paixão por caveiras, que espancam tudo o que mexe e gelam qualquer “pessoa normal” só com o olhar. Na vida real as coisas são diferentes, mas ainda assim o verdadeiro motociclista é muitas vezes visto como um “ganda maluco” que pertence a uma espécie de seita estranha com manias e gostos particulares. E isto intriga ainda muita gente.

andardemoto.pt @ 23-3-2018 17:29:17 - Susana Esteves

Mas faz sentido? Claro que não! Afinal de contas, somos perfeitamente normais. Senão vejamos:

- Os verdadeiros amantes das duas rodas são aqueles que falam das suas motas como um bem de primeira necessidade, sem o qual não conseguem viver. Entram em ansiedade quando um grande passeio se aproxima, e começam a ressacar quando passam algum tempo ao volante de um automóvel.

- São aqueles que congelam tudo à sua volta quando ouvem ao longe um motor mais ruidoso, qual condicionamento de Pavlov. “Que é isto?” “Onde é que ela está” “wow, tão gira!” “Era uma XPTO com N cavalos, etc, etc, etc”. E só depois regressam ao mundo. É incontrolável (e não há medicamentos para isto).


- São aqueles que consultam a meteorologia várias vezes por semana à procura do sol e do tempo seco para tirarem a mota da garagem.

- São aqueles que sob chuva, vento, ou tempestade de granizo não abdicam da companheira de viagem e que no final ainda dizem às pessoas que os consideram completamente malucos: “Não custa nada, prefiro andar debaixo de chuva e vento e frio do que de carro!”

- São aqueles que chegam todos molhados e passam 10 minutos na casa de banho, antes de entrarem no escritório, a tentarem secar as calças no secador das mãos. (É necessária alguma flexibilidade).

- São aqueles que quando caem de mota, ficam todos esfolados, cheios de sangue, e sem se mexer perguntam: “Como é que está a minha mota? É grave?”.

- São aqueles que quando estão numa fila de trânsito partilham todo o rol de asneiras que conhecem e acham que ninguém sabe conduzir, enquanto “choram” sempre que uma mota passa por eles.

 - São aqueles que por vezes se esquecem que não estão em cima de uma mota e tentam fazer manobras totalmente absurdas com o carro.

- São aqueles que dizem que desde que andam de mota ficam menos vezes doentes, apesar de passarem parte do inverno molhados ou gelados (e é verdade).

- São aqueles que compram inúmeros acessórios para a mota, desde punhos aquecidos a descansos originais, proteções XPTO, suportes para telefone, peças coloridas e um milhão de outros extras, mas depois acham que é altamente pindérico colocar vinil num carro ou gastar um dinheirão em tapetes racing.

- São aquelas que abdicam dos brincos compridos, das malas grandes, dos cabelos arranjados, dos vestidos e das saias, das maquilhagens sem falhas, das sandálias e dos saltos agulha a cada viagem que fazem.

- São aquelas que à hora de almoço vão beber café ou às compras com um casaco cheio de proteções e enchumaços que pesam 10 quilos e transformam qualquer figura feminina num retângulo disforme.

- São aqueles que vão às compras, chegam ao pé da mota e percebem que nem metade do que está nos sacos cabe lá dentro. São também estes que rapidamente se tornam profissionais especializados na ciência do Transporte Criativo.   


- São aquelas que têm que ouvir vezes sem conta: “Que giro uma mulher motard. Tem o quê, uma acelerazita?”

 - São os “durões” que carinhosamente se referem às motas como “a minha menina”. Aqueles antes de irem embora limpam manchas e potenciais riscos. Os que durante o dia vão “dando um olinho” para ver se ela continua bem e cheia de saúde.

- São os que organizam as ideias e libertam o stress com uma viagem a sítio nenhum. Os que para pensar vão dar uma volta. Os que têm inúmeras conversas sérias com o “capacete”, ou os que abanam estranhamente a cabeça durante toda a viagem ao ritmo da música que vão a ouvir.

- São os que andam com sapatos sobresselentes na mala, e que roubam sorrateiramente as luvas plásticas disponíveis nos postos de gasolina.

- São as que conseguem enfiar numa mochila minúscula roupa para 5 dias, os produtos de higiene essenciais, a escova, um conjunto de sapatos extra, o chapéu, os óculos de sol, os cremes, uns snacks para o caminho, a garrafa de água, uma toalha e mais 1 ou 2 acessórios. Só para poderem fazer a viagem de mota.

- São os que conseguem andar com as calças molhadas durante todo o dia, sem nunca se queixarem ou perderem a boa disposição, e os que já desenvolveram a técnica de descolar a roupa molhada do corpo sem ninguém ver.

- São os que se vestem, despem e calçam em público perante o olhar de pessoas que questionam a sua paciência.

- São os que transportam os sacos do supermercado nos punhos da mota, para não irem a casa buscar o carro.

- Mas também são os que gostam daquele barulho rouco, do calor do depósito nas pernas nos dias mais frios, do vento na cara, do cheiro da primavera ou da terra molhada que entra pelo capacete.

 - São os que não trocam nada disto por nada.

- São bichos raros, mas com orgulho.

Boas curvas

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andardemoto.pt @ 23-3-2018 17:29:17 - Susana Esteves