Teste Moto Guzzi V7 III Stone - Reeditar um clássico

Há motos que nos tocam. As razões são diversas e abundantes, mas na generalidade elas conquistam-nos pela sua capacidade de nos fazer felizes.

andardemoto.pt @ 13-9-2017 09:55:05 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira

Já há muitos anos que a Moto Guzzi V7 ocupa um cantinho especial do meu coração, e tendo conduzido todas as versões, esta 3ª série que comemora os 50 anos de vida do modelo, é o culminar de uma evolução fantástica de uma moto que conseguiu atingir padrões muito aceitáveis de desempenho, sem perder o carisma e a genuinidade do modelo original, desenvolvido por Giulio Cesare Carcano.

É curiosa a história da V7. Mais acaso do que planeamento, já que o motor biciclíndrico em V a 90º foi originalmente concebido, no dealbar da década de 60 do século passado, para equipar nem mais nem menos do que o mítico Fiat 500!

Carcano garantia uma velocidade máxima de 140km/h, e o negócio só não foi avante porque Vittorio Valletta, então presidente da Fiat, exigia uma capacidade de fornecimento para a sua fábrica de Lingotto, impossível de ser alcançada pela fábrica de Mandello del Lario.

Carcano não desperdiçou o trabalho, e redesenhou o projecto, aumentando a cilindrada para 754cc para instalar o motor provido de veio de transmissão no "3X3", um veículo utilitário de 3 rodas, com tracção integral, destinado a ser usado pelo exército italiano nos Alpes.

Ao mesmo tempo, o governo italiano consultou o mercado para comprar motos para a polícia de trânsito. No caderno de encargos exigia-se que o modelo teria que ser capaz de viajar 100.000km, e o vencedor seria o que oferecesse menores custos de manutenção e maior fiabilidade.

Carcano nem hesitou, e instalou o seu motor, com uma cilindrada revista para 703,3cc e uma potência de 40cv, transversalmente, num quadro de moto, conseguindo um conjunto robusto, de apenas 230kg, que aliava a fiabilidade de um automóvel com a agilidade de um veículo de duas rodas, a um preço muito inferior e uma fiabilidade superior, comparado com os modelos das marcas alemãs e inglesas.

Assim nasceu a V7, cujo sucesso foi tão grande que chegou a conquistar a preferência da “Highway Patrol” de Los Angeles, que as começou a usar em 1964, preferindo-as pela sua fiabilidade e baixo custo de manutençao, às marcas domésticas, e também o coração de milhares de motociclistas a partir de 1966, ano em que começou a sua produção em massa.

Para mim há essencialmente dois tipos de motos. Aquelas que exigem muito de nós, e aquelas a quem podemos exigir muito. Pessoalmente gosto que uma moto exigente, que me mantenha desperto para o facto de que não estou apenas sentado a apreciar a paisagem, e que me obrigue a ter presente as suas limitações e a descobrir o seu “sweet spot”, mas também gosto de uma moto a que possa exigir muito em termos de prazer de condução, obviamente tendo em conta o propósito para que cada uma foi concebida.

E a Moto Guzzi V7 é uma moto que exige muito de nós, mas que em contrapartida devolve todo o empenho que recebe, em catadupas de prazer de condução.

Claro que à maioria dos motociclistas, este raciocínio nem sequer deve estar a fazer qualquer sentido, mas vou tentar esclarecer: Num mundo em que a cavalagem é a maior fixação da humanidade motociclística, perdem-se outros valores que são muito mais importantes para se desfrutar de uma verdadeira sensação de liberdade.


Desfrutar de uma boa estrada de curvas, com boa paisagem, ao pôr-do sol, e explorar a relação homem máquina em todo o seu esplendor, necessita que a máquina que se conduz também tenha personalidade e carácter. Que responda aos nossos intuitos com as suas próprias limitações e caprichos, de forma a haver reciprocidade e identificação.

Poucos vão provavelmente perceber isto, e excepção feita a alguns motociclistas da “velha guarda” que sabem do que estou a falar, poucos estão interessados neste aspecto desta verdadeira pérola com duas rodas.

Para muitos será suficiente o facto de saberem que a Moto Guzzi V7 III é uma moto confortável, extremamente fácil de conduzir e com uma inquestionada reputação de muito fiável.

Quando me sentei aos seus comandos, e practicamente 3 anos depois de ter conduzido a versão anterior da V7, também uma Stone (II), vinha de testar uma série de motos que não se podem comparar a esta Moto Guzzi. Motores muito mais nervosos, alguns com potência mais do que suficiente para nos fazer perder todos os pontos da carta de condução num só passeio, mas quase todos eles, de certa forma, carentes de carisma.

E, para mim, nos dias que correm, sem conseguir esquecer algumas motos “do meu tempo”, o carisma é um dos grandes catalisadores do prazer de condução, e como tal fundamental.

Numa moto que se pretende polivalente, o factor conforto é fundamental. A V7 III oferece uma posição de condução relaxada, muito ergonómica, com o fundo das costas bem assente num estofo muito confortável, a apenas 770 mm do chão, e pernas flectidas o suficiente para se permanecer confortável durante muitas horas, e com os joelhos bastante mais afastados das cabeças dos cilindros.

O conforto continua, com a suspensão que, apesar do curso curto no eixo traseiro (apenas 80mm que contrastam com os 130mm da forquilha) oferece um excelente desempenho, tanto ao nível do conforto como ao nível da estabilidade.

A travagem, potente e doseável, a cargo de material Brembo, está muito para lá das capacidades do motor que agora, nesta sua versão Euro4, debita uns mais do que suficientes 52cv. Com a electrónica revista, e a apresentar controlo de tracção, a “pequena” Guzzi tem uma resposta pronta ao motor de arranque e ao acelerador, e um “ronco” bastante grave e agradável, quase nostálgico.

O consumo registado é impressionantemente baixo, inferior aos 4,5 litros aos 100 quilómetros, apesar de ser verdade que na Guzzi nada instiga à velocidade, e se consegue facilmente cumprir os limites de velocidade do código da estrada, sem qualquer tédio, e sempre com um sorriso estampado na cara.


A sua elasticidade é quase surpreendente, permitindo rolar em sexta velocidade entre os 50 (ou mesmo 40), e uns bastante aceitáveis 160 km/h, sem batidas ou ruídos desagradáveis. Acima dos 160 tem-se a sensação que a V7 já vai a arfar, mas ainda se conseguem espremer mais duas dezenas de quilómetros por hora. A V7 gosta de mostrar o seu binário, pelo que, nas relações mais curtas, o motor mostra-se demasiado impulsivo, e o cardan da transmissão acusa o efeito, preferindo mudanças mais altas e regimes abaixo das 3.000 rpm, faixa em que debita doses mais do que suficientes de binário, com extrema suavidade.

Em estrada, o novo quadro e a maior disponibilidade do motor a alta rotação fazem toda a diferença, quando comparada a com série II que vem substituir. Mais estável, também por consequência dos melhores amortecedores traseiros

No meio do trânsito, a grande brecagem, o peso contido, a facilidade com que os pés chegam ao solo, a leveza da embraiagem e a suavidade da caixa de velocidades, apenas são penalizados pela dificuldade em engrenar o ponto morto. Sobretudo parado, e tanto mais com o motor ainda frio. Segundo consta, esse facto deve-se à juventude, pelo que se espera que ao cabo de alguns milhares de quilómetros, a situação melhore substancialmente.

Efectivamente, neste teste de longa duração, em que tive oportunidade de rolar quase 2.000 km com esta unidade que era quase a estrear quando a fui buscar, a tal dificuldade, em seleccionar o neutro, diminuiu ligeiramente. Entretanto, também eu me fui habituando a desengatar ainda em andamento, e esse pequeno defeito passou a ser minimizado.

E foi com bastante tristeza que a fui devolver ao importador. O seu aspecto minimalista, a qualidade de construção, o pequeno painel simples e de aspecto antigo mas com toda a informação necessária para o dia-a-dia, a boa iluminação, o descanso lateral muito acessível e estável, o canhão de ignição bem colocado, e a facilidade que mostra a circular com passageiro, foram factores que mais do que me convenceram de que esta é, definitivamente, a moto ideal para o dia-a-dia dos motociclistas mais nostálgicos, que não se revêem em motos cheias de plásticos ou de gadgets perfeitamente desnecessários numa utilização normal.

Se ficou curioso marque um test-ride num concessionário da marca. Vá de espírito aberto e deixe-se encantar. Há quatro versões diferentes, a começar nesta Stone, que é a mais simples, passando pela Special de jantes raiadas, e pela Anniversario que ostenta um lindíssimo depósito de combustível cromado, e terminando na exclusiva Racer, com o seu quadro pintado de vermelho. E depois, há ainda toda uma gama de acessórios originais que permitem adequar cada V7, ao gosto do seu proprietário.

andardemoto.pt @ 13-9-2017 09:55:05 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: ToZé Canaveira

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