Teste Ducati XDiavel S - Mudança de atitude

Cruiser desportiva ou desportiva em formato cruiser? A nova Ducati XDiavel é uma moto que não deixa ninguém indiferente. Nem quem a vê, nem quem anda nela. Saiba aqui porquê!

andardemoto.pt @ 27-5-2016 01:06:45

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Ducati XDiavel S | Moto | Diavel

Texto: Rogério Carmo      Foto: ToZé Canaveira


Foi apresentada há pouco mais de seis meses, na EICMA, o Salão de Milão, e foi um sucesso imediato, tendo sido logo nomeada a mais bonita moto do certame.

As suas linhas estonteantes não deixam ninguém indiferente. Nem os fãs da marca, que nunca pensaram provavelmente ficar a babar-se em frente a uma cruiser, nem os mais cépticos perante a tecnologia italiana ainda a braços com uma fama de pouca fiabilidade, nem os verdadeiros bikers para quem esta “V-Twin” mais parece uma criação destinada a concurso de beleza.

Mas a verdade é que a XDiavel é sexy, é arrojada e é diferente. Tem pormenores literalmente diabólicos que a tornam irresistível a qualquer olhar e imune a qualquer preconceito.

É uma verdadeira “power cruiser” que desafia os cânones do seu género com prestações verdadeiramente avassaladoras e um comportamento dinâmico até agora nunca conseguido, nem de perto, por qualquer outra moto de série, ou por qualquer outra com pretensões a fazer parte dessa classe.

É mais leve, mais potente e mais ágil. E é ao mesmo tempo uma peça de design apaixonante. Em cada comando, em cada suporte, em cada instrumento, há detalhes para descobrir. A cada peça é exigida, a par com a funcionalidade, uma função estética igualmente importante.

É o design italiano no seu melhor.                         

Mas a XDiavel é mais do que design, e tecnologicamente é igualmente apaixonante.

O seu motor desmodrómico é derivado do da última versão da Multistrada 1200, e igualmente assistido pelo sistema DVT de variação de temporização de válvulas. Mas foi recondicionado em alguns elementos para melhorar o aspecto final (a bomba de água e as tubagens de refrigeração foram arrumadas de forma diferente).

Por via do aumento do curso dos pistões, a cilindrada ganhou 64cc, e o binário é repartido mais equitativamente ao longo de toda a faixa de regime, atinjindo o seu valor máximo às 5.000rpm. No entanto a potência máxima manteve-se praticamente igual e ao mesmo regime, registando 156cv (160 na Multistrada) às 9.500rpm. A XDiavel ainda apresenta, numa estreia da marca, uma transmissão final por correia dentada, que lhe confere uma grande suavidade de rolamento.

Com toda esta potência e considerando que em termos de peso a XDiavel pesa “apenas” 250kg (menos 50kg que, por exemplo, uma V Rod) ela está preparada para dar uma grande “cabazada” a qualquer concorrente do seu segmento, e a uma boa parte do resto da não concorrência.

Seja a direito, seja a curvar, qualquer outra moto vai ter ter que “suar as estopinhas” para acompanhar o andamento verdadeiramente diabólico que se consegue aos comandos desta Ducati.

Apesar de os avisadores dos poisa-pés rasparem no chão com alguma facilidade, sempre são 40º de inclinação, quase mais 10º do que a sua concorrência directa, e muito mais do que a maioria dos condutores utiliza, mesmo numa condução supostamente desportiva. E como não é só o motor que conta nestas coisas dos picanços, a ciclística não desilude minimamente.

Todo o equipamento é de grande nível e confere uma grande confiança sobretudo em ritmos mais rápidos. Na frente, as pinças Brembo M50, monobloco de 4 pistões com instalação radial, vêm a sua tarefa facilitada pela rigidez e desempenho da imponente forquilha invertida, completamente regulável, de 50mm de diâmetro.

Na traseira, o amortecedor Sachs consegue suportar a violência dos arranques, a carga nas curvas e ainda proteger minimamente as nossas lombares, mas sempre sem deixar de dar apoio competente ao impressionante Pirelli Diablo Rosso II, de medida 240, mesmo nos pisos mais degradados.

Claro que as ajudas electrónicas à condução são muitas e todas elas preciosas, na difícil tarefa de refrear os instintos bárbaros dos muitos cavalos do motor e os que consequentemente assolam o condutor.

O acelerador electrónico oferece três modos de condução, e o ABS tem incorporado o Bosch Inertial Measurement Unit (IMU) que faz a medição da inclinação e da velocidade, e actua de forma conveniente para que, mesmo no limite da inclinação, se possa travar a fundo... e sobreviver para contar a história.

Em andamento, esta Ducati oferece sensações fortes, e se a pusermos no seu meio ambiente, estrada aberta e de curvas de montanha, ela recompensa-nos com um elevado prazer de condução, seja a preferência fazer muitas passagens de caixa, ou seja usufruir descontraidamente do inesgotável binário.

Na cidade, podemos desfrutar da potência do motor para nos deliciarmos com vigorosos arranques, até porque outra das sensações fortes que se consegue com esta XDiavel é proporcionada pelo Ducati Power Launch (DPL), um sistema de assistência ao arranque, que permite sair disparado que nem um foguete, num arranque de partida parada, ao jeito das “Drag races”. Não vamos aqui falar dele, mas fica a promessa de que isso vai dar um próximo artigo nestas páginas (fique atento!).

Entretanto, vamos treinar um pouco os bíceps, já que são eles os únicos músculos do nosso corpo que nos mantêm agarrados à XDiavel, pois a posição de pés para a frente não nos deixa outra hipótese. Não é em vão que o assento tem aquele formato côncavo, que nos encaixa e de certa forma compensa o facto de não podermos usar os pés e as pernas para nos mantermos em cima da moto.

Por outro lado, circular em autoestrada contribui grandemente para o fortalecimento dos ditos bíceps, pois as elevadas velocidades que o motor proporciona, em simultâneo com a escassa protecção aerodinâmica, obrigam a um esforço verdadeiramente hercúleo para que a XDiável não nos fuja debaixo.

Mas é perfeitamente possível circular a velocidades completamente obscenas à luz do código da estrada; a questão é: durante quanto tempo as aguentamos?

Continuando com as ajudas electrónicas à condução, ainda é preciso mencionar o “cruise control” ou controlo automático de velocidade, sobretudo importante para nos manter descansados nas zonas urbanas de velocidade limitada, já que o dispositivo permite que se circule a 50km/h (a menos já não) evitando assim distracções que podem sair caras. O mesmo é válido para os limites das auto-estradas.

Depois ainda há o painel de instrumentos, em LCD a cores, com elevado contraste, e o sistema de navegação de acesso aos infindáveis menus de configuração de todos os sistemas, que permitem configurar detalhadamente todos os parâmetros do motor, do controlo de tracção e do ABS. A iluminação é de LED integral, disponibilizando ainda luzes de circulação diurna de alto brilho.

O sistema de multimédia incorporado permite emparelhar, via Bluetooth, tanto o telefone, como o GPS e o sistema de comunicação de condutor e passageiro, permitindo navegar no telefone para receber e fazer chamadas, mudar as “playlists”, ler os SMS, enfim… todas as modernices a que se tem direito.

No que diz respeito à ergonomia, tudo foi pensado para que todos possam encontrar uma boa posição de condução.

A Ducati anuncia 60 configurações possíveis: começando pelo assento, colocado a apenas 755mm do chão, com cinco regulações diferentes para permitir um bom apoio dos pés no chão, mesmo para os condutores de estatura mais baixa, passando pelo guiador, que pode ser ajustado em 3 posições diferentes, pelas manetes, que têm afinação, e pelos poisa pés que permitem ser recuados ou avançados, em 3 posições, ou colocados em posição central com recurso a um Kit de conversão.

Depois de me ter tornado íntimo desta XDiavel, ainda tive oportunidade de, pela primeira vez, poder sentar-me aos comandos da Diavel normal. E se dúvidas tivesse, estas são motos completamente diferentes em que, para além do nome, nada mais têm em comum.

Desde a posição ao “feeling” de condução, são máquinas completamente distintas, mostrando-se a XDiavel muito mais fácil de conduzir, mais ágil até, havendo vantagem na Diavel normal apenas pela posição de condução, que se torna mais ergonómica e menos castigadora ao longo de grandes períodos.

Esteticamente nem sequer há comparação, sobretudo com esta versão S da XDiavel. E mesmo a resposta do novo motor, sobretudo a baixos regimes, faz toda a diferença pela positiva.

Voltando de novo à XDiavel, os aspectos negativos são poucos, e quase irrelevantes quando comparados com o prazer de condução que proporciona. Mas pode-se reclamar da precaridade do assento do passageiro. Mesmo com a reminiscência de “sissy bar” que vem de fábrica, e que a moto que aqui testámos não tinha instalado, aquilo não são condições que se deem a ninguém de quem se goste, e menos ainda a alguém que goste de nós.

Mas também ninguém disse que esta era uma moto para passeios românticos. Não é mesmo! É para se ir sozinho e bem concentrado, e desfrutar da potência e de todo o arsenal tecnológico, até ao limite das nossas forças, e enquanto não nos for apreendida a carta de condução.

À suspensão traseira não se podem apontar defeitos, pois trata-se inquestionavelmente de uma suspensão desportiva de alto nível, mas a posição de condução põe-nos a jeito para umas valentes pancadas nos maiores desníveis do piso; e os pés colocados lá na frente nem nos permitem levantar o fundo das costas para deixar que as pernas absorvam o impacto. Mas isso são contingências do conceito “cruiser”.

Pessoalmente não gosto do motor de arranque. Demasiado lento e preguiçoso, dá frequentemente a sensação de que a bateria está demasiado fraca. É quase embaraçoso. O comportamento do motor a baixa velocidade também não é muito do meu agrado, já que, a manobrar ou no meio do trânsito, obriga a uma frequente e cuidadosa utilização da embraiagem.

Outra coisa que não gosto é do preço! 22.409€ estão completamente fora do meu alcance. E, sinceramente, também não tenho espaço para ela na minha sala! Mas reconheço que era uma daquelas motos que me iria dar muito prazer contemplar e levar a passear ao fim-de-semana.

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