A Revolta da Pendura

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OPINIÃO

Do medo à aventura

“Para onde vai ser a próxima viagem de moto?”Ainda me custa a acreditar que estão a falar comigo quando ouço esta pergunta.

andardemoto.pt @ 10-10-2026 12:30:00 - A Revolta da Pendura

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14 anos. Foi o tempo que passou entre o dia em que me sentei numa moto para fazer o exame de condução da categoria A e o dia em que voltei a sentar-me aos comandos de uma.

Durante esse tempo, deixei que o medo, a incerteza, a dúvida e todos os outros mil demónios que tinha na cabeça ganhassem. O exame de condução acabou por ser o último momento em que conduzi uma moto.

 Afinal, ninguém sai de um exame a sentir que sabe realmente andar de moto. Isso vem depois, com tempo, prática e quilómetros. No meu caso, esses quilómetros demoraram 14 anos a chegar.

Sendo mulher, baixa e com mais vontade do que força física, deixei que algumas ideias vivessem demasiado tempo dentro da minha cabeça.

 Acreditei que as motos eram demasiado pesadas, que não tinha altura suficiente, que me faltava força, que talvez simplesmente não tivesse nascido para as duas rodas. E, entretanto, a vida foi acontecendo. Marido, filha, trabalho, responsabilidades. Aquela vida adulta que, sem darmos por isso, começa a ocupar todo o espaço disponível. Fui-me convencendo de que aquela era a vida que tinha de ter, a vida que tinha escolhido e que tinha de construir.

Eu adorava andar de moto à pendura do meu marido. Fui pendura em motos como a R1, CBR600, V-Strom650, MT09, MT07 e numa verdadeira coleção de motos que passou pela nossa garagem. Fizemos milhares de quilómetros juntos e, durante muito tempo, achei que tinha aceitado que aquele era o meu lugar. No banco de trás. Ele era o motociclista cá de casa. Não eu.

Mas a nossa cabeça tem coisas curiosas e a minha, pelo menos, nunca foi muito boa a aceitar que alguma coisa me limite.

Conduzir uma moto tinha-se tornado precisamente isso: aquela coisa que eu não tinha conseguido, aquela coisa que achava que nunca iria conseguir fazer. Até que, um dia, o nevoeiro começou a dissipar-se e resolvi tentar outra vez.


Não sei dizer exatamente o que mudou. Talvez tenha crescido, talvez tenha ganho confiança, talvez tenha simplesmente chegado o momento em que percebi que o medo continuava a ser apenas medo. Mas alguma coisa mudou.

E, se acham que foi fácil, desenganem-se. Não existe fórmula mágica para o medo. Comprei uma 125cc e o medo consumia-me. Sentava-me em cima da moto e ficava completamente paralisada.

Até que, um dia, deixei de lhe permitir isso. Tinha chegado a minha vez.

Entre manetes dobradas, pedais partidos, guiadores tortos e mais piscas partidos do que me consigo lembrar, fui fazendo o meu caminho. Porque neste mundo das motos aprendemos depressa que não existe marcha atrás. O caminho é para a frente. A moto abana, mas não cai. Só cai quando paramos, principalmente quando paramos de tentar.

Depois daquela 125cc veio outra. E depois outra. Até que, finalmente, me senti preparada para comprar uma “mota grande”. Foi assim que chegou a minha primeira Kawasaki Z650, a moto que me mostrou, para sempre, que era ali que eu pertencia. Em cima de uma moto, no lugar do condutor, no lugar onde me sentia mais eu.

Ainda me lembro das borboletas no estômago, dos nervos e das corridas para a casa de banho sempre que se aproximava a hora de enfrentar o trânsito de Lisboa. Nem precisava de relógio. O meu corpo simplesmente sabia. Eu era daquelas pessoas que percorria um percurso inteiro no Google Maps antes de qualquer viagem para um sítio desconhecido. Queria saber tudo: se havia demasiadas curvas, subidas, pontes, areia, trânsito ou qualquer outra coisa que pudesse assustar-me. Sim, eu fazia isso. E sei que provavelmente também já o fizeste.

Com o tempo, esses nervos começaram a desaparecer e as corridas para a casa de banho foram diminuindo. Até que aconteceu uma coisa que nunca vou esquecer: a primeira vez em que me apercebi de que estava em cima da moto e estava simplesmente a desfrutar da viagem. Sem nervos, sem medo, sem stress. Só eu e a estrada. E chorei. Chorei de felicidade. Porque naquele momento percebi que tudo tinha valido a pena, só para chegar àquele instante.

Depois vieram mais viagens, mais quilómetros e, pouco a pouco, a moto deixou de ser apenas uma coisa que eu conduzia. Passou a ser o meu meio de transporte diário, com chuva, vento ou sol, passou a ser parte de quem eu sou, da minha identidade.


Lembro-me de uma situação tão pequena que hoje quase parece ridícula. Junto ao sítio onde moro existe um supermercado e, nesse supermercado, uma pequena rampa de acesso à estrada principal. Lembro-me perfeitamente de perguntar ao meu marido: “Então, como é que eu vou fazer se tiver de parar naquela rampa?” A inclinação era tão pequena que ele teve dificuldade em perceber de que rampa eu estava a falar. Para mim, naquele momento, era um problema enorme.

E talvez seja precisamente por isso que nunca me esqueço dela. Porque aquela pequena rampa acabou por se tornar uma espécie de medida do medo que eu tinha. Daquela rampa às curvas do Stelvio. Do medo de parar numa pequena inclinação a viajar sozinha até Itália, a atravessar vários países e a fazer milhares de quilómetros sozinha.

Eu consegui. Não porque deixei de ter medo, mas porque deixei de deixar que o medo decidisse por mim.

Seria um cliché dizer que venci o medo, mas não seria verdade. Eu não o venci. Aprendi a levá-lo comigo. O medo fez-me preparar mais, estudar os percursos, respeitar a moto e sair tantas vezes da minha zona de conforto. Acabou por fazer parte daquilo que me deu coragem para arriscar. Porque ir sem medo é fácil. Coragem é seguir em frente de mão dada com ele.

O medo não tem de ser o nosso travão. Pode ser precisamente aquilo que nos faz avançar, arriscar e conseguir. Durante 14 anos, o medo disse-me que eu não conseguia. Hoje, é precisamente ele que me lembra o quanto consegui.

Por isso, se ainda é o medo que te prende, talvez este seja o teu momento. O agora. Não precisas de o eliminar, nem de esperar pelo dia em que vais acordar sem medo. Mete-o no bolso, dá-lhe um nome e leva-o contigo. Talvez descubras que ele pode ser um companheiro de viagem bastante melhor do que imaginavas.

Hoje tenho histórias incríveis para contar. Mas durante muito tempo fui apenas aquela pessoa que ouvia as histórias dos outros. E talvez esteja na altura de começares também a viver aquilo que um dia vais querer contar.

Siga viagem.

andardemoto.pt @ 10-10-2026 12:30:00 - A Revolta da Pendura

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