Fábio Figueiredo

Fábio Figueiredo

À procura de um caminho alternativo

OPINIÃO

De Tallinn, Estónia, até ao Cazaquistão

Um português em viagem

Há dois anos concluí uma viagem a solo de Portugal até à Estónia. Onze mil km, em duas tiradas, para atravessar o nosso continente até ao seu extremo Norte, passando por nove países, por algumas das estradas mais elevadas e por algumas paisagens que até hoje continuam a ser as que mais me marcaram na vida.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo

A maior das minhas viagens durou 18 dias, na qual percorri 7.000km de moto. Foi de mais. Para mim, a duração óptima de uma viagem é cerca de 10 dias (4000km), período em que a paz de viajar sozinho se começa a transformar no incómodo de viajar sozinho.

Desde essa altura, idealizei continuar a viagem, desta feita a começar em Tallinn, Estónia, para terminar algures para Este, com destinos que variaram entre a Geórgia, o Azerbaijão e finalmente o Cazaquistão. Este ano, por pouco, essa oportunidade apareceu, mesmo às portas da época da neve. Mas não ia ser fácil.

A Lei de Murphy não deu tréguas e, mesmo a quatro ou cinco dias de partir, não havia garantias de que conseguisse apontar para o destino a que me propus: a província de Mangystau, no Oeste do Cazaquistão – uma das zonas menos populosas do mundo, onde a natureza está o mais próximo do que é estar intocada pelo ser humano e uma das pérolas da Ásia Central –  um lugar completamente diferente de todos onde já estive. Este sítio não está no roteiro. Tem de se fazer por descobrir.

Não ter perdido o DUA da minha mota quando me encontro do outro lado do continente contribuiria favoravelmente para seguir nessa direcção, mas a vida, por vezes, teima em não facilitar. Este problema demorou a melhor parte das últimas duas semanas a neutralizar e levou-me a ter de contemplar um destino de contingência algures dentro da União Europeia, onde o risco de me ser pedido esse documento era mais reduzido. “Grécia”, pensei eu, seria o mais a Este que conseguiria ir com os documentos de que dispunha e que me colocasse num ponto favorável para retomar esta viagem.


Pelo caminho encontraria de um lado os Cárpatos: 60% do que resta de floresta virgem na Europa e uma das melhores estradas do mundo, a estrada Transfagarasan, na Roménia, seguido pelas paisagens mais secas e desabitadas da Grécia. Uma boa alternativa, portanto.

Contudo, uma agradável reviravolta permitiu que me fosse possível, apesar de com um atraso considerável, obter o documento que tinha em falta, que através de uma amiga que por sorte se encontrava de visita a Portugal, o conseguiria colocar nas minhas mãos, meras horas após o adquirir. Isto colocou em marcha a obtenção do visto, o último passo determinante, que para todos os efeitos também não estava garantido.


Já com revisão feita e todo o material necessário pronto (tenda, saco-cama, algumas ferramentas, peças suplentes, kit de reparação de furos, kit de primeiros socorros, radiobaliza de busca e salvamento, o inevitável material fotográfico e o autocolante com o meu bom nome estampado nas laterais da mota), estava mais uma vez numa situação em que o destino final da viagem dependia desta última variável.

Hoje, 26 de setembro de 2019, depois de muitos imprevistos e uma semana depois da data planeada para partir, foi emitido finalmente o visto para a Rússia.

A minha ideia era que este primeiro artigo fosse um guia de como nos devemos preparar para uma viagem deste lado do mundo. Não foi. Pelo contrário, mostrou o quão um pequeno deslize pode impedir a realização de um objectivo. Quantas vezes o arrancar é a parte mais fácil. Desta vez não foi o ideal, mas por vezes é assim que se começam grandes viagens.

Amanhã é o dia. 28 de setembro de 2019.

Até breve, aqui a ANDAR DE MOTO. Entretanto podem seguir-me no meu instagram: @the.nowherer


2ª parte - Há dias assim.

Há dias assim. Apesar de estar ciente da viagem que ia fazer, era difícil prever o que me esperava. Tinha na ideia um dia normal: 200km desde Tallinn até Narva, na fronteira com a Rússia e depois mais 300km até chegar a Veliky Novgorod. Mantinha a média de 500km por dia que tenho feito nestas viagens, com tempo para uma visita a uma cidade pelo meio e chegava a horas de visitar a cidade onde ia dormir, como costumo fazer.

O dia começou como o primeiro dia de viagem deve começar: céu limpo, piso seco e apesar do frio controlado pela roupa quente e punhos aquecidos, o conforto de partir à descoberta. Há algo que acontece quando parto nestas viagens. Tenho partido de lugares com alguma história pessoal. Com cada quilómetro que passa, revisita-se essas vidas que se deixa para trás e começa uma vida nova, onde temos o poder de a escrever do nada.

A meio do caminho, algo fora do comum: tenho as mãos dormentes. Já ando de mota há alguns anos e nunca me tinha acontecido isto antes. Estava realmente nervoso. Seria a primeira fronteira “a sério” numa viagem (descobrira no dia antes) intercontinental que passava por dois países que funcionam de maneira muito diferente da Europa. Havia alguma razão para este nervosismo.

Pouco depois da fronteira (que depois da guerra das últimas semanas se passou sem grandes percalços), ao contratar o seguro da moto, deparo-me com o primeiro obstáculo que me iria acompanhar na próxima semana. Muito pouca gente fala inglês e as poucas palavras que sei de russo não me permitem comunicar de forma eficaz. Com certeza que Пожалуйста, Хорошо e Спасибо ajudam em muitas situações, mas são palavras pouco produtivas quando se procura informações específicas. Porém, com a ajuda do telemóvel, conseguimos entender-nos. Estava na Rússia!    


A diferença era palpável: Não sendo um perito em botânica, mal passei a fronteira vi duas espécies de planta diferentes. A construção das estradas também o era, bem como os modelos de automóveis e obviamente, a língua.

Fui brindado com inúmeros Lada e camiões Kamaz, bem como alguns resquícios da União Soviética. Na altura de abastecer, uma bomba nitidamente de tempos idos, ladeada por tanques de combustível ferrugentos. Para surpresa minha, tinha gasolina de 92 octanas (que parece ser a mais utilizada), 95 e também 98, algo raro por aqui. Atestado, apercebi-me do quão pouco progresso estava a fazer.


A estrada secundária estava mal mantida, e até perto de São Petersburgo tinha apanhado algum trânsito. Tenho tentado evitar conduzir à noite, ainda para o mais num país com um espólio videográfico sobre o tráfego automóvel que não abona a favor de uma imagem de observância exemplar das regras de segurança. Hoje seria altamente improvável conseguir cumprir com esse objectivo.

Em retrospectiva, andar numa estrada secundária pelo meio de floresta completamente abandonada por centenas de quilómetros a velocidades de acordo com os costumes locais, onde a vida selvagem abunda não foi das escolhas mais inteligentes que fiz, mas o hotel estava marcado e teria obrigatoriamente de lá dormir: foi lá que tive de fazer a reserva para poder obter o visto. Não tinha escolha. Não tirei mais fotografias e segui.

Consegui chegar a tempo de dormir. Amanhã o dia não prometia ser mais fácil.


3ª parte - Até Tver, na margem do rio Volga

Depois de um primeiro dia excessivamente ambicioso, decidi baixar a meta de hoje para poder descansar e dar uma pequena caminhada na cidade de Tver, a Sul de Veliky Novgorod. Até lá percorreria 400km, maioritariamente de autoestrada, que estimava conseguir cumprir em pouco tempo.Mal parti, começou uma chuva que me iria acompanhar o resto do dia, variando entre o chuvisco e o aguaceiro. Sei que a mota não encolhe à chuva, mas há muito que prescindi de andar de mota quando isso significa que não vou desfrutar de o fazer e à chuva, no estrangeiro enquadra-se nessa situação.A auto-estrada M-11 é uma das mais importantes na Rússia, ao ligar Moscovo a São Petersburgo, as duas maiores cidades do país. Antes do meio dia, descobri que as minhas botas estanques já não o eram e o resto do trajecto ia ser difícil. Precisava de uma estação de serviço para descansar e secar os pés. Este pequeno prazer iria fazer uma enorme diferença…

Auto-estrada M11 - Nada durante kms

Auto-estrada M11 - Nada durante kms


Com o depósito a cerca de um quarto, decidi não parar na primeira bomba de gasolina, que consistia em dois contentores: um para gasolina, outro para gasóleo. Mais nada. Nem café, nem a estação de serviço a que estamos habituados em qualquer auto-estrada. Não faz mal, pensei, quão longe poderá estar a próxima bomba? Mal saí, obtive a resposta: Muito longe, a 75km. O troço que deveria ser feito a velocidade de auto-estrada foi feito a pisar ovos e esses 75km pareceram muitos mais. Finalmente, já bem dentro da reserva, encontrei outra bomba igual. Já não podia ser esquisito.

Infelizmente não se pode atestar nestas bombas: escolhe-se uma quantidade e paga-se. Se for a mais, fica-se sem o dinheiro, se for a menos… Tem de se abastecer novamente. Com o preço da gasolina a menos de 70 cêntimos, não fiz cerimónia. Ajudado por outro utente (os menus são exclusivamente em russo), colocaria 20 litros. Não foi suficiente para atestar. Tinha estado a vapores nos últimos quilómetros.

Continuei caminho. Duzentos e cinquenta quilómetros em auto-estrada parece não ser muito, mas quando se está a marinar em botas frias e molhadas… Já custou menos fazer o dobro da distância.

Tver, na margem do rio Volga

Tver, na margem do rio Volga


Cheguei a Tver, na margem do rio Volga, o maior da Europa e que iria voltar a ver no decorrer da viagem. Estava esgotado, mas cheguei antes das 19, quando a chuva finalmente parou, o que me permitiu ir dar uma caminhada pela cidade. Lamento não ter tido mais tempo para a visitar, mas deu para espairecer. Já tinha passado por algumas pequenas igrejas de cúpulas douradas pelo caminho, que a chuva me impediu de fotografar ou filmar, mas aqui vi palácios majestosos nas margens do rio.

Valeu a pena!


4ª parte - De Tver a Nizhny Novgorod

Ao contrário do previsto, os primeiros minutos do dia prometeram aguentar a chuva. A temperatura tinha aumentado para os 13 graus, dos 8 do dia anterior, mas foi sol de pouca dura. Em meia hora voltava aquele chuvisco chato que me perseguiria durante o resto do dia. Felizmente, já tendo isso em conta, tinha, para além dos dois pares de meias, calçado um par de sacos das compras, que, esperava eu, me iriam manter os pés secos e quentes. Rasguei as calças impermeáveis ao vestir. Provavelmente não iria precisar que estivessem em bom estado.

Hoje mantinha os 400km de meta, mas começava mais cedo, pensando eu que isso mitigaria o facto de o percurso não passar por uma auto-estrada. O que eu não sabia, era que “estrada nacional” aqui significa que a estrada está nas condições das nossas regionais. Este facto, aliado ao padrão de condução que tenho observado não criava as condições ideias para conduzir hoje, mas tinha de me fazer à estrada.

Pelo caminho encontrei aldeias com casas pitorescas, em madeira, com as janelas decoradas em talha. Não eram casas de gente rica, mas de gente que outrora fez um esforço para alimentar o olhar de quem por lá passasse. Engraçado como foi o mesmo povo que criou estas casas que contrastaram com o estilo brutalista, dominante em Tver. A chuva incessante só me permitiu fotografar com o telemóvel.

Duas horas depois, olho para o telemóvel e ainda só tinha feito um terço dos 400km que distavam de Tver até Yarsolavl. A chuva decidiu inutilizar as “meias” estanques que tinha engendrado durante a manhã e o dia estava a ficar mais complicado. As árvores, que passaram do verde, dominante na Estónia, com alguns tons de amarelo começavam a vestir-se mais e mais de amarelo, laranja e até vermelho, um sinal claro de que o inverno estava a caminho e que talvez tivesse sido demasiado optimista ao desejar partir tão tarde. Este pensamento vinha para ficar.

Pelo caminho, a chuva parou por uns momentos. Faço um desvio para visitar, já com o atraso que vinha de trás, a bela cidade de Uglich, onde almocei. A chuva regressa, volta tudo ao normal.


Horas depois, chego, esgotado, a Yaroslavl, já ao anoitecer. Janto no hotel. Não vejo a cidade que é património da UNESCO.

No dia seguinte, mais do mesmo. Chuva, a mesma paisagem de floresta de planície. Estradas em mau estado. Um teste à minha resiliência, que parecia ser cada vez mais difícil de passar. E ainda não tinha chegado à parte mais difícil. Com certeza as estradas só iriam piorar depois da fronteira. As cidades iriam ficar mais espaçadas e os quilómetros iriam ficar ainda mais longos. Sempre disse que nunca houve um dia em que me tivesse arrependido de ir andar de mota, mas estes dois últimos estiveram muito perto de o ser.

A roda da frente fugiu a certa altura. Não caí, mas este aviso mostrou-me o quão sérias podiam ser as consequências caso algo corresse mal. Numa zona pantanosa o auxílio seria difícil.

Continuei até Nizhny Novgorod. Chegada ao final da tarde. Hoje tinha de sair. Tinha de limpar estes pensamentos negativos.



5ª parte - Em direcção a Kazan

Hoje era esperada mais chuva, mas acordei para ser novamente surpreendido, desta vez para o melhor. Apesar da temperatura ainda se manter no dígito único e o céu completamente encoberto, o piso estava seco. Finalmente boas notícias. Parti em direcção a Kazan, a capital da república do Tatarstão e uma das pérolas da Rússia.

As estradas, mais cheias, mantinham-se enquadradas no mesmo cenário de planície, mas a taiga já tinha desaparecido, para dar lugar a campos agrícolas extensos. A paisagem estava a mudar, o que significava que estava cada vez mais perto do clima árido do Cazaquistão.

Pelo caminho, no último abastecimento do dia, no meu russo bastante limitado compreendi a senhora da caixa da bomba de gasolina: “Rússia? Porquê?”. Expliquei-lhe que também não sabia e parti. Estava, novamente, atrasado para o meu próximo destino.

Uns quilómetros depois, um pôr do sol que prometia que as coisas não iam ser assim tão más.


Já de noite, começo a ver à distância, a mesquita do Kremlin de Kazan, imagem de marca da cidade. Estou a chegar.

Chegada

Chegada

No hotel, locais levam-me a descobrir a cidade e a comer a comida local. A arquitectura é deslumbrante: esta é facilmente uma das cidades que mais me marcaram. Uma mistura de religiões e culturas, arquitectura que varia entre o árabe, o russo rural e o soviético.

É costume demorar uns dias até sentir que estou na viagem e hoje foi o dia. Já estou a uns milhares de km de onde parti, a meio caminho entre de onde vim e para onde vou. As caras mudaram, as línguas são diferentes, a comida também. Talvez seja o piso seco, a paisagem urbana deslumbrante ou as pessoas, mas agora já é tarde de mais para voltar para trás.

Panorama Kazanp

Panorama Kazanp



6ª parte - O serpentear do Volga

Este seria o meu último dia antes de entrar no Cazaquistão. Como tinha vindo a ser habitual, parti tarde, desta feita devido a ter travado novas amizades. Tinham-me avisado da Rússia mas até agora, só tinha testemunhado a parte boa. Não me queixo disso. Para o mais, a perna de hoje seria de menos de 400 km.A paisagem começava a mudar, para uma relativamente mais seca, talvez atenuada por um percurso que acompanhava o serpentear do Volga.

Com a paisagem a variar pouco durante bastantes dias, não pude deixar de apreciar o tamanho da Rússia. Eu estava a fazer uma mera secante de 2500 km na parte mais populada deste enorme país que é do tamanho de várias Europas. É inimaginável que seria percorrer o seu diâmetro em estradas que por mera logística são impossíveis de estar em melhores condições.
A viagem correu sem nada a notar. Já estava habituado à Rússia e este era mais um dia, o último neste belo país.
Estava enganado.
Ao chegar a Samara, atesto enquanto procuro um hotel, procedimento comum. O ajudante da bomba, com o seu inglês quase tão limitado como o meu russo lá me ajuda. Pouco depois pega no telefone e dá-mo para a mão: era uma amiga que me ajudou a saber de uma boa zona para poder dar uma caminhada à noite. Ela disse-me e perguntou se queria que me sugerisse um hotel. Isto poderia ser um esquema. Disse que não. Viria a arrepender-me.


Academia de Teatro

Academia de Teatro

Agradeci ao ajudante, que voltaria para me dar o número da sua amiga "caso precisasse". Agradeço, tendo no pensamento "bem me parecia que era esquema, já me safei!".
Ao arrancar, ele volta a perguntar se me quero encontrar com ela, que ela chega às bomba dentro de dez minutos. Respondo que tenho de ir ao hotel e depois nos encontramos, com todos os sinais de alarme a tocar. Não foi suficiente. Ela estava ao telefone e "a cinco minutos" dali. Tive de esperar.
Era uma professora de inglês que queria praticar com um "americano". Explico que gostava mesmo de ir ao hotel primeiro e que depois nos encontrávamos.
Assim foi. Já produzida e de unhas pintadas de novo, como é regra, supostamente íamos tomar um café e conversar. Acabou por me levar numa visita guiada pela cidade no carro dela.
Umas horas de conversa depois, volto ao hotel. Vivo e bem de saúde. Fiquei de lhes dar o licor e vodka estónios que tinha prometido. Talvez no futuro.



7ª parte - De Samara ao Cazaquistão

Hoje era o dia de chegar à terra que idealizava para esta viagem. De Samara até ao Cazaquistão separavam-me uns escassos 200km de estrada em bom estado. Pouco depois, Uralsk, cidade com o nome do rio que separa a Europa da Ásia. Pouca distância, a contar com o tempo que deveria demorar a passar a fronteira.
Com o passar dos quilómetros a paisagem foi ficando cada vez mais árida. Estava cada vez mais perto.

Tinha planeado almoçar ainda na Rússia. Não sei se pela excitação, se pelo piso liso, quando dei conta estava na mais longa fila de camiões parados que alguma vez vi. Os condutores conversavam na estrada, fora dos tractores. Este cenário não era inesperado: queria dizer que estava na fronteira. Não podia parar.
O procedimento para veículos de passageiros é mais célere. Devemos ir em contramão até chegar à fila dos ligeiros. Do lado russo só tinha um carro à frente. Documentos carimbados, os comprovativos de presença que havia coleccionado nos hotéis onde parei não me foram pedidos. Era altura de ir para o lado cazaque.
Esperava um procedimento mais demorado, em vez disso fui enviado para a frente da fila, onde para além da vistoria de rotina, as perguntas de onde venho e para onde vou, talvez mais por curiosidade do que por procedimento. Tinha chegado. Estava no Cazaquistão!


Uns metros à frente, ao fazer o seguro na traseira de uma carrinha velha com um chão coberto por garrafas e copos descartáveis usados e um fogão de campismo que tentava parecer um escritório, apercebi-me que as coisas aqui funcionavam de maneira diferente.

O rapaz muçulmano, que parecia um pirata, de camisola sem mangas, quando lhe disse de onde vinha exclamou: "Ronaldo!" Eu respondi com "Gennady Golovkin", o conhecido pugilista campeão do mundo. Ficámos amigos.
Enquanto ele tratava dos documentos, tive de almoçar, fui buscar um chouriço que trazia da Estónia e ofereci-lhe: "é de rena, podes comer", assegurei-lhe. Dir-me-ia depois, em conversa, depois de fazer um vídeo comigo para o Instagram: "Fábio, tu tens fome, os polícias também, tem cuidado".

Repetiria o "tem cuidado" várias vezes, enquanto me assegurava que o país não tinha perigos de maior, mas que eu era ocidental e então poderiam tentar aproveitar-se, "diz que não compreendes, isso depois é problema deles, eles deixam-te da mão". Não tinha alternativa. Não tenho línguas em comum com a maioria dos cazaques. Despedi-me.
Chego a Uralsk cedo, pela primeira vez. Ao chegar, noto imediatamente diferenças. O cheiro, o nível de vida. É uma cidade a cheirar a boa comida, que apesar de modesta, parece segura.

Já no albergue, problemas com a reserva do quarto: só existiam quartos partilhados. A privacidade é um dos confortos que mais estimo. Felizmente o dono da estalagem tinha um apartamento não muito longe dali, mas demorou até aparecer um hóspede que me ajudasse na tradução.

Janto comida de rua: Samsa, uma espécie de folhado com perna de frango, batata ou outros ingredientes lá dentro. Mais uma coisa a favor desta terra. Não me sinto um estranho, mas sim um convidado. Estou rendido.


8ª parte - Estava onde queria.

Estava onde queria. Depois de uma semana na estrada estava preparado.Acordei com um mercado à volta da mota: batatas, cebolas e uma V-Strom. Quero uma dessas, por favor!

Os locais, sempre bem dispostos, perguntaram-me se era polaco, talvez devido ao autocolante com a letra P no guarda lamas. "Nyet, ya portigaliets", que terá algum erro, "Portugal! Ooooh! Mongólia?" Responderia honestamente "não sei, talvez. Por agora Mangystau", desta vez em inglês. O encolher de ombros ajudando na comunicação.

O pequeno almoço mais uma vez transformar-se-ia em almoço, num dos restaurantes ao longo da A-28, a estrada recta e plana que distava em certos pontos umas escassas centenas de metros do rio que limitava o nosso continente.
As estradas cazaques, que imaginava em mau estado estavam em condições medianas no seu pior e boas ou excelentes na sua maioria.
A noite caía sem que eu me decidisse num lugar para acampar, os 500 quilómetros tinham sido, mais uma vez, demasiado optimistas e em pouco tempo já era tarde de mais. 40 quilómetros não seria assim tão mau, pensei. Em estradas destas até dava gosto!


Pouco tempo depois começaram as obras: aquele asfalto velho ranhurado para aderir ao novo piso, que mais parece carris. "Boa", pensei, "nada melhor que estradas destas sem iluminação nem aviso". O destino gosta de nos pregar partidas e nesta altura o piso piorou, adicionando gravilha grossa à mistura, a 20 quilómetros da cidade. Parecia que estava numa estrada de terra batida. À noite. Num país estranho.
Consegui chegar. Uma cidade grande, em dois continentes, cortada pelo rio Ural. Hoje dormiria na Ásia. Precisava desta pequena vitória. A travessia em si foi banal, o rio tinha uns cem metros de largura por onde passei.
O jantar seria na Europa, para poder completar a minha primeira viagem intercontinental de táxi no dia em que fiz a minha primeira viagem do mesmo género de mota.
Não tive oportunidade de provar o caviar, iguaria local. Talvez noutra altura.


9ª parte - Oficialmente na Ásia

Já oficialmente na Ásia, era altura de descontrair. Ontem tinha-me arrependido de não ter acampado e hoje, apesar da distância mais modesta que me separava da próxima cidade, não estava tão relutante em parar mais cedo para acampar junto à estrada e desfrutar deste sentimento de individualismo que é dos maiores tesouros que este país tem para oferecer.

Pelo caminho, (manadas) de cavalos selvagens e os camelos que começavam a ser lugar comum oficializavam a minha presença num deserto a sério. Junto aos aldeamentos dispersos, pastores montados em motas de duas e quatro rodas arrebanhavam o seu gado, ajudados pelos seus cães, por caminhos já batidos do calcotear diário dos rebanhos. Este era o quotidiano deste povo que ainda tem ligações muito fortes ao seu passado nómada.



Era isto que eu queria ver. Foi para isto que cá vim. De alguma forma sentia-me ligado à herança histórica que identifica esta gente.
Hoje não iria desperdiçar a oportunidade de comungar neste espírito de isolamento. 
Há inúmeros motivos para andar de mota. Um dos mais importantes para mim é esta ligação que consigo ter comigo mesmo. Há quem considere solidão, mas eu vejo como intimidade, um ensejo para ficar de um para um connosco mesmos. Hoje em dia quem se consegue lembrar da última vez em que olhou para si mesmo com aceitação completa, com a intenção de descobrir quem é essa pessoa que nos olha do outro lado do espelho? Nem eu. E era altura.
Não sei quantos quilómetros fiz. Queria ficar perto de Beyneu, de onde tinha intenção de partir para o deserto a Sul. Encontrei um sítio onde poderia sair da estrada para ficar atrás de um monte, protegido do vento e fora de vista, o que era difícil em locais onde se conseguia ver por mais de dez quilómetros. 
Quando encontrei, segui a direito, em direcção a um monte. Via um trilho à distância: já tinham andado por cá. Segui o trilho e a mota começou naquela dança familiar a quem anda em areia. Eu não sou dessas pessoas. Gosto do asfalto. Não estava fácil e momentos depois deixei cair a mota. E outra vez pouco depois. Tinha o portátil novo na mala lateral e estava receoso de o poder estragar.
Uns 2 km depois parei. Parecia um bom sítio. Acampei, preparei o jantar (linguini com chouriço) e aproveitei o pôr do sol que agraciou este dia que acabou sob um céu estrelado extraordinário.


10ª parte - Com a experiência do dia anterior, decidi não ir pelo deserto.

Manhã. Acordava com um cappuccino, mantimento essencial para começar bem o dia, um pequeno conforto de uma vida já esquecida de que não prescindira.

Tinha havido várias coisas a correr mal na noite anterior, para além das quedas. A quantidade de água que trazia tinha reduzido de 3 litros para 2,5 quando em Atyrau tinha trocado a garrafa de litro e meio por uma de um litro à saída do hotel. Pelo caminho tinha bebido das duas, o que me deu um total de um litro e meio: metade daquilo que pretendia. Também o repelente de insectos tinha acabado e o lubrificante de corrente tinha dado o seu último borrifo. Não tinha (e agora via porque tanta gente me tinha recomendado) toalhitas para bebé. Havia que reabastecer.
Com a experiência do dia anterior, decidi não ir pelo deserto. A minha aptidão para conduzir fora de estrada tornava a travessia de 250-300 km não numa aventura, mas numa situação potencialmente perigosa. Ia prosseguir até Shetpe na maior distância entre postos de gasolina que iria encontrar: trezentos quilómetros.
Pelo caminho, alguns cavalos mortos ao lado da estrada, um deles com a sua manada junto a ele, como que a fazer luto, serviam-me de aviso sério dos riscos do que tencionara fazer. Tinha tomado a decisão correcta.

Ao longo do dia, tudo normal, a estrada continuava plana, a ocasional cáfila com o seu distinto aroma, manadas de cavalos e a total ausência de árvores, com algumas zonas com arbustos com menos de um palmo a resistir ao implacável clima do deserto.

Depois de mais de duzentos quilómetros nesta nota monótona, olho com atenção para o lado direito: sem me aperceber, a elevação tinha aumentado, encontrava-me num planalto e a linha que separava a terra do céu já não estava a dezenas de quilómetros mas a centenas de metros de uma escarpa para o enorme vale que rasgava a elevação onde me encontrava. O que pensava encontrar só amanhã estava já aqui: a cereja no topo desta viagem.

Stitchecp

Stitchecp



Faltam-me palavras para descrever a beleza desta terra inóspita e intocada. Uns minutos depois, a estrada mergulharia nesse vale para o poder apreciar mais de perto. Este era o lugar que eu idealizara, a jóia da coroa desta expedição. Meses depois de o sonhar, conseguiu deslumbrar-me pelas cores, pela espessura do ar que refractava o sol que banhava esse vale idílico. Mais ainda, pelo imponência: eu não era mais que um pequeno ponto naquela falha tão imensa que não permitia vislumbrar o lado oposto. Tive de parar para uma fotografia.
Demorou a melhor parte de uma hora para alcançar o outro lado. Era altura de recuperar deste choque para os sentidos. Numa pequena vila onde só encontrei gasolina de 92 octanas para o meu depósito onde sobravam apenas dois litros de combustível e onde o trânsito era constituído por um rebanho de cabras a regressar da pastagem estava um albergue onde as línguas desencontradas não foram problema para encontrar um quarto para mim e um jantar caseiro feito com muito boa vontade por pouco mais de 10 euros.
Estava em Shetpe, a menos de duas horas de Aktau, cidade onde concluiria a minha viagem. Amanhã decidiria se esse seria o último dia ou não.
Podem acompanhar a viagem também no meu Instagram. instagram.com/the.nowherer

andardemoto.pt @ 7-10-2019 17:21:00 - Fábio Figueiredo