Teste Benelli Leoncino – O renascer de uma lenda

Mais de seis décadas depois de ter sido criada, a Leoncino renasce pelas mãos da Benelli. Com o grupo chinês Qianjiang aos comandos, a marca italiana mostra muita ambição num dos segmentos mais apetecíveis no mundo das duas rodas.

andardemoto.pt @ 21-1-2018 19:52:16 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira

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Benelli Leoncino 500 | Moto | Motos

Todas as histórias têm um início, e no caso da marca italiana Benelli, a história começa em Pesaro, uma localidade bem perto da costa do Mar Adriático. É considerada como a mais antiga marca europeia ainda em funcionamento, muito por culpa, no bom sentido, do grupo chinês Qianjiang, que tomou as rédeas da marca e evitou o seu desaparecimento.

Mas a Benelli, apesar do controlo chinês, mantém muita da sua herança italiana a correr-lhe nas veias, e não há melhor exemplo disso do que a nova Leoncino 500, uma lenda que renasce.

Primeiro apresentada em forma de "concept" no Salão de Milão EICMA, em 2015, a Leoncino, ou “pequeno leão”, captou as nossas atenções pela sua aparência atraente. Uma espécie de naked roadster com um sabor a scrambler. E o público apaixonado por motos e pela marca queria mesmo que a Leoncino voltasse a ser produzida.

O Centro Stile Benelli acertou em cheio nas formas que os motociclistas urbanos procuram nas neo-retro. A Benelli percebeu então que não poderia deixar o projecto numa prateleira, a acumular pó, e por isso, em 2017, finalmente foi lançada a versão de produção da Leoncino. Depois de alguns meses de espera, eis que tive a oportunidade de testar esta novidade em solo nacional.


Na realidade, a Leoncino 500 traz muito do que já conhecemos da trail TRK 502, e ao ser totalmente fabricada na China, nas instalações do grupo Q.J. em Wenling, esta pequena naked de estilo scrambler está disponível por um preço muito competitivo e que se situa ligeiramente abaixo dos 6000 €. Um valor que é, sem dúvida, muito bom tendo em conta o que a Leoncino oferece em termos de performance do motor ou das capacidades dinâmicas.

Por falar em motor, esta unidade motriz é um bicilíndrico paralelo, igual ao da TRK. Com os cilindros inclinados para a frente em 20º, a Benelli conseguiu reequilibrar por completo o peso do conjunto, colocando mais peso na frente. A intenção foi de oferecer ao condutor um melhor “feedback” da direcção, e ao mesmo tempo esta decisão permitiu manter a distância entre eixos em apenas 1443 mm, bastante curta, o que faz com que a Leoncino seja bastante ágil.

Ao contrário da Leoncino 125 de há 66 anos, uma moto que se tornou numa lenda pois com mais de 50.000 unidades vendidas até 1972 esta foi a Benelli mais vendida de sempre, o motor tem uma cilindrada de 499,7 cc, conta com refrigeração por líquido, e disponibiliza uma potência máxima de 47,6 cv, que serão mais do que suficientes para deixar qualquer motociclista de sorriso nos lábios, seja numa utilização citadina, seja num percurso mais aberto recheado de curvas.

Sem contar com o sistema de ABS da Bosch, que em conjunto com o assento e os pneus Pirelli Angel são os únicos elementos não fabricados na China, a Leoncino está despida de qualquer ajuda electrónica. Não há modos de motor, não há controlo de tracção, nem nada desse tipo de ajudas. O que há, é um sistema de injecção afinado na perfeição, bem melhor do que o que conheço noutros modelos Benelli, inclusivamente do que senti na TRK 502. Controlado por um acelerador por cabo, a resposta do motor aos nossos impulsos é imediata e muito doseável.

Penso que o optar por uma solução que é tão simples quanto eficaz, foi o que permitiu à Benelli criar uma moto que se adapta tão bem a várias situações e tipos de condutor.

Enquanto carrego no botão de arranque e espero que o bicilíndrico aqueça numa manhã bastante fria, passo os primeiros momentos a acomodar-me aos comandos da Leoncino. Estava à espera de sentir algum desconforto, ou pelo menos que algo estivesse fora do lugar, mas fui surpreendido pelo conforto proveniente do assento bem almofadado, ainda que largo, e pelo guiador “piega bassa” da Benelli, que permite adoptar uma posição de condução muito agradável, ligeiramente descaída para a frente e com os braços bem abertos.

Bom, então está na hora de arrancar, eu e o meu leãozinho de Pesaro.

A primeira coisa que noto enquanto aprecio a banda sonora emitida pelo novo sistema de escape, e que de facto emana uma sonoridade muito engraçada para um bicilíndrico Euro4 e de 500 cc, é como a Leoncino é mesmo muito mais leve em comparação com a TRK com o qual partilha tantos componentes.

Com 207 kg a cheio a Leoncino não é uma scrambler leve, mas o corpo minimalista torna-a numa moto muito mais divertida de explorar numa estrada de curvas, especialmente quando me lembro da volumosa TRK. Ágil, fácil de a fazer mudar de inclinação devido ao guiador largo, a Leoncino exige pouco esforço físico enquanto vamos devorando as curvas.

O motor embala rapidamente, e às 3000 rpm já sentimos os 45 Nm de binário a aparecer. Este factor, combinado com uma caixa de relações curtas, e que é muito suave de acionar, fez com que nunca tivesse necessidade de subir e descer de caixa para manter o motor na sua zona de conforto e para ter tracção à saída das curvas.

Descobri rapidamente que o “sweet spot” do bicilíndrico da Leoncino situa-se entre as 4000 e 6000 rpm, ponto a partir do qual perde fôlego, e, principalmente, passa a consumir mais do precioso combustível.

Digo precioso combustível, não por causa do seu preço, nem porque a Leoncino mostre um consumo exagerado (4,7 litros / 100 km). Faço esta nota por causa do depósito de combustível. A Benelli foi obrigada a esconder a caixa de ar debaixo do depósito, não apenas por razões de homologação Euro4, mas também por razões estéticas.


A caixa de ar é agora mais longa do que a utilizada na TRK, e isso ajuda a suavizar a entrega de potência em combinação com os novos mapas de injecção, mas por outro lado o depósito ficou com apenas 12,7 litros de capacidade. Assim, se a barreira das 6000 rpm for ultrapassada, o consumo sobe e não demoramos muito até termos de parar num posto de combustível para voltar a atestar.

Não é difícil sentirmos confiança para ir à procura dos limites desta Benelli Leoncino. O equilíbrio do conjunto é deveras assinalável, mas é nos momentos de inclinação máxima que senti necessidade de me manter alerta, corrigindo a posição em cima da moto e ajustando o acelerador da forma mais suave que conseguia.

Derivado dos “settings” das suspensões, especialmente na forquilha com bainhas massivas de 50 mm, serem suaves, a Leoncino perde o equilíbrio quando numa condução mais desportiva. A estabilidade em curvas de velocidade média a elevada não é a melhor, a leitura do asfalto perde-se, e a roda frontal de 17’’ teima em querer dançar para fora das trajectórias escolhidas. A solução passa por deixar sempre uma margem de erro ligeiramente maior para compensar esta falta de “feedback” da frente.

No entanto, em curvas mais lentas, a suspensão frontal não é obrigada a tanta compressão e oferece uma leitura muito melhor, o que ajuda a recuperar a confiança.

Mas isto é quando conduzimos a Leoncino fora dos limites da cidade.

Durante os dias em que andei com a Leoncino, tive bastantes oportunidades para testar a sua valia em ambiente urbano, onde deverá passar a maior parte do tempo. A velocidades citadinas, esta pequena italiana porta-se muito bem, e conduzir de semáforo em semáforo é uma delícia, com muita manobrabilidade para cortar o trânsito compacto, e também porque a estas velocidades consegui admirar o painel totalmente digital.

Bem desenhado e escondido por detrás de uma óptica redonda de grandes dimensões, com LED diurno que lhe confere um carácter distinto, o painel está recheado de informações, onde falta apenas o consumo médio. Não é de fácil leitura quando a luz do sol bate em cheio na superfície do painel, mas é um passo em frente para a Benelli neste particular.

Mais atrás, o monoamortecedor, ajustável em pré-carga e compressão, apresenta um comportamento eficaz mesmo em pisos menos bons. As suspensões não são de todo más tendo em conta o preço da Leoncino e o facto de que são o resultado da aprendizagem do grupo Qianjiang ao longo dos últimos anos e são fabricados “dentro de casa”.

E por falar em elementos fabricados pela própria Benelli, o que há a dizer dos travões? Respondendo de forma directa à questão, os travões da Leoncino não têm um comportamento ao nível de uns Brembo. Nem isso seria de esperar. Mas as pinças radiais de 4 pistões que mordem dois discos de 320 mm, oferecem uma boa dosagem da força a aplicar na manete.

Tal como na questão da forquilha, o “feeling” do travão frontal não é perfeito, necessariamente fui obrigado a habituar-me à menor potência de travagem à disposição, e tive de readaptar alguns pontos de travagem até perceber qual o momento em que as pinças realmente mordem os discos, mas para uma moto nesta gama de preço, e que é para ser utilizada num ambiente urbano, penso que não poderia pedir muito mais à Benelli.

Uma última nota para quem pensa passear com passageiro na Leoncino: apesar do espaço acolhedor para o passageiro e das pegas bem posicionadas, o assento traseiro é demasiado escorregadio e a determinadas rotações os poisa-pés do passageiro vibram bastante.

Olhando para tudo o que a Leoncino oferece, a Benelli realizou um bom trabalho ao fazer renascer um modelo que se transformou numa lenda para a casa de Pesaro. Ela tem a aparência certa, um motor agradável de explorar, comporta-se muito bem em cidade, e até nos deixa de sorriso nos lábios numa escapadela por uma estrada de curvas… desde que não a conduza como uma desportiva.

É uma scrambler equilibrada. A Benelli está de parabéns!


Galeria de fotos da Benelli Leoncino 500

Fizemos um pequeno video com a Benelli Leoncino 500 que pode ver em baixo.

Equipamento

Neste teste usámos o seguinte equipamento:

  • Capacete Nexx XG.100 Carbon
  • Blusão Rev’it Overshirt
  • Calças Rev’it Lombard
  • Botas TCX X-Blend WP
  • Luvas Furygan Spencer D3O

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