Luis Oliveira e as histórias do Africa Eco Race

Piloto português esteve à conversa com imprensa e fãs sobre a sua aventura no Africa Eco Race. O início, as peripécias e o futuro que espera o mais recente valor luso nas provas de rali raid.

andardemoto.pt @ 11-2-2018 14:45:37

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Depois de um início de ano verdadeiramente fantástico, onde se estreou numa prova de rali raid, com muita navegação, o Africa Eco Race, e logo com um segundo lugar final, o piloto português Luis Oliveira esteve à conversa com imprensa e fãs num animado evento organizado por um dos seus patrocinadores, a Longitude 009.

Várias vezes campeão nacional de enduro, campeão brasileiro de enduro, e ainda vencedor da Baja Portalegre, Luis Oliveira é uma jovem esperança do TT que dispensa grandes apresentações, e que agora decidiu tentar a sua sorte nas provas de rali raid, tendo como objetivo participar na maior e mais dura prova do género, o Rali Dakar.

Num final de tarde de inverno bem frio, a conversa aqueceu o espírito das dezenas de fãs que não quiseram perder a oportunidade de ouvir Luis Oliveira a contar todos os detalhes desta aventura no Africa Eco Race.

Se não esteve presente no evento, leia aqui os principais destaques da aventura africana de Luis Oliveira, contados em primeira pessoa, onde fala de como tudo começou, os melhores e piores momentos, e ainda o que espera fazer no futuro.



- Como é começou esta participação no Africa Eco Race?

Luis Oliveira - Dia 21 de Dezembro fiz anos, e recebi uma chamada do Rui Oliveira a perguntar se eu queria ir ao rali. E eu respondi que gostava, mas não tinha nada preparado. Mas ele disse: mas gostavas ou não gostavas? E eu respondi que gostava. Então vamos tentar reunir, disse ele, eu vou aqui fazer uns contactos, e depois já te ligo.Andámos a falar aqueles dias, e no dia 24 de dezembro decidimos ir à corrida, alugar esta moto. Dia 25 celebrámos o Natal, dia 26 a moto já estava lá nas instalações do meu pai, sentei-me na moto, meti as manetes ao meu jeito, porque a moto tinha de embarcar para França, para o Mónaco, dia 27 ou dia 28. Ajustei as manetes, colámos os autocolantes, e metemos os pneus. Isto parece tudo um bocado… parece que é mentira, mas é verdade. E então segui viagem, encarando a aventura sempre numa de aprendizagem, sem pensar em resultados.

- E de repente estavas metido numa corrida com 10000 km. Como é que foi estares a atravessar o Mediterrâneo num barco?

Luis Oliveira - Posso-vos dizer que de todos os dias, sem dúvida alguma, os dias em que sofri mais foram no barco. Passámos a passagem de ano no barco, e eu nunca tinha andado tantas horas de barco. Mas dia após dia fui melhorando, e saí satisfeito por participar e foi muito positivo para mim.

- Começas em grande logo em Marrocos, com as marcas que ainda se podem ver na moto. Explica-nos o que é que aconteceu?

Luis Oliveira - Ainda antes de chegarmos a Marrocos, no barco, deram-nos o roadbook. Ao fim de 60 km, e eu entrei muito cauteloso na corrida, pois sei que ando mais ou menos de moto mas não sei navegar muito bem, eu disse “pronto, vou mesmo aqui a apalpar terreno”. Entretanto o Rui Oliveira arrancava logo atrás de mim. Ele era o 115 e eu o 114. Eu ia mesmo muito tranquilo, e parei porque numa nota eu não tinha a certeza para onde é que era. E parei. Quase parei, quando digo que parei ia a 20 km/h.
Um deserto imenso, estava a passar num rio seco, só que estava muito pó, porque em Marrocos já não chovia há muito tempo.E de repente senti um porradão gigante na moto. Capotei para a frente, caí, esfolei-me todo. Aquilo parecia um filme de terror. Levantei-me, à rasca do ombro porque eu já não andava muito bom do ombro, a moto toda raspada, e eu pensei “porra, 60 km?! E eu já caí assim?!”. Ainda por cima a culpa não tinha sido minha. E ele (Rui Oliveira) todo chateado comigo, que eu não podia parar assim no meio da pista. Mas eu nem na pista sabia se estava! Lá endireitei o escape, a manete de embraiagem, e de resto só tive um susto um pouco maior.



- Marrocos já conhecias um pouco, mas depois entraram na Mauritânia, que não conhecias nada, e onde curiosamente foi onde ganhaste mais etapas. Como é que foi entrar na Mauritânia, naquele mar de areia?

Luis Oliveira - A Mauritânia é parecida com Marrocos, com muita areia, mas a areia é muito mais macia. Somos engolidos pela areia, mesmo a alguma velocidade a areia é tão macia que a moto se enterra. Tive de tirar muitas vezes a moto da areia. Toda a gente me dizia, o Hélder Rodrigues, que também adora a Mauritânia, “aquilo é muito macio”. É mais complicado que Marrocos, mas eu gostei mais.

- Quando é que te apercebeste do que estavas a fazer em termos de resultado?

Luis Oliveira - Foi no dia de descanso. Por isso fui tranquilo até ao fim de Marrocos, porque a última etapa da primeira fase da corrida acabou Marrocos, início da Mauritânia. Foi só aí que percebi. Porque durante a corrida não tínhamos internet, não tínhamos nada. Sentei-me no hotel, falei com o Rui, falei com o meu pai que disse “pronto, então agora vamos tentar levar a moto até ao fim, continua a fazer o que estás a fazer, faz o que sabes!”. A partir daí tentei sempre ir melhorando, as etapas que não ganhei estava sempre muito próximo, sempre com o objetivo de abrir pista, porque realmente abrir pista no deserto tão grande é uma sensação muito boa.

- Tens alguma história mais engraçada que viveste no Africa Eco Race?

Luis Oliveira - Tenho uma engraçada. Eu nunca tinha dormido numa tenda na minha vida, apesar de ter 25 anos. Não sei se é muito normal, mas eu nunca tinha dormido. Entretanto no primeiro dia chegamos a Marrocos, eu acabei a corrida mais ou menos cedo. Começo a montar a tenda, o meu pai tratou da mecânica, e fizemos o briefing do final do dia. E disse que tinha de ir descansar, que isto são muitos dias, e eu tinha de me poupar. Falei lá com o meu pessoal, jantei, e quando vou para dormir, eu tinha reparado que a equipa ao nosso lado era uma equipa francesa de buggys. Estava ali a ouvir um bocadinho de música, era super cedo, para aí umas 18h30. Mas não tinha chegado ainda o piloto deles.
Adormeci, mas passado uma hora, acordei com um gerador ao meu lado, daqueles geradores barulhentos. Acordei e pensei que era de manhã, que já era para acordar. Olhei para o relógio, lá saí da tenda, falei com o Rui que me tinha avisado para trazer tampões, mas eu não gosto muito de usar tampões. Lá tive de usar uns headphones, meti-me debaixo do saco-cama, e tentei dormir. Basicamente foi isto quase todos os dias, mas com o cansaço acabas por nem notar. O Rui disse “amanhã já nem sentes o gerador a trabalhar”, e é verdade, nós habituamo-nos.



- E agora? Depois do Africa Eco Race, o que é que vem mais?

Luis Oliveira - Pois, agora tenho o objetivo de revalidar o título nacional (de enduro) que já não o tenho há dois anos com a Yamaha. E gostava imenso de fazer o Dakar. Não sei se vou conseguir reunir as condições para ir, mas gostava imenso.

- E em relação à moto. Foste com uma KTM, feita para estas corridas. Mas estás ligado a outra marca. O futuro passa por teres uma moto como esta, passa por fazeres uma moto em Portugal?

Luis Oliveira - O Rui foi de Yamaha, mas achámos, em cima da hora, que alugar esta moto era a melhor solução. Hoje em dia não há motos más, são todas boas. Não vale a pena esconder, a KTM está focada no rali há muitos anos, mas acho que nos últimos quatro anos já há equipas tão boas ou melhores, mas que, de algum modo, não têm tanta experiência, e então os resultados serem sempre os mesmos. Mas acho que há motos muito boas. Certamente que este ano vou ter uma Yamaha tão boa ou melhor do que esta que andei, e vai ser bom.

- Pesa-te nos ombros seres chamado, já, da nova geração do todo-o-terreno? O Rúben já acabou, o Hélder e o Paulo estão a caminho. Ficará o Mário Patrão e o Quim Rodrigues. Tu és o mais novo.

Luis Oliveira - Eu ainda não fui lá vez nenhuma. Mas gostava de ir, de aprender com eles. Tenho a felicidade de ser amigo deles, e acho que tenho muito que aprender com eles e não só, porque acho que dá para aprender com mais gente e não só com eles. Mas não me pesa muito, felizmente já estou habituado a essas pressões, noutros patamares e noutras corridas, mas estou habituado. Mas cada um é como cada qual, e eu vou tentar traçar o meu caminho. Sou fã de qualquer um destes nomes, e espero um dia ser tão bom ou melhor que eles.



- Falaste aí num perigo, ou num susto maior, que podia ter corrido mal. Podes desenvolver?

Luis Oliveira - São situações de corrida. Aconteceu na terceira etapa. Tínhamos feito um shot, muito tempo e muito depressa, e tinha um perigo 2 a dizer rochas. Mas o meu odómetro não estava correto com a nota. Na verdade, o meu odómetro estava com menos distância que o roadbook. Então apareceu aquilo antes de eu estar à espera. Isso é um problema que acontece muitas vezes. Então bati numa pedra e fui tempo com a moto só na roda da frente… nem me quero lembrar disso!

- À Luis Oliveira…

Luis Oliveira - Um bocadinho. Fiquei assustado. Passados 10 km tínhamos a zona de gasolina, e eu ainda estava a tremer. Foi aí que pensei que isto afinal é muito perigoso, porque realmente vamos muito depressa e temos de ir atentos ao roadbook.

- E o que é muito depressa?

Luis Oliveira - O muito depressa é cerca de 180 km/h, no GPS, no odómetro. Posso dizer que tive uma nota de 50 km a sair da Mauritânia, dos 50, para aí 30 foi sempre a fundo, porque não havia buracos e eu acelerava.

- E ainda gritas em cima da moto quando vais a conduzir?

Luis Oliveira - Falo e grito um pouco. Porque vamos tantas horas sozinhos. No motocross é pior porque temos de estar espevitados e por isso grito um bocado, mas é tudo normal.

- Toda a gente sabe o teu palmarés. Já saíste, e agora voltaste à Yamaha. Depois deste resultado há alguma possibilidade de integrares a estrutura oficial, ou vês muito complicado por ser tudo muito prematuro?

Luis Oliveira - Eu gostava imenso, mas cada coisa a seu tempo. Espero que isso aconteça. Se conseguir vingar pelos ralis, é uma marca que eu gosto, é uma marca que eu tenho uma ligação há muitos anos a nível nacional. Basicamente sempre foi o Filipe Almeida que me ajudou, nunca foi a Yamaha Japão. A Yamaha tem excelentes motos, e por isso gostava que isso acontecesse. Vamos trabalhar para que isso aconteça.


- O Jean-Louis Schlesser disse que tu és um piloto demasiado rápido para aquela prova.

Luis Oliveira - Pois, isso não sei. Não posso ser eu a responder a essa questão.

- Sentes a pressão de ser a esperança de Portugal?

Luis Oliveira - É como eu já disse, cada um é como cada qual. Gosto imenso de andar de moto, adorava trazer uma vitória, um pódio ou um 10º. Se realmente tiver de fazer esse caminho, vou trabalhar para fazer o meu melhor. Quer seja candidato ou não, o meu melhor é o que garanto. O resto, é um pouco à parte.

- Vais participar em mais alguma prova para treinar a navegação?

Luis Oliveira - Em princípio sim. Não poderei fazer o campeonato todo, mas algumas corridas quero fazer. Vou fazer nacional de enduro e motocross, estou a tentar reunir as condições para fazer Merzouga, na classe Rookie, porque os melhores rookies têm entrada no Dakar. Mas do meio do ano para a frente, se eu conseguir reunir as condições que quero, quero trabalhar para o Dakar.

- Ficaste encantado com este tipo de competição?

Luis Oliveira - Sim, acima de tudo por ser tão desafiante. Não sou de maneira nenhuma o piloto mais rápido do mundo. Mas seja o piloto de que modalidade for, que seja o mais rápido possível em cima da moto, se não souber navegar não vai lá chegar. Não é só andar de moto, não é só treinar o físico, temos de trabalhar noutras vertentes, e aí entra a parte do roadbook e moto, esse desafio é gigante.


Galeria de fotos Luis Oliveira na Longitude 009

andardemoto.pt @ 11-2-2018 14:45:37


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