Voge DS800 Rally - VOGE, VIDI, VICI
Corria o ano de 47 a.C. quando Júlio César, após mais uma heróica campanha militar, comunicou ao Senado em Roma, a forma como tinha alcançado o sucesso. Júlio César foi curto, conciso e, sobretudo, autoritário: “cheguei, vi e venci!”. Tão simples e eficiente que a frase ficou para a posteridade. E agora define a Voge DS800 Rally.
andardemoto.pt @ 23-6-2026 07:35:00 - Henrique Saraiva
A VOGE chegou ao mercado ibérico em 2019. Apenas um ano depois da sua fundação, enquanto marca premium do grupo chinês Loncin (o segundo maior naquele país).
A consolidação no mercado acontece nos últimos 3 anos e para tal a Voge DS800 Rally veio dar, um reforço de monta.
CHEGOU em 2025!
As características técnicas desta moto assentam em duas vertentes que pretendem, ao mesmo tempo, afrontar as líderes do segmento tão diversas entre si: Honda Transalp e Yamaha Teneré. Um equipamento completo para uma vocação turística, motor com 95 cv e 81 Nm de binário, depósito de grande capacidade, punhos e assento do condutor aquecidos, faróis suplementares, por exemplo, e atributos que a consideram como adequada para uma utilização fora de estrada: ABS e Controlo de Tração desligáveis, rodas de 21”/18”, suspensões de largo curso, amortecedor de direção, espelhos retrovisores retráteis, barras de proteção, proteção de cárter, etc.
Associado a todas estas características, está um preço de combate significativamente abaixo dos valores daquelas competidoras: 8.700€, preço chave na mão, e uma estética, sobretudo nesta versão Black Night, que não deixa indiferente quem olha para ela.
Olhou para o mercado e… VIU!
Será que VENCEU?
Ainda é demasiado recente no mercado para se tirarem conclusões, mas reúne condições para uma afirmação forte nas tabelas de vendas.
Já referimos as características que a destacam, mas… e, na prática? Fizemos cerca de 900 km com a Voge DS800X Rally, a maioria por estradas (algumas muito secundárias) e também algum fora de estrada (que não é a minha praia). E gostei!
A EXPERIÊNCIA
Fiz os primeiros quilómetros pelos arredores de Lisboa. A região saloia serviu de introdução. Depois, fui até ao Alto Alentejo. Entre a ida à 10.ª Açorda Alentejana dos Motards d’Aviz e um passeio até à fronteira que não existe (a travessia do Guadiana em direção a Olivença) mais a ida e o regresso, foram cerca de 900 km.
Com uma média de 4,3 l/100. Francamente bom, principalmente se considerarmos o volume do depósito que nos garante 400 km com segurança (se não nos excedermos nas velocidades, como é óbvio). Acredito que esta característica possa ser um óbice no fora de estrada, porque o centro de gravidade fica bastante alto.
A disponibilidade do motor para subir rotações é boa e com facilidade encontramos uma ótima velocidade de cruzeiro. A banda sonora que sai do escape ajuda à festa.
O curso das suspensões ajudou a enfrentar os pisos por vezes bem degradados das nossas estradas (e não me refiro apenas às muito secundárias, pelo contrário). Fora de estrada nunca perdeu a compostura e os Pirelli Scorpion STR já bem rodados ajudaram.
De referir que no asfalto estes pneus não acrescentavam muito ruído a rolar mas, a velocidades mais elevadas, transmitiam uma ligeira vibração que se sentia nos punhos e poisa-pés, como aliás seria de esperar, face ao respetivo perfil.
Ergonomicamente, para a minha compleição física, a DS800X estava perfeita. Quando me sentei, a posição do corpo ficou natural e isso ajudou bastante no conforto em viagem. A condução torna-se bastante fluída e podemos dar atenção ao que verdadeiramente interessa: a estrada!
A eletrónica disponível, nomeadamente o ecrã TFT de 7” com boa leitura, as possibilidades de conexão com smartphone, a inclusão dos sensores de pressão dos pneus e todos os outros indicadores habituais, merece destaque. Já o disse: gostei de viajar com a Voge DS800X Rally.
Mas será que venceu?
Encontrei alguns senãos. Nada que não se corrija com maior ou menor facilidade. Vejamos:
a) O formato do vidro, com uma dupla concavidade em que a parte superior é contrária à que lhe está abaixo, provoca um efeito aerodinâmico indesejável que se traduz num ruído desagradável na zona superior do capacete. Ou seja, o ar em vez de ser escoado e passar por cima do condutor, sobe e provoca um remoinho por cima da cabeça. Este efeito é sensível se o condutor tiver estatura superior a 1,80m (testei abaixando-me e minimizou imenso o ruído, mas a posição era desconfortável para mim). De referir que o vidro tem duas alturas possíveis (reguláveis com ferramenta) e estava na superior. Como corrigir? Provavelmente com um vidro com formato diferente…
b) O acelerador tem dupla personalidade. A baixas rotações, é brusco, seco e se não for bem controlado à custa da embraiagem provoca algum desconforto, principalmente em manobras ou ao arrancar. Quando as rotações sobem, a partir das 3.000 rpm, esse efeito atenua-se e praticamente não damos por ele. Poderá ser por este não ser um acelerador eletrónico como hoje é frequente, inclusivamente em motos deste segmento. Como corrigir? Com alguma habituação.
c) Um pequeníssimo defeito ergonómico: a patilha de mudança das luzes é demasiado comprida o que faz com que frequentemente, por exemplo após acionar a embraiagem numa passagem de caixa, o movimento dos dedos faça com que acendamos os máximos. Como corrigir? Com o hábito, olhando ocasionalmente para o painel para ver se a luz está acesa e, se a coisa ainda assim não resultar… talvez com uma lixadela diminuir-lhe o tamanho…
d) Mais do que um senão, é uma falsa promessa. Como atrás referi, o acelerador não é eletrónico. Isso inviabiliza a existência dos já vulgares modos de condução. Na realidade, a Voge DS800X Rally tem dois modos de condução - o Normal e o Sport - mas o único efeito palpável é a mudança de cor do ecrã. Em tons de preto e azul no primeiro caso e em tons de preto e verde no segundo. Como corrigir? Não precisa. Não é defeito, é feitio.
e) A marca anuncia a capacidade de 24 litros para o depósito e refere que a reserva são cerca de 3 litros. O marcador digital no ecrã tem 5 traços que estarão totalmente preenchidos com o depósito cheio. Vão apagando, um a um, a cada 90km aproximadamente (depende das velocidades, claro). Quando o penúltimo apaga, acende a luz indicadora da reserva e o traço restante fica intermitente. Uma das vezes que atestei, já estava na reserva há alguns quilómetros… e mesmo assim não consegui meter mais de 19 litros. Ou a reserva é maior que o anunciado, ou a capacidade total é inferior. Como corrigir? Não precisa… é só habituarmo-nos e conhecermos melhor a autonomia da máquina.
E depois de todo este relambório, venceu ou não?
CONCLUSÃO
Diria que para uma afirmação concludente, nomeadamente se o objetivo é avaliar a moto como uma solução verdadeiramente a considerar por um futuro comprador, terei que incidir em 4 aspetos:
1. Características da moto: a profusão de equipamento que traz de série, a polivalência, o conforto (excetuando a questão do ruído no capacete) e o desembaraço quer na estrada, quer em cidade, a excelente autonomia, são fatores muito positivos a seu favor.
2. Fiabilidade: A marca é nova, o modelo é muito recente, portanto o histórico de fiabilidade não é significativo. Todavia se considerarmos que o grupo industrial que produz estas motos não só colabora ou colaborou com marcas reputadas (BMW Motorrad, por exemplo) e fabrica cerca de 3 milhões de motos por anos…
3. Assistência Técnica: contei 42 concessionários no País. Evidentemente com especial incidência junto ao litoral e perto dos grandes centros. Já no interior, apenas em capitais de distrito e sem presença em Trás-os-Montes. Nas ilhas, existe um, no Funchal, para a Madeira e apenas em Angra do Heroísmo, para os Açores. Este é um aspeto a considerar e relevante para quem adquirir uma Voge.
4. Valor de revenda: provavelmente terá uma maior desvalorização (realço, provavelmente) face a marcas com presença há muito tempo no mercado. Todavia é bom considerar que a maior parte do desconto já está feito no valor de aquisição que também é inferior ao daquelas.
Dito tudo isto, eu diria que tem todas as condições para ser um sucesso, mas a palavra final caberá às preferências dos motociclistas portugueses que a colocarão no seu lugar certo nas tabelas de vendas. Tudo depende da forma como valorizam todos os aspetos atrás referidos.
Mas, sendo justos, se considerarmos que a marca é nova e o modelo, a Voge DS800X Rally, sendo recente no mercado e desde logo conseguindo fazer-nos balançar face a outras propostas já consolidadas, então a VOGE venceu!
andardemoto.pt @ 23-6-2026 07:35:00 - Henrique Saraiva
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