Henrique Saraiva
Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!
OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina
A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA…
… e o período do Natal e do Ano Novo continua a ser o mais tradicional de todo o ano.
andardemoto.pt @ 13-1-2026 15:40:58 - Henrique Saraiva
As iguarias da Consoada, a alegria das crianças a abrir os presentes, a condescendência dos mais velhos perante o inevitável par de peúgas ou a folia instagramável do Réveillon: esta quadra brinda-nos com as mais diversas tradições - universais ou apenas familiares, consumistas ou religiosas - que preenchem os últimos dias de cada ano e os primeiros do vindouro.
A TRADIÇÃO DA CAMPANHA DE SEGURANÇA RODOVIÁRIA PARA O NATAL E O ANO NOVO
Esta é uma tradição que, todos os anos, me desperta curiosidade. Por uma razão simples: a expectativa de que, desta vez, seja eficaz. Infelizmente, mais uma vez, a tradição manteve-se intacta:
- Uma sessão solene de apresentação da Campanha, com um headline baço (que serepete há anos) e imagens promocionais que chocam, mas não interpelam;
- Um show-off para a comunicação social na praça das portagens da Ponte 25 deAbril, onde alguns dignatários dizem as palavras do costume, os responsáveis dasforças policiais garantem o “empenhamento de todos os meios disponíveis”(linguagem técnica, militarizada) e reforçam a mensagem da trilogia “Velocidade,Álcool e Telemóvel”, o Santo Graal da nossa prevenção rodoviária;
- Relatórios diários nos telejornais com a contagem de vítimas.
Chegados ao fim das festas, as conclusões também são tradicionais - embora este anotenham trazido uma novidade.
A mensagem não resulta. Para que resultasse, seria necessário que o mensageiro (as diferentes formas de comunicação utilizadas) transportasse - e acreditasse - na mensagem; que esta fosse percebida, interiorizada e gerasse a inquietação necessária à reflexão e à mudança de comportamentos. Qualquer publicitário medianamente competente poderia explicar isto à ANSR…
O show-off da Ponte serve apenas para criar a ilusão de que a PSP e a GNR dispõem dos meios necessários para a presença nas estradas que anunciam. Infelizmente, não dispõem (e a culpa não é deles!). Assim, limitam-se a operações pontuais, de preferência em locais que melhor contribuem para as estatísticas… A quantificação diária das vítimas gera a inevitável banalização dos números.
Ao quarto ou quinto dia, os espetadores tornam-se insensíveis ao seu significado. E o pior que pode acontecer é ficarmos indiferentes perante a morte.Qual foi, então, a novidade deste ano? Não houve malabarismo estatístico que funcionasse. Os números foram trágicos: 38 vítimas mortais em 18 dias - mais de duas por dia.
E apenas contabilizando os que morreram no local do acidente ou no trajeto para o hospital. Se incluirmos os que não sobrevivem nos 30 dias subsequentes, esse número aumenta, em média, 30%. Ou seja, a Campanha de Natal e Ano Novo não evitou a perda de cerca de 50 vidas humanas.
Esta campanha falhou. Tal como vêm falhando, sucessivamente, todas as campanhas associadas às épocas festivas: Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, férias, feriados e pontes diversas.
Deixo um desafio à Comunicação Social. Quando presenciarem os atos oficiais de lançamento de uma nova campanha, façam a seguinte pergunta: ”- E desta vez, o que vai ser feito de diferente?” (Podem justificar: as mesmas soluções tendem a produzir os mesmos resultados - e estes têm sido péssimos.)
A PÉSSIMA ESTATÍSTICA DE 2025
Assim, concluímos mais um ano em que, somadas as fatalidades ocorridas no local dos acidentes e nos hospitais, cerca de 600 pessoas perderam a vida em consequência de acidentes rodoviários. Com grande probabilidade, teremos alcançado o TOP 5 dos países europeus com mais vítimas mortais por milhão de habitantes.
Destas vítimas, cerca de 25% (150) utilizavam veículos de duas rodas com motor e 17% (100) eram peões.Posto isto, a culpa é das entidades públicas? Também. É claro que sim, porque falham ou são omissas no que lhes compete. Mas os maiores culpados somos nós, os condutores. E não - a culpa não é do outro…
Talvez porque somos induzidos por estímulos errados, talvez porque não tenhamos plena consciência das consequências dos nossos atos, talvez porque achemos que o mal só acontece aos outros ou que temos sempre o perfeito domínio da situação e, se algo falhar, a culpa será necessariamente alheia…
A NOSSA RESPONSABILIDADE COMO CONDUTORES
Voltemos ao tal Santo Graal da prevenção rodoviária:
1. O excesso de velocidadeEste conceito serve, basicamente, para definir uma fronteira legal: o que é permitidoe o que é punido. Convém recordar que os atuais limites de velocidade foramestabelecidos em 1973.O que verdadeiramente é perigoso chama-se velocidade excessiva: aquela que,mesmo sendo inferior ao limite legal, ultrapassa as condições de segurança paracontrolar e deter o veículo. A primeira resulta numa multa; a outra, num acidente.
2. O excesso de álcoolO alcoolismo é endémico em Portugal. As épocas festivas potenciam o consumo deálcool - e também de outras substâncias “excitantes”. É um facto.Mas quantos condutores antecipam as consequências de conduzir sob o efeito demedicamentos vulgarmente prescritos? Sonolência, atraso de reações, raciocíniolento, falhas de atenção, alterações cognitivas e motoras, sedação.E quais são eles?a) Alguns analgésicos potentes com opióides;b) Relaxantes musculares;c) Antidepressivos;d) Alguns anti-histamínicos usados no tratamento de alergias;e) Antipsicóticos;f) Produtos farmacêutico-medicinais à base de cannabis.Alguém lê a bula dos medicamentos antes de iniciar uma viagem?
3. A utilização do telemóvelHoje, a maioria dos veículos (ou dos condutores, no caso das motos) dispõe desistemas de atendimento remoto, reduzindo o risco - embora desviar o olhar para verquem liga possa ser fatal.O verdadeiro perigo reside na urgência de ver ou responder “àquela mensagem” (quepode ser a última), de programar o GPS em andamento ou de tentar interpretar oecrã enquanto se conduz, de procurar uma estação de rádio num painel tátil que maisparece uma televisão. Sempre fica o acidente com banda sonora…
E, finalmente, o comportamento de todos e de cada um de nós na via pública. Parece haver uma inversão de valores: a máxima “a minha liberdade termina onde começa a tua” foi substituída por “a tua liberdade só começa quando termina a minha”. Parece igual… mas não é.
Recordo outro aforismo popular: “Para sermos respeitados, temos de começar por respeitar.”
Na via pública, respeito significa educação, cortesia, cumprimento das regras e, sobretudo, rejeição de comportamentos agressivos. No limite, todos temos o mesmo objetivo: chegar a casa em segurança.Se não formos nós a fazê-lo, certamente não serão os outros - sejam eles condutores, peões ou autoridades.
E porque começámos por falar de campanhas, abaixo ficam dois bons exemplos:
Desejo-lhe um excelente ano de 2026 - com muitas curvas, máxima atenção, equipamento adequado e, por favor, ajude a acabar com esta triste tradição.
Um da Islândia, sobre o consumo de álcool;
Outro, de Hong Kong, promovido pela Volkswagen, sobre o perigo da utilização do telemóvel.
andardemoto.pt @ 13-1-2026 15:40:58 - Henrique Saraiva
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