Honda VFR 400R: genes de competição
Apresentamos uma moto verdadeiramente especial, que se aproxima de uma moto de competição, apesar de ter todos os equipamentos essenciais para circular na via pública.
andardemoto.pt @ 6-8-2026 21:29:12 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Quando surgiu no mercado, em 1987, a Honda VFR 400R era uma moto que se destacava face à oferta existente e hoje, passadas mais de três décadas, continua a ser uma referência e está rapidamente a tornar-se num verdadeiro clássico, a que não é alheia a estética inspirada na mítica Honda RC 30, também conhecida por VFR 750R.
Qualquer que seja a perspetiva em que fôr apreciada, a Honda VFR 400R transpira competição por todos os poros, incluindo uma decoração de moto de grande prémio da Honda HRC (Honda Racing Corporation) e uma construção minimalista, mas de inegável qualidade. A haver um elemento que destoa são os indicadores de mudança de direção, vulgo piscas, que são anormalmente grandes.
Um pouco de história
O fabricante nipónico já utilizava motores de quatro cilindros em V a 90o nesta cilindrada, pelo menos desde 1982, com a sua Honda VF 400F, mas decidiu ir um pouco mais longe e lançou, em 1987 a sua VFR 400R. O V designa a arquitetura do motor, o F é a abreviatura de Four para referir o número de cilindros (quatro) e o R (racing) significa que se trata de uma moto especial.
O sucesso, mesmo tratando-se de uma moto de nicho, surgiu naturalmente em especial no mercado japonês já que era destinada sobretudo para consumo interno. No Japão existiam várias restrições a motos de cilindrada superior a 400 cc, em termos de seguro, licença de condução… pelo que esta era uma cilindrada muito apreciada e todos os fabricantes nipónicos tinham pelo menos um modelo deste perfil, como se de uma mini superbike se tratasse.
Ao longo da sua vida a VFR 400R conheceu três gerações, a NC 21, 24 e 30, sendo que o exemplar que vamos analisar, matriculado no nosso país em 1991, corresponde à terceira e mais cobiçada geração.
Nunca foi uma moto de grande produção, nem era esse o seu objetivo. Não esteve disponível em todos os mercados e o seu preço, muito elevado, ilustrava bem o seu posicionamento elitista no mercado, mas facilmente compreendido se tivermos em linha de conta as suas especificações e raridade, sendo que pouquíssimas chegaram a Portugal.
Para termo de comparação, tomando por referência o ano de 1991, o preço de venda da VFR 400R era de cerca de 1390 contos (6950€). Uma Honda CBR 600F, com mais cilindrada e performance superior, mas mais pesada e menos ágil, custava 1400 contos (7000€)! Na atualidade o valor de uma CBR desse ano será muitíssimo inferior ao da VFR 400R, pelas razões acima enunciadas!
Deixou de ser produzida em 1993 para dar lugar à muito cobiçada e ainda mais rara RVF 400 (nome de código NC 35), réplica em ponto pequeno da RVF 750R (RC45), mas essa história vai ficar para outra oportunidade porque agora vamos focar-nos na NC 30 do David Carvalho, a quem deixamos um agradecimento público pela disponibilidade para o teste e conhecimento do modelo.
Joia em estado puro
Além de uma estética agressiva, quase provocadora, é fácil imaginar como esta moto era impactante e poderosa, além de que estava perfeitamente à altura de se bater contra as ferozes 250 cc a dois tempos da época, como a Honda NSR 250, a Suzuki RGV 250 ou a Yamaha TZR 250. Daqui a algum tempo também iremos abordar uma delas.
Naturalmente que a VFR 400R necessitava de mais cilindrada, cerca de 150 cc, para ter performances ao mesmo nível, sendo uma moto mais pesada, mas apresentava caraterísticas, como a facilidade de condução, que a tornavam única e ajudam a perceber melhor o seu encanto, ainda nos dias de hoje.
A Honda VFR 400R foi excecionalmente bem concebida e em todos os pormenores percebemos o cuidado extremo, quase obsessivo, com que foi produzida, incluindo um magnífico quadro dupla trave em alumínio ou a ponteira e coletores de escape, mas o mais chamativo acaba por ser, provavelmente, o monobraço traseiro (Pro Arm) que permite apreciar a bela jante na totalidade.
O outro ponto de destaque e que não se vê, mas facilmente se sente na condução, é o seu original motor de quatro cilindros em “V” com bancadas a 90o. Consegue cativar-nos de uma forma inesperada e é um verdadeiro concentrado de tecnologia, tendo no seu interior todo o know-how da marca, como a distribuição acionada não pela tradicional corrente, mas antes por uma cascata de carretos (gear driven cames), que permite que a linha vermelha do taquímetro comece apenas às 14.500 rpm.
O resultado impressiona: um motor que está praticamente isento de vibração ou ruídos mecânicos, que sobe muito bem de rotação e sem hiatos ou quebras de potência, mas que permite ser conduzido devagar, apesar de a posição de condução e a dureza da manete de embraiagem em nada ajudarem.
Sensações de condução
Assim que nos sentamos na VFR 400R percebemos o óbvio: esta moto é perfeita para pessoas de pequena estatura. Para os de estatura média, onde me incluo, já fico quase no limite e para os mais altos pode ser mesmo um tormento. Mas esta é uma moto quase sem compromissos ao conforto, como se pode ver no assento do passageiro, que é do tipo tábua e muito elevado, ou na forma como carregamos o peso nos pulsos.
Tentamos acomodar-nos, colocamos o motor em funcionamento e aguardamos um pouco para ganhar alguma temperatura e podermos empobrecer a mistura (choke). Entretanto aproveitamos para confirmar que a moto é uma delícia para os olhos. O seu cockpit quase parece o de uma moto de competição e o taquímetro em posição central reforça isso mesmo.
A embraiagem é progressiva, mas pesada, a posição de condução é radical e até desconfortável, mas assim que arrancamos esquecemos tudo isso! As sensações que nos transmite são muito superiores e ao fim de alguns minutos parece que já somos velhos amigos!
A potência fica disponível desde cedo, mas uma verdadeira explosão surge por volta das 8000 rpm, altura em que o motor se transfigura e dá tudo o que tem para oferecer. O regime de potência máxima, cerca de 61 cv, surge às 12500 rpm, mas é possível ir ainda um pouco mais além e sempre com a melodia do escape em crescendo. Só mesmo experimentando se percebe!
A primeira velocidade é anormalmente longa, mas as outras cinco relações estão todas muito próximas umas das outras. São os genes de moto de competição, que em nada ajudam numa utilização citadina. Não sendo este o seu habitat natural, pode ser usada como tal, até porque a sua fiabilidade é elevada e a dissipação de calor assegurada por dois radiadores de líquido e ainda um terceiro, mais pequeno, destinado a ajudar a baixa a temperatura do óleo, garantem o perfeito funcionamento do motor.
Os travões dianteiros são fortes e muito progressivos e ajudam a parar a moto rapidamente. O traseiro serve apenas para amparar e a sua capacidade de travagem é apenas suficiente.
À frente temos um pneu de uma medida comum, 120/60 17, mas o traseiro é de uma medida incomum e até rara, o que certamente vai limitar bastante a escolha: 150/60 18. Sim, leram bem! Atrás a medida da jante é a comum numa atual moto de enduro! Outros tempos…
As suspensões cumprem, sem castigar demasiado o corpo, mas não deixam de ser talhadas para uma utilização mais desportiva e radical que esta moto, e a esmagadora maioria das unidades existentes, não vão ter dada a sua raridade e dificuldade de obtenção de peças de reposição, como é o caso das carenagens.
Aliás, este exemplar é uma verdadeira moto de coleção. Não foi alvo de qualquer restauro e a patine visível em alguns detalhes só lhe aumenta o valor. Tem pouco mais de 7000 km e uma história curiosa, sendo que esteve parada mais de 20 anos até o David a descobrir, comprar, fazer uma revisão geral (acessibilidade mecânica a alguns componentes muito complicada) e lhe devolver a glória que merece.
Notas finais
A Honda VFR 400R era, e continua a ser, uma moto muito peculiar. O facto de agora existirem mais exemplares em Portugal, importados, só vem reforçar o facto de que continua a ser um objeto de desejo e a arrebatar corações.
Não é uma moto adequada para quem quiser ficar incógnito ou adequada para ir comprar pão, mas acaba por ser menos exigente na condução do que seria de prever, não requerendo dotes especiais para a sua fruição.
Motos como esta são um verdadeiro exemplo da genialidade humana em duas rodas e a certeza de que não são necessários muitos cavalos para que a diversão seja garantida.
Conduzir esta VFR 400R é desfrutar de uma joia mecânica rara e os sorrisos que nos causa não têm preço.
andardemoto.pt @ 6-8-2026 21:29:12 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
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