Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

ONDE PARAM OS 100 MILHÕES?

Spoiler alert: o título é meramente especulativo…mas,se calhar, peca por defeito! Agora que captei a sua atenção, vamos ao que interessa… vamos falar de MOTOTURISMO

andardemoto.pt @ 1-8-2026 02:20:25 - Henrique Saraiva

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O MOTOTURISMO QUE EXISTE… E O OUTRO

Existe uma realidade transversal ao universo motociclístico nacional: o Mototurismo, leia-se as viagens turísticas em moto, não existe!

Dir-me-ão que olvido alguns factos: ao longo do ano realizam-se inúmeras concentrações motociclísticas, país fora, organizadas por moto-clubes e respaldadas pela Federação de Motociclismo de Portugal (FMP). É verdade!muitos motoclubes organizam “moto-ralis”, enquadrados numa competição promovida pela FMP. Também é verdade! O Lés-a-Lés, organização da FMP, percorre anualmente Portugal de fio a pavio. E até já desdobrou, para lá do original, em versões “todo-o-terreno” e “clássico”. Igualmente é verdade!

Todas estas organizações, e é disso que falamos, constituem a atividade mototurística reconhecida pela autoridade máxima do Motociclismo em Portugal. É só isto o Mototurismo?

Em boa verdade, são eventos que movimentam, por vezes centenas, noutras ocasiões milhares de motociclistas. Que trazem movimento e geram riqueza nas regiões onde se realizam ou percorrem. Se essa riqueza depois fica nesses locais… é outra história.

Todavia, também geram constrangimentos: aglomerações em locais que não estão preparados para as receber, incómodos (seja pelo excesso de movimento, seja pelo ruído) para as populações das pequenas vilas e aldeias, superlotação hoteleira. Repito, é só isto o Mototurismo?


A avaliar pela página da própria FMP assim parece. Existe também o ACT Portugal, mas que é destinado a uma clientela muito especial e aventureira, e que se resume, basicamente a um itinerário.

Mas assim estamos a esquecer-nos de uma realidade muito mais vasta e que abrange um universo de motociclistas muito maior: aqueles que viajam sozinhos, em parelha ou em pequenos grupos, que organizam os seus próprios passeios, que circulam em autonomia, efetuando os seus consumos: alimentação, alojamentos, combustíveis e outras despesas, localmente, nas terras por onde vão passando ao longo das suas jornadas.

Falta ainda mencionar outro tipo de ofertas: alguns tours organizados, mais seletivos e com menos movimento, mas que não constituem uma oferta turística consistente. E ofertas turísticas como a EN2 ou a nova Rota Norte que, apesar da sua atratividade, especificidades e dinâmicas próprias, funcionam de forma isolada.

Acresce outra realidade que se explica do ponto de vista económico: os mototuristas nacionais (qualquer que seja o formato das suas viagens) apenas “transfere” riqueza entre regiões. Nalguns casos das mais favorecidas para as mais esquecidas, outras nem por isso (basta que os serviços fornecidos nos eventos o sejam por empresas sediadas nos grandes centros). Em termos de acréscimo de riqueza nacional, a soma é nula!

Já os estrangeiros que nos demandam, na esmagadora maioria também pertencentes aquele universo “que não existe”, acrescentam à riqueza nacional os valores de todos os consumos que realizam. Na Economia Nacional, como exportações! 

Quantos são? Ninguém sabe! O Instituto Nacional de Estatística (INE) não os conta! O Turismo de Portugal desconhece a sua existência! A FMP esquece-os! Como tal… não existem!

QUAIS 100 MILHÕES?

Na ausência de estatísticas oficiais, para podermos elaborar um raciocínio que fuja liminarmente à especulação, é necessário consolidar múltiplas fontes e, mesmo assim, os resultados são meras estimativas (mas não desprezáveis e não devem ser ignoradas como aproximação à realidade). E o que dizem essas estimativas?

Vamos olhar apenas para o mercado europeu enquanto emissor de mototuristas para Portugal.
Apesar do valor intermédio apontar para um número da ordem dos 175.000 motociclistas europeus que demandam o nosso território anualmente, julgo ser necessária alguma prudência o que, para efeitos de cálculo de receitas possíveis (estimadas), aconselha que nos fixemos num valor de 100.000.

Comparemos: Espanha recebe mais de 500 mil, França cerca de 1 milhão, Itália aproximadamente 700 mil, Croácia quase 200 mil, Noruega cerca de 100 mil e… Marrocos também cerca de 100 mil.
100.000 motociclistas, cujas origens principais são, mais coisa menos coisa:

Alemanha - 25 %
França - 20%
Reino Unido - 15%
Bélgica e Países Baixos - 12%
Itália - 5%

A contabilização dos motociclistas espanhóis é praticamente impossível de estimar dada a permeabilidade da nossa fronteira comum e a frequência com que é ultrapassada (nalguns casos mais do que uma vez na própria jornada e noutros apenas por razões fortuitas, como sejam ir abastecer de combustível).

As estimativas apontam para 20%, mas creio, por estas razões, que será substancialmente superior (mas também nem sempre qualificável como mototurismo).

A Península Ibérica é, para alguns efeitos, uma realidade. E se no que respeita às estatísticas assim pode parecer, já no que se refere à forma como este tema é tratado, é outro mundo! 


Estes motociclistas procuram-nos pelo clima, pela diversidade paisagística, pela gastronomia, pelas estradas e paisagens, pelas nossas gentes e por um território que em grande parte ainda preserva a sua genuinidade. Portanto…temos produto turístico e naturalmente potencial atrativo. Apesar do corredor da moda: Espanha - Marrocos, os afastar de nós…

Para cá chegarem, demoram (entre vinda e regresso) uma semana. Logo, a sua estadia será da ordem dos 10 dias ou, geralmente mais. As estimativas apontam para gastos diários superiores a 120€.

É preciso notar que o perfil sociológico médio destes mototuristas apresenta um perfil etário acima dos 40 anos, bom poder económico e nível cultural médio a superior. Ou seja, com elevado potencial em termos receitas provenientes desses gastos de viagem. E aqui chegamos ao busílis. Vamos a contas, que são fáceis:

100 mil mototuristas estrangeiros, que gastem diariamente cerca de 100€/dia e que permaneçam no nosso território, no mínimo 10 dias. “É só fazer as contas!”

100.000 x 100 x 10 = 100.000.000 € … anualmente.

Como vimos, os valores utilizados foram “por baixo”, o que permite deduzir que a receita anual que Portugal recolhe será algo superior.

São 100 milhões de euros, na sua esmagadora maioria retidos localmente e em regiões afastadas dos grandes centros de turismo. As regiões mais desfavorecidas e esquecidas do nosso território. Sem causarem constrangimentos para as populações porque circulam sozinhos ou em pequenos grupos, distribuidos ao longo da maioria do ano.


E tudo isto proveniente de uma realidade turística e económica que… não existe!

O POTENCIAL

Portugal tem um potencial mototurístico tremendo. Sabemos todos isso. O que falta então?
Em primeiro lugar, o reconhecimento por quem de direito - Turismo de Portugal - desta realidade e do que ela pode contribuir para o rejuvenescimento económico das regiões mais remotas do nosso território, que constituem cerca de ⅔ da área total: 70% da superfície de Portugal tem apenas 20% da população e contribui com menos de 15% para o PIB nacional. É tempo de fazermos algo, certo?

Depois, é fundamental criar um ecossistema mototurístico que consiga pensar esta realidade de forma integrada:

- Definir trajetos  cénicos “para motociclistas”, que proporcionem prazer de condução, devidamente referenciados, sinalizados e publicitados (obviamente que dotados de todas as condições de segurança: pavimento, sinalização, miradouros, zonas isntagramáveis, etc.). O objetivo final seria a criação de uma Rede Mototurística Nacional. A Espanha faz isto e muito bem, vide a “Rueda Dorada” promovida pela RFME ou as “Rutas Moteras” um pouco por todo o território.

- Criação de uma selo de garantia “Moto Friendly” que inclua as entidades a quem os mototuristas recorrem: alojamentos (check-ins tardios, check-out madrugadores, locais adequados e seguros de estacionamento, etc.), restaurantes (refeições rápidas e com horário alargado, aparcamentos adequados), oficinas (horários alargados para reparações e serviços rápidos e possibilidade de recurso durante o fim de semana), etc. Este tipo de certificações são muito populares em França e no Reino Unido.

- Informação sistemática às comunidades no sentido de perceberem os benefícios que podem recolher desta atividade e incentivos à criação de iniciativas que possam atrair e acolher os mototuristas.

- Criação de uma plataforma digital multilíngua que permita a cada um dos mototuristas a obtenção de informação actual e localizada e lhe facilite escolher as melhores opções na sua viagem. E que também os informe sobre os hábitos nacionais e a formas adequadas de abordagem das populações e as suas especificidades.

- Desenvolvimento de uma política de Marketing Internacional (olhar para o umbigo só nos faz andar em círculos!) que inclua a abordagem aos meios onde os mototuristas “circulam”: redes sociais, influencers, entidades internacionais vocacionadas para estas atividades, feiras internacionais, salões de turismo e de motos, etc.
- Finalmente e, talvez mais importante: todo este ecossistema deve ser coordenado de forma integrada e nacional. A sua governação deve incluir as entidades públicas (do Governo e Turismo de Portugal aos Municípios) e os agentes privados envolvidos.

Mas é fundamental, decisivo mesmo, que essa gestão seja feita por quem conhece a realidade do Mototurismo…porque é para mototuristas que se destina. Para estes mototuristas, se me faço entender…

Será que é possível fazer avançar o Mototurismo português como um dos canais privilegiados de promoção do nosso País e de rejuvenescimento do interior?
Será que, se a sociedade começar a olhar para os motociclistas como agentes de uma realidade económica e social relevante, não melhorará os sentimentos tantas vezes adversos para nós e que depois se refletem na (in)segurança rodoviária?

Vamos continuar à espera que “alguém” venha fazer por nós o que é preciso fazer? Se calhar quando dermos por isso… outros destinos já nos ultrapassaram: Marrocos, Balcãs, etc. E o nosso quintal continua na mesma...

andardemoto.pt @ 1-8-2026 02:20:25 - Henrique Saraiva

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