Zündapp KS600: Charme que perdura
Uma moto completamente diferente, mas com um charme e um magnetismo intemporais: a Zündapp KS600
andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Esta Zündapp KS (abreviatura de Kardan Sport) tem muito pouco a ver com a RGV do mês passado, basta pensar que o seu motor tem um ciclo a quatro tempos ou que os seus dois cilindros são de arquitetura boxer. Mas há algo que as une: são duas motos de gerações muito distintas, mas que por razões diferentes têm um lugar na história.
Naturalmente que, para os mais distraídos, o nome Zündapp nos remete apenas para as produções nacionais da segunda metade do século passado, nomeadamente para os motores usados pela Famel ou pela Casal, mas a marca é muito mais que isso. Aliás, para quem é um pouco mais atento e conhecedor pode lembrar-se da scooter Zündapp Bella, bastante popular na década de 50 e 60, mas há ainda muito mais para descobrir sobre a marca de Nuremberga.
Alguma contextualização
A marca alemã nasceu ainda durante a I Guerra Mundial, fruto essencialmente do génio de Fritz Neumeyer e Friedruch Krupp e o seu objetivo era bélico, daí o nome Zünder- und Apparatebaugesellschaft, ou seja, detonadores e engenharia de aparelhos, mas com a derrota no conflito rapidamente mudaram o foco e ainda bem que o fizeram.
Pouco depois da guerra terminar, Neumeyer decidiu dedicar-se à produção de motos e em 1921 é apresentada a Z22, sob o slogan Motorrades fur jedermann, que podemos traduzir por “motos para toda a gente”. Ou seja, uma moto acessível, com motor a dois tempos, robusta, fácil de conduzir e não demasiado dispendiosa. Ao que consta, ia beber influência à concorrente Levis, de fabrico inglês, mas foi um sucesso e a porta de entrada para voos mais altos.
Assim, em 1930 a marca lançou a Python 500cc, sob licença da Rudge, e afirma-se definitivamente não apenas no mercado doméstico, mas também na exportação para outras latitudes. Daí para a frente foi sempre em crescendo, começando também a fornecer o exército, tal como a sua adversária BMW que, apesar de todas as adversidades, sobreviveu e continua bem viva nos dias de hoje.
É já numa altura em que a II Guerra Mundial se avizinhava que a marca lançou a sua magnífica KS 600, mais precisamente em 1938. É ela a estrela desta crónica e teve um papel muito relevante durante o conflito, sendo que foi usada em diversos campos de batalha, fazendo uso de uma fiabilidade lendária e de uma robustez a toda a prova, incluindo a adaptação de um sidecar e de motorizações de maior porte, caso da KS 750.
Após o final da II Guerra, com a Alemanha de rastos e dividida, a marca sobreviveu e a KS600 até evoluiu para a KS601. Em 1953, tendo presente o fenómeno de popularidade das scooters italianas, a Zündapp lançou o modelo Bella. Bastante distinta, esta moto tinha nítidas semelhanças com a Parilla Levrier e foi um relativo sucesso, tendo usado motorizações de 150 e 200 cc. Numa fase tardia alguns modelos também tinham um motor de 175cc dos quais existem alguns exemplares no nosso país.
Em 1957 a Zündapp até se aventurou nos automóveis e lançou o seu microcarro Janus (em honra do Deus Grego Jano, Deus das duas caras). Hoje uma raridade muito apreciada e que tinha especificidades muito curiosas: como é o caso de ser equipado com um pequeno motor a dois tempos de 248cc, portas opostas (frente/trás) e bancos traseiros virados para a retaguarda.
A partir de então a marca começou a entrar em agonia e focou-se mais nas baixas cilindradas, nomeadamente nas scooters, mas o fim estava próximo. A meados da década de 80, depois de graves problemas económicos e a par com uma concorrência feroz, a marca acabou mesmo por fechar as portas e o seu recheio acabou por ser vendido à China que, obviamente, o aproveitou para se lançar no mercado, mas essa história fica para outra oportunidade.
Estética arrebatadora, de uma moto que veio de Espanha!
Esta KS 600, produzida em 1941, é uma daquelas motos que nos consegue facilmente conquistar, logo ao primeiro olhar. Vista de lado, de frente, de cima ou de trás, há harmonia em todas as suas proporções e muitos detalhes deliciosos, incluindo os vários logotipos da marca. A ausência do selim do passageiro só melhora o conjunto. Mesmo a pintura, não original, tem por detrás uma história curiosa e que vale a pena conhecer, mesmo que de forma muito sumária:
Foi adquirida em Vigo e, ao que consta, faz parte de um lote de motos que foram enviadas para Espanha pela Alemanha, durante a II Guerra Mundial. Várias delas foram enviadas para a Frente Russa e usadas pela Legião Azul espanhola (conhecida também por 250ª Unidade de Voluntários da Wehrmacht, onde também combateram soldados portugueses). Já outras, provavelmente será o caso desta, fizeram parte das motos usadas pela escolta pessoal do ditador Franco, antes de começarem a utilizar as Harley-Davidson.
A KS 600 foi usada intensivamente durante a guerra e era um “pau para toda a obra”, tendo conhecido diferentes teatros de guerra. A própria estrutura da moto, com destaque para o quadro estampado e sem soldaduras, permitia aparafusar toda a estrutura e acessórios, fazendo dela uma ferramenta perfeita, nomeadamente para usar como veículo de comunicação rápida, nos vários cenários do conflito. No total, foram produzidas mais de 20.000 unidades, sendo que a maioria das quais acabou por ter fins militares e não sobreviveu.
Sensações de condução
Não foram muitas as vezes que tive oportunidade de conduzir motos desta época sem receio de cair, estragar alguma coisa ou simplesmente ficar parado à beira da estrada, algo que também já me aconteceu ao testar motos clássicas. Esta Zündapp é e parece ser robusta, mesmo sendo já uma octogenária.
Aliás, o seu proprietário corrobora isso mesmo e reforça que é uma moto escandalosamente fácil de conduzir e de uma fiabilidade a toda a prova, sendo também muito fácil de colocar em funcionamento, mais ainda porque o sistema elétrico foi melhorado pela conversão para 12 volts. Esta prática, muito comum, em nada é uma traição ao original, mas antes uma melhoria muito bem recebida.
Sentamo-nos no egoísta selim (faz lembrar as nossas bicicletas pasteleiras), abrimos bem os braços para poder abraçar o guiador e o processo de arranque é simples: manípulo na posição on (há um testemunho vermelho que se acende) torneira da gasolina em posição aberta, ativar o enriquecedor de mistura, e, finalmente, uma “patada” (pedal/kick à esquerda) decidida e o motor desperta para a vida.
O boxer de 597 cc, com dois cilindros em posição transversal debita cerca de 28 cv às 4.800 rpm e está pronto para a ação, sendo que as 4 mudanças (existe até um acessório para poderem ser acionadas pela mão) permitem explorar o motor com grande facilidade, mas sempre a um ritmo de passeio, até porque a suspensão não ajuda, pois na dianteira é do tipo paralelograma deformável e atrás simplesmente não existe. Temos que nos contentar com as molas do selim.
As manetes têm a particularidade de serem invertidas, passando os respetivos cabos por dentro do guiador. Pode causar alguma confusão, mas em termos práticos o resultado é rigorosamente o mesmo e esteticamente resulta muito bem, sendo que era prática comum na época.
Largamos a embraiagem com delicadeza e lá vamos nós, estrada fora, com um pedaço de história a caminhar para os 90 anos! Se esta moto falasse (ela fala, pelo motor e escapes, mas eu não domino bem a sua linguagem) tantas histórias teria para contar!
Curva com relativa facilidade e o peso, a rondar os 200 kg, parece menor por causa do centro de gravidade estar tão baixo. E até os travões são suficientes para parar a moto. Uma verdadeira delícia de condução em que apenas as reduções precisam de ser feitas com algum cuidado, porque uma atitude mais intempestiva pode causar o bloqueio da roda traseira, sendo a transmissão à roda feita por veio e cardã.
Depois dos primeiros quilómetros, ainda algo receoso, rapidamente tomei consciência que a moto é mesmo simples e divertida de se conduzir, e que a sua estética não deixa ninguém indiferente, tal como o som melodioso das duas vistosas ponteiras de escape. O próprio cantar do motor é agradável e a vibração contida, sentindo-se apenas na medida certa.
Esta KS 600 representa a essência de uma moto clássica: muito bem cuidada, existe basicamente para desfrutar em ritmo de passeio, mais ainda numa bela manhã de primavera como a que tivemos nesta sessão fotográfica.
Notas finais
Conduzir esta KS600 foi uma bela surpresa. Ainda antes de pegar nela fui logo alertado que a ela iria ter o condão de me conquistar quando a visse com detalhe, mas que o melhor seria a sua condução/fruição.
Assumo que as minhas expetativas foram superadas e no final estava feliz. Uma moto que, em toda a sua simplicidade e aspeto robusto, acabou por me dominar, não apenas pela beleza, mas pela forma como se deixa conduzir, isto para não falar na sua história.
Dei por mim a pensar que foi uma pena a Zündapp ter ficado pelo caminho. Se tivesse sobrevivido, quantos mais motos icónicas não teria feito chegar até nós?
andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
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