Moto GP - Quartararo, primeiro e único

Um Francês nunca tinha ganho em MotoGP... nem uma corrida, nem um título. Fabio Quartararo, Campeão Mundial aos 22 anos, pôs isso tudo para trás.

andardemoto.pt @ 28-11-2021 08:03:00 - Paulo Araújo

É incrível pensar que, ao fim de 72 anos de mundial de velocidade, e sendo a França um dos grandes países de motociclismo, com tradição, numerosas marcas e numerosos pilotos, tenha sido Fábio Quartararo, não só o primeiro a conquistar o sucesso da classe rainha mas o primeiro a vencer uma corrida.

Recentemente Johann Zarco era apontado como o primeiro candidato a tal, mas nunca conseguiu concretizar o feito, apesar dos dois títulos anteriores de Moto2 e das boas exibições na Ducati da Pramac na temporada de 2021.

Neste momento, quando os salpicos de champanhe ainda estão húmidos no pódio do final da época em Valência, é interessante analisar as razões que, por um lado, levaram Quartararo ao galardão máximo da categoria rainha do motociclismo e, por outro, impediram qualquer outro seu compatriota de ter feito o mesmo anteriormente.

A primeira prende-se, claro, com a época actual. Há 40 anos havia números franceses no Mundial de Velocidade, mas as condições não eram as mesmas: a forma como qualquer piloto se iniciava nas corridas e depois entrava no mundial era completamente diferente e, para os franceses, isso era ainda mais verdade.

Normalmente, quando chegava aos escalões mais altos, um piloto já era um adulto, e entrava como privado, preparando a sua própria moto com a ajuda, talvez, de um amigo mecânico ou de um concessionário local. Ocasionalmente, como no caso de Patrick Pons, alguns eram piloto e mecânico.

Nesse aspeto, as muito mais simples e baratas classes de 250 ou 350 proporcionaram mais atrativos, fosse por custos ou simplicidade técnica.

Na classe rainha, na altura as 500GP, parecia haver sempre um inglês, australiano ou americano mais próximos das marcas, com melhores contactos com os fabricantes e, prontos a fazer sacrifícios. Ainda por cima, provinham de campeonatos mais ferozes e competitivos nos seus próprios países. Basta lembrar que nos anos de Kenny Roberts, para ostentar o Nº 1 na América, um piloto tinha de ser campeão de Velocidade, campeão de Scrambles (MX, basicamente) e Dirt Track. Roberts pai afinou as suas capacidades nesta modalidade de derrapagem em terra, na altura já apoiado pela Yamaha, que lhe fez uma moto tão feroz, baseada no explosivo motor tetracilíndrico da TZ750, que provocou uma das suas famosas frases: “Não me pagam que chegue para andar nesta coisa!”.

Por contraste, tradicionalmente, os franceses batalhavam, aí sim em grandes números, nas categorias de 250 e 350, muito mais fáceis de preparar e manter para um privado. Destacaram-se grandes pilotos gauleses, como Pierre Monneret, que se estreou em Pau em 1954 ou Jacques Collot também em Pau, em 1958.

Muitos nomes passaram por essas classes intermédias, destacando-se pilotos como Guy Bertin, Jean Pierre Tournadre, Patrick Pons, Jean François Baldé, os irmãos Jacques e Pierre Bolle ou Christian Bourgeois, que viria mais tarde a ser manager da Kawasaki France no Mundial de Resistência com os irmãos Sarron. Isto sem falar de outros menos sonantes como o saudoso Bruno Bonhuil, os irmão Garcia, Jean Pierre Jeandat ou, mais recentemente, Erwan Nigon.


Igualmente brilhou por uns tempos o piloto francês Raymond Roche, mais conhecido por ter sido o primeiro Campeão Mundial da Ducati em SBK, mas que pilotou para a Honda no início dos anos 80, contra a feroz oposição dos transatlânticos da época, Roberts, Spencer, Mamola, Lawson e companhia.

Já na geração moderna, Christian Sarron, Olivier Jacque, Randy DePuniet ou o contemporâneo Johann Zarco batalharam na classe rainha sem grandes resultados. No caso de Sarron, porque falhou em adaptar-se à nova maneira de conduzir das 500 com derrapagem da roda traseira, em que Roberts e Spencer brilhavam, e no casos dos outros, porque simplesmente, a sua combinação de talento e resultados nunca lhes garantiu motos competitivas em equipas de ponta.

Sarron foi outro piloto que foi conhecido pela sua presença nas primeiras filas das grelhas de partida, mas sem nunca ter ganho uma corrida na sua Yamaha azul com as cores da Gauloises, que contrastava com as mais vulgares, pintadas no vermelho e branco da Marlboro.


Olivier Jacque conseguiu um segundo lugar na China, em 2005, mas nunca venceu nenhuma corrida. E finalmente Randy DePuniet, que apesar de ter conseguido subir 2 ou 3 vezes ao pódio, foi um sério candidato ao recorde de quedas.

Assim está, pelo menos em parte, explicado porque é que nunca nenhum francês tinha vencido na categoria rainha do motociclismo de velocidade. Falta agora explicar porque é que Quartararo o fez.

Já vimos como a época, teve uma influência determinante: Se os anteriores pilotos chegavam ao Mundial já como adultos, Quartararo, natural de Nice, não muito longe de Barcelona, praticamente cresceu em Espanha, e era apenas um miúdo de 14 anos quando começou a competir e vencer nos campeonatos locais, nomeadamente o FIM CEV Repsol Moto3 em 2013 e 2014, chamando a atenção ainda antes de se estrear no mundial de Moto3.

Já em 2015 a imprensa espanhola se interrogava se estaria ali o próximo Márquez, e quando, em 2019, Quartararo aterrou na classe rainha, apoiado por uma equipa também ela estreante, a recém-criada mas bem financiada Yamaha Petronas bateu mais recordes de juventude, ao tornar-se o mais jovem e único rookie a fazer duas poles consecutivas na classe rainha.



Nesse ano, embora sem nunca vencer, fez seis poles e sete pódios, e comandou numerosas corridas, mostrando que, mesmo com as claras dificuldades da Yamaha na altura, haveria que contar com ele.

Se no tempo de Roche e Sarron estes nunca triunfaram porque havia sempre um americano ou um australiano mais veloz, para Quartararo o adversário imbatível era sempre o mesmo, Marc Márquez e a Honda Repsol.

Aqui é que o talento extraordinário de Quartararo brilhou: tal como agora Bagnaia tem dominado na Ducati, por ter ultrapassado a dificuldade da moto italiana em conseguir velocidade em curva, assim anteriormente Quartararo tinha ultrapassado em parte o calcanhar de Aquiles da Yamaha de colocar a potência no asfalto.

Sublime no que diz respeito à entrada em curva e em velocidade em inclinação, a dificuldade na mota de Ywata, que tanto mistificou Valentino Rossi nas últimas épocas, criando dificuldades a todos os que passaram por ela, de Lorenzo a Morbidelli, a dificuldade consistia em colocar a potência no asfalto na fase de aceleração, sem sub-viragem massiva, coisa que a Honda e Ducati conseguiam fazer muito melhor.

Isto fez com que Quartararo fosse imbatível quando arrancava na frente e fugia, mas que tivesse que lutar por resultados táticos, salvando pontos, quando se encontrava embrulhado no meio do pelotão.


A diferença foi que, no seu segundo ano na categoria, com apenas 20 anos, Quartararo não tinha maturidade para ceder e acabou muitas vezes na gravilha, embora também tivesse conquistado 3 vitórias, apesar do escândalo das válvulas ilegais da Yamaha nos bastidores.

Finalmente, em 2021, percebendo a dicotomia que lhe permitia isolar-se quando arrancava no comando, mas o obrigava a contentar-se com lugares subalternos no meio do pelotão, soube adaptar-se e amealhar pontos para reforçar as suas cinco vitórias (mas também outros 5 pódios) e conquistar o título em Itália a duas corridas do final da temporada.

Também é verdade que apanhou uma Ducati rapidíssima, mas com dois pilotos novos na equipa de fábrica, e também é verdade que apanhou um Marc Márquez ainda a recuperar de lesão, longe do seu magnífico melhor que presenciámos em anos anteriores.

Mas um título mundial nunca é fruto de um só fator, e todos estes contribuíram. No entanto,  foi a extraordinária capacidade de curvar de Quartararo, ilustrada por numerosas fotos de ombro no chão, e a sua capacidade de ler uma corrida poupando os pneus e deixando os adversários cometer erros, para atacar na fase final que também vimos no ano anterior contribuir para as suas três vitórias, ao jogar com alguma incapacidade dos seus principais oponentes de montarem uma campanha consistente.

Miller venceu no princípio da época, mas depois não conseguiu ultrapassar a dificuldade de fazer a Ducati curvar. Bagnaia, pelo contrário, descobriu tarde como fazer a Desmosedici curvar em velocidade, à custa de várias quedas (embora só falhasse a pontuação duas vezes!) que o afastaram várias vezes da luta pela vitória e que, em última análise, lhe iriam custar o campeonato. 

Marc Márquez tinha a sua própria batalha pessoal e, como vimos, apesar da sua superioridade, nunca esteve em posição de lutar pelo campeonato.

Quartararo soube aproveitar-se dos falhanços dos rivais para vencer numa moto que estava longe de ser a mais rápida ou mais potente, como tantas vezes aconteceu na história vencedora da Yamaha, mas foi sobretudo a sua maior maturidade que o levou no bom caminho para conquistar a coroa de MotoGP, que terá sido, sem dúvida, apenas a sua primeira de muitas, e a histórica primeira de sempre de um piloto francês!

andardemoto.pt @ 28-11-2021 08:03:00 - Paulo Araújo


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