Entrevista Dario Marchetti - diretor da escola de pilotagem da Ducati

Uma carreira de 44 anos

Piloto vencedor, instrutor, ensaiador e relações públicas, a carreira de Dario Marchetti conta com mais de 40 anos em pista e foi um prazer reencontrá-lo num recente Track Day no Estoril e ouvir algumas das suas memórias.

andardemoto.pt @ 21-1-2024 15:03:00 - Paulo Araújo

Facebook Twitter Pinterest LinkedIn WhatsApp

Quem segue os Grandes Prémios há alguns anos, recordará Randy Mamola passeando convidados da Marlboro numa Ducati de dois lugares. O que menos se lembrarão é que a Ducati fazia exatamente o mesmo nas Superbike, sendo neste caso o piloto/chofer um Italiano alto e calvo que conheci no Grande Prémio de Macau já lá vão mais de 30 anos.

Marchetti, que é de Castel S. Pietro Terme, perto de Bolonha, reside no Mónaco, e aos 62 anos ainda tem uma vida de globetrotter, sendo diretor da escola de pilotagem da Ducati, a DRE, e um piloto versátil e de grande sucesso, tendo corrido em 125, 250 e 500 desde 1982, e já experimentado as SBK e a Endurance. 

Nos EUA, venceu Daytona em 2001 na classe de bicilíndricas e Sound of Thunder e continua a viajar pelo mundo como uma espécie de monitor em pista de eventos Ducati.

P.A.: Resume-me um bocadinho destes anos em que não nos vimos...



“Acho que a última vez que te vi foi quando estivemos juntos em Portimão nas SBK... há uns 10 anos! Bem, desde aí continuo a fazer a mesma coisa, estou ligado à Ducati, ando por aí nos Track Days e eventos em pista, faço as apresentações onde acompanho os jornalistas em pista, mas sobretudo sou o instrutor-chefe da DRE, a Ducati Riding Experience, que é a escola de competição da Ducati.

Temos vários níveis de academia, desde os cursos básicos onde se pode ensaiar toda gama Ducati, a partir das Monster, Scrambler, Diavel, Streefighter, e fazemos exercícios para dar a conhecer as motos, a eletrónica, em suma, melhorar a experiência de condução...

Depois, acompanhamos Track Days em pista, uns que chamamos Warm Up com as V2 que não têm tanta potência, para quem tem pouca experiência... Além disso, temos um academia digamos mais elevada, onde já temos as V2 e V4 preparadas, como a minha Panigale R que tem o kit Superbike... é uma moto de homologação R para o Mundial de SBK, porque o meu contrato com a Ducati especifica que tenho de ter sempre a moto mais recente e de gama mais alta das SBK.

De origem, custa 40.000 Euros, está equipada com escape Akrapovic de titânio, que custa mais 8.000 Euros, Kit embraiagem a seco, mais 6.000 e kit poisa-pés mais 3.800, mas de resto é uma moto que qualquer motociclista pode adquirir.



Portanto, continuo com esta atividade, de vez em quando, quando se proporciona, ainda faço alguma corridita. Há dois anos fiz a última corrida de SBK e mantenho-me muito ocupado pois acompanho muitos eventos em pistas do Campeonato de MotoGP... no ano passado, por exemplo, estive em Silverstone, Paul Ricard, Nurburgring, Hockenheim, Buriram, Sepang, Shanghai, Misano, Mugello, Vallelunga, as pistas Italianas, depois França, Valência... estamos bastante empenhados com estas actividades da Ducati, que anda cada vez mais forte!

Claro que também estamos em eventos comerciais, muitos deles com clientes VIP que querem testar as motos em pista... de resto, a Ducati é a única que proporciona esta experiência incrível, porque lhes fornecemos tudo, moto, fatos, equipamento, mecânico, pneus, engenheiros para lhes explicar a telemetria a um nível semelhante ao de competição, e instrutores que os acompanham.

Já tive muitos instrutores de luxo, como o Chaz Davies, Troy Bayliss, Michelle Pirro, Franco Batainni, Lorenzo Zanetti, aquele Italiano que correu nas SBK, Matteo Ferrari, o das MotoE, e tantos pilotos fortes, quer dizer, quase todos os instrutores Ducati foram grandes campeões e mantêm-se muito envolvidos com a competição.

Depois, além disso, quando posso, comento duas ou três corridas de SBK, 4 no máximo, para o Eurosport França, portanto digamos que somos colegas... se juntarmos a isso eventos Pirelli, patrocinadora do Mundial de SBK, mantenho-me bastante ocupado, porque normalmente, após cada prova de SBK, no dia seguinte, há um Track Day Pirelli na pista e, pelo menos nas realizadas em Itália, estou presente!”



à conversa com Bradley Smith

à conversa com Bradley Smith

P.A.: Além disso, sei que a Ducati manda-te regularmente aos EUA, dar uma mãozinha a equipas de concessionários...

“Sim, sim, já fiz a Battle of the Twins, ganhei em Daytona, a Sound of Thunder, Race of Champions, ganhei na Florida... gosto muito de ir correr à América, tratam-me muito bem!
Sabes, eu tenho 62 anos, mas as motos são as de agora, e a andar nelas, mantenho-me jovem!Continuo a sentir-me bem na moto, não tenho intenções de parar, até porque a nível físico, estou muito bem preparado e graças a deus a saúde tem-me ajudado.

Tive uma acidente gravíssimo em Rijeka há uns tempos, mas regressei à forma, recuperei bastante bem!

Talvez já não conseguisse fazer uma corrida de MotoGP ou Mundial de SBK, onde o nível é muito competitivo, mas por outro lado, tenho tanta experiência... para se continuar rápido, temos de estar motivados e escolheres uma prova adequada ao teu nível...




Eu sou um sortudo, porque me pagam para fazer aquilo que faço... repara que há aqui amadores com motos de 100.000 Euros e ainda a pagar para andar e eu, pelo contrário, dão-me tudo e ainda me pagam, portanto sou um privilegiado!

Este é um evento organizado pela Promoracing, que são italianos, a semana passada estiveram em Portimão onde eu não estive, mas esteve o Michelle Pirro, o Andrea Iannone, o Matteo Ferrari e o Yari Montella, imensos pilotos italianos que aproveitaram para treinar.

Aqui no Estoril, até está uma revista Italiana, que está a aproveitar para ensaiar a Streetfighter. É um belo evento...eu gosto imenso de Portugal e adoro o Estoril, é uma pista técnica à velha maneira, por isso estou muito contente por estar aqui! E depois, ver o meu grande amigo Paulo, que se calhar não via há mais de 10 anos...


“Quando testei as primeiras motos de GP da Ducati, tinham muita potencia mas eram assustadoras, quase inguiáveis...”

Quanto às corridas, o mundo mudou muito rapidamente e as motos de Grande Prémio mudaram com ele... em relação aos nossos anos, nessa época, os privados corriam entre si, porque havia uma diferença enorme, os oficiais chegavam já com tudo organizado e os privados traziam a moto, um carrinho de pneus, um mecânico... 

Agora, vemos as equipas independentes na MotoGP a darem luta às oficiais, há 2 anos vimos o Bastianini a lutar pelo Mundial, e este ano, o Bezzecchi, portanto até com uma moto privada, podes lutar pelo Mundial...

Nas SBK, na minha opinião, e gosto imenso das corridas, recuava um pouco... As SBK deviam ser mais como uma moto de origem, nem sequer como esta minha Panigale, que já tem um kit de competição, mas mais como uma Superstock, com um escape e suspensão melhorados, e bastava! Porque daqui a pouco, com a evolução da técnica, as MotoGP vão estar, já estão perto, dos 400 Km/h e com as velocidades que atingem em curva, vai tornar-se perigoso!

É inevitável, o mundo avança e nós também precisamos de evoluir... quando começas a chorar pelos tempos passados, quer dizer que envelheceste! Eu pelo contrário, tenho imenso gosto em acompanhar os tempos modernos, claro que também cometemos erros, mas avançamos muito...

Quando testei as primeiras motos de GP da Ducati, tinham muita potência mas eram assustadoras, quase inguiáveis... agora, estamos falar de motos de estrada com a mesma potência, o quê, 240, 250 cavalos, mas com as ajudas eletrónicas, podes pô-las nas mão dum principiante, são fáceis de guiar! Agora, sabes que podes comprar uma moto brutal mas podes regulá-la para ser mais simpática, perdoar mais e portanto andar mais seguro!

Eu vejo os nosso pilotos Ducati, como sabes para treinar não podem usar as MotoGP, andam nas Panigale e lembro-me do Pecco, que até ao ano passado tinha o recorde da MotoGP em Misano, girar com uma 1100 a 4 segundos do recorde da pista! Numa moto de estrada apenas com escape, centralina e afinações, isso é incrível!

O futuro é belo!”

Pode acompanhar o Dario Marchetti no Instagram em:
https://www.instagram.com/dariomarchetti5/

andardemoto.pt @ 21-1-2024 15:03:00 - Paulo Araújo


Clique aqui para ver mais sobre: Desporto


Facebook Twitter Pinterest LinkedIn WhatsApp