Teste Harley-Davidson Pan America 1250 - Surpreendente!
A nova trail de grande porte da casa de Milwaukee promete surpreender os mais céticos. A Pan America 1250 mostra que a Harley-Davidson acertou em cheio e posiciona-se como uma das propostas mais surpreendentes do segmento.
andardemoto.pt @ 7-6-2021 21:29:36 - Texto: Bruno Gomes
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Harley Davidson Pan America 1250 | Moto | Adventure TouringHarley Davidson Pan America 1250 Special | Moto | Adventure Touring
Se me
dissessem em 2008, quando comecei a trabalhar como jornalista especializado em
motociclismo, que em 2021 estaria a testar uma Harley-Davidson fora de estrada,
e que, ainda por cima, ia gostar dela, nessa altura diria que estavam a gozar
comigo e de certeza estaria a dar uma valente gargalhada. Pois bem, esse
cenário tornou-se realidade.
A HarleyDavidson, agora sob o domínio de Jochen Zeitz, decidiu que estava na
hora de agitar o segmento trail de grande cilindrada. Mas a verdade é que
sempre que falamos em motos da Harley-Davidson associamos a marca de forma
instantânea a modelos custom de maiores dimensões, com os grandes V-twin. É a
este cenário que chega agora a nova Pan America 1250.
Esta é a primeira trail de grande porte da marca ameciana, que ostenta,
orgulhosamente, os logótipos H-D nas laterais do seu longo depósito de
combustível. Admito que o design do proeminente frontal não é fácil de aceitar.
Mas num segmento onde existem modelos que há tantos anos disputam entre si as
preferências dos motociclistas ávidos de aventuras em duas rodas, a Pan America
1250 teria de ser um modelo disruptor. Algo totalmente diferente.
E de facto é mesmo diferente! É uma moto visualmente impactante. Não consigo
dizer que é bonita, nem que é feia. É diferente. E se a intenção da H-D era de
criar um grande impacto visual, então parabéns, pois o objetivo foi plenamente
conseguido.
Continuando na dianteira que adota uma forma derivada dos frontais “shark nose”
dos modelos custom, é aí que encontramos um conjunto de óticas LED Daymaker,
com luzes diurnas, e no caso da variante Special na parte superior da carenagem
um conjunto suplementar de LED’s adiciona iluminação em curva.
Seguindo a linha superior da moto, deslizamos o nosso olhar pelo longo depósito
de combustível com capacidade para guardar mais de 21 litros de gasolina!
Acabamos por ser atraídos pelo assento de dois níveis, com muita esponja, e
pela traseira que ao melhor estilo trail deixa o subquadro tubular à vista. A
sensação imediata é que a Pan America 1250 é uma moto confortável, e de facto é
isso que sentimos assim que passamos a perna por cima do assento que é
ajustável.
Para movimentar os 242 kg da Pan America 1250, ou no caso da Special 254 kg, a
Harley- Davidson criou a partir de uma folha em branco um novo motor. O novo
V-twin foi batizado de Revolution Max. Para minimizar o peso total da moto, o
motor V-twin de refrigeração por líquido é agora parte integrante da estrutura
do chassis dividido em três partes.
O Revolution Max tem 1252 cc cortesia de pistões de 105 mm de diâmetro e que
percorrem um curso de 72 mm. Desta cilindrada a Harley-Davidson afirma extrair
150 cv e 125 Nm de binário máximo. Os cilindros são feitos de uma peça única
com um tratamento superficial galvanizado com silicone de níquel.
Este motor conta ainda com elementos em magnésio como são os casos das tampas
do primário ou das árvores de cames. Já os pistões são fabricados em alumínio
forjado para maior resistência, mas também leveza. A verdade é que este novo
motor Harley destacase pela utilização de um sistema de abertura variável das
válvulas (VVT).
O sistema VVT está presente tanto na admissão como no escape. Controlado por
computador, o VVT avança ou retarda o tempo de abertura das válvulas. O ajuste
é feito através de um solenóide hidráulico que atua sobre as cames.
Quando o motor está desligado, o VVT atrasa a abertura das válvulas de admissão
ao máximo, enquanto avança as de escape. Desta forma reduz a compressão
interna, e torna mais fácil colocar o motor bicilíndrico em funcionamento.
A pensar numa utilização de aventura à volta do mundo, a Harley-Davidson
anuncia que o ajuste das válvulas é feito de forma hidráulica, ou seja, não é
necessário deslocar-se a um concessionário para este tipo de manutenção, pois
ela não existe.
A corrente de transmissão final pode ser removida facilmente pela lateral
(basta remover o poisa-pés) sem ter de retirar roda ou cortar a corrente.
Sensores de detonação ajustam a ignição de acordo com a qualidade do
combustível, o que é perfeito naquelas viagens por países onde a gasolina tem
menos octanas.
Nos primeiros momentos aos comandos da trail americana ficamos assoberbados com
tanta coisa que está a acontecer. As dezenas de botões nos punhos, o trabalhar
do V-twin que transmite a quantidade ideal de vibrações para lhe dar caráter, o
assento muito confortável e a posição de condução bem conseguida.
Depois temos o grande ecrã TFT a cores, que para além de ser controlado pelos
comandos no punho, também pode ser usado como um tablet pois é sensível ao
toque! Neste painel de instrumentos tão completo o problema são os números e
letras pequenos para uma visualização imediata das informações.
Com o modo de condução Rain (estava a chover copiosamente!) selecionado,
comecei o dia aos comandos da versão base da Pan America 1250. O motor
bicilíndrico demonstra uma entrega de potência muito linear, sendo que dos 150
cv anunciados, em Rain apenas temos acesso a parte deles para uma condução mais
segura.
Com as suspensões mecânicas Showa a revelarem um comportamento muito agradável
na absorção dos impactos, assim que chegámos à autoestrada que nos levaria rumo
a zonas mais montanhosas troquei para modo Road.
Os 150 cv fizeram-se notar de forma mais imediata. A subida de rotações
revelou-se então mais fácil com cada rodar de punho direito, enquanto a
proteção aerodinâmica a velocidades superiores a 140 km/h é muito boa.
Particularmente com o pára-brisas dianteiro na sua posição mais elevada.
Por sorte, conforme abandonámos a monotonia da autoestrada e chegámos às
primeiras curvas a sério, a chuva deu tréguas. Com mais aderência à disposição,
selecionei Sport. Este é o modo de condução mais agressivo, e isso nota-se na
forma como o Revolution Max responde aos impulsos no acelerador. Desde as 1800
rpm sentimos o motor a empurrar o conjunto com bastante força, sem ser agressivo,
mas de forma contundente.
Depois, por volta das 4500 rpm, parece que temos acesso a um “boost” de
energia, sendo que perto das 8000 rpm o Revolution Max já não tem muito para
dar e o corte aparece às 9.500 rpm de forma suave.
Gostei da forma como este motor se revela fácil de explorar, divertido, e ao
mesmo tempo impressionante pela forma generosa como disponibiliza os 125 Nm e
nos deixa fluir de curva em curva apenas a acariciar o acelerador, aproveitando
as massivas doses de binário à disposição.
A única queixa que se pode ter e que reduz um pouco o prazer de condução é ao
nível da assistência às passagens de caixa. A Harley-Davidson não inclui
“quickshift” na lista de equipamento, nem como opcional. Disseram-me que no futuro
poderá existir este opcional. Porém é algo que não está planeado pois, ainda de
acordo com os responsáveis técnicos da marca, o condutor da Pan America não
procura trocas de caixa rápidas como numa desportiva.
Uma opção algo controversa no sentido que as suas rivais no segmento têm este tipo
de equipamento, seja de fábrica, seja como opcional.
Passando para a Pan America 1250 Special, a primeira coisa que senti, para além
do muito calor que o grande motor V-twin emana do lado direito e que causa
bastante desconforto, foi a traseira a baixar cada vez que abrandava ou parava
a moto num cruzamento ou num local de fotos.
Isto acontece porque a HarleyDavidson, a pensar nos condutores de menor
estatura, criou o Adaptive Ride Height (ARH). Através do controlo eletrónico
das suspensões Showa, a Pan America 1250 Special baixa a altura da traseira de
forma automática para facilitar chegar com os pés ao solo. Uma solução simples
mas ao mesmo tempo fantástica, e que para motos desta dimensão será uma grande
ajuda nas manobras fora de estrada.
O sistema pode ser usado em modo auto, pode ser bloqueado, ou então
selecionamos um atraso curto ou longo na redução da altura.
E por falar nas suspensões eletrónicas Showa, a Pan America 1250 Special dá uso
ao mais avançado sistema que o fabricante de suspensões disponibiliza
atualmente. Têm diversos modos de funcionamento semiativos. O seu funcionamento
é impecável e perfeitamente adaptado a uma trail de grande porte.
Principalmente quando selecionamos os modos Off-Road (Soft ou Firm) para
aqueles percursos fora de estrada e onde as suspensões eletrónicas fazem verdadeiros
milagres.
Ainda assim, o centro de gravidade da Pan America é elevado, e isso nota-se nas
curvas mais lentas ou nas manobras. É necessário algum tempo de habituação para
perceber como é que os mais de 250 kg se deixam “cair” para a curva, mas assim
que passamos essa desconfiança inicial, tudo passa a acontecer de forma
natural.
É fora de estrada que melhor descobrimos a precisão das ajudas à condução.
O controlo de tração, o efeito travão motor, o ABS sensível à inclinação, a
resposta do motor ao acelerador. Enfim, o condutor da Pan America 1250 Special
ficará horas a ajustar tudo antes de a conduzir.
Para além dos modos Rain, Road, Sport, Off-Road e Off-Road Plus, este último
apenas na Special, temos ainda modos customizáveis em que podemos misturar a
intervenção dos diferentes parâmetros controlados por uma unidade de medição de
inércia de seis eixos.
Destas ajudas à condução destaco o controlo de tração. No percurso lamacento e
arenoso do Enduro Park Spain, o sistema em modo Off-Road consegue ajudar os
pneus Michelin Scorcher Adventure, pensados para o asfalto, a encontrar a tração
mesmo onde parece impossível.
Opcionalmente a Harley permite a utilização de jantes de raios equipadas com
pneus Michelin Anakee Wild, cardados, que infelizmente não estavam disponíveis
no momento desta apresentação. São garantia de uma tração superior fora de
estrada.
Os travões Brembo também ganham uma importância maior quando consideramos as
boas capacidades dinâmicas destas Harley-Davidson Pan America. As pinças
monobloco e a bomba radial garantem uma mordida inicial muito forte, mas ao
mesmo tempo uma boa progressividade.
O sistema combina a força de travagem dianteira com a traseira, e mesmo nos
modos Off- Road o ABS nunca desliga por completo na roda traseira. O que não
sendo impeditivo de uma condução agressiva fora de estrada, é algo que alguns motociclistas
podem não gostar.
VEREDICTO
A Pan America 1250 é uma trail. E digo isto sem qualquer receio! Os puristas da
marca poderão não gostar deste caminho que Jochen Zeitz está a perseguir para a
H-D, mas é um facto que a Pan America irá atrair novos clientes.
Como moto, e mais do que o símbolo da reinvenção da marca, a Pan America não
fica em nada atrás das “big trail” com mais anos de mercado. É uma séria
concorrente num segmento renhido e popular.
Está bem conseguida em termos mecânicos, a eletrónica funciona bem e tem um
nível de equipamento muito elevado. Há certas coisas que podem (e devem!) ser alteradas
numa próxima geração.
O calor do motor do lado direito, o mecanismo de ajuste do pára-brisas não é
fácil de usar, e a ausência de “quickshift” é algo de certa forma
incompreensível.
A nova Harley-Davidson Pan America 1250 é uma moto que rompe com ideias
pré-concebidas. Termino com esta frase: sim, a Harley- Davidson conseguiu criar
uma trail eficaz. Sim, a nova Pan America 1250 é uma excelente moto. Diria que
é a melhor Harley de sempre!
Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de segurança
Capacete Nolan
N70-X
Blusão REV’IT! Horizon 2
Calças REV’IT! Horizon 2
Luvas Macna Attila RTX
Botas TCX Infinity Evo Gore-tex
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