MV Agusta Stradale 800 - Desempenho bipolar
Há motos que logo à primeira vista nos conquistam. É aquela velha questão da irracionalidade desculpada pelos caprichos do coração. Esta MV Agusta começa por ser apenas isso. Mas depois a coisa complica-se. Saiba porquê!
andardemoto.pt @ 30-4-2015 18:32:14
Texto: Rogério Carmo Fotos: ToZé Canaveira
Mal dei arranque ao “tre pistoni” desta Stradale comecei a sentir o sorriso a rasgar-me o rosto. Montei-me e engrenei a primeira relação de caixa. Arrancámos. Pessoalmente senti falta da frente, habituado que estou a conduzir motos de dimensões quase transatlânticas, comparadas com as diminutas proporções desta esguia italiana onde nos sentamos de forma dominadora, muito em cima do depósito de combustível e muito perto do guiador e do painel e ecrã minimalistas.
Mas isso não me intimidou, e rodei o punho pronto para desfrutar do “quickshift”. Com ele, as mudanças de caixa, quando o motor grita para lá das 10.000 rotações, assemelham-se a pequenos "shots" de adrenalina que temperam a excitação causada pelo gritar do tricilíndrico que nunca desiste de fazer levantar a roda dianteira do chão. O sorriso quase idiota dilatou-se até às orelhas. Seja a puxar para cima ou a pisar o pedal das mudanças, o comportamento deste pequeno gadget eletrónico é irrepreensível estando ao nível dos melhores que já tinha tido oportunidade de usar. Torna-se de tal forma viciante que quase me sentia obrigado a fazer passagens de caixa, mesmo que desnecessárias.
Alucinando entre o trânsito, ou numa boa sequência de curvas, o motor que apenas pesa 52Kg e já incorpora as bombas de óleo e de refrigerante, tem sempre resposta pronta desde que o regime de rotação não baixe das 3.000 rpm. Caso isso aconteça, o seu funcionamento perde um pouco o brilho, acusando o esforço com algumas sacudidelas, mas basta um pequeno toque na levíssima manete da embraiagem para o acalmar e o voltar a fazer cantar tão afinado como um cantor lírico.
Em qualquer dos quatro modos disponíveis (sendo que um deles é personalizável), a resposta do motor integralmente desenvolvido e construído pela marca de Varese, e especificamente adaptado às características da Stradale, é sempre pronta e contundente sobretudo a partir dos médios regimes e até lá acima, às 11.000 rpm’s.
A ciclística é irrepreensível. O quadro em treliça de tubos de aço é rígido e inabalável, e proporciona uma rápida mudança de direcção e uma entrada em curva muito intuitiva. Os travões são potentes e muito doseáveis, equipados com material de fricção da Brembo e servidos por um ABS Bosch 9 Plus de última geração que inclui controlo de descolagem da roda traseira.
A suspensão, além de oferecer um curso de 150mm é firme e completamente ajustável em ambos os eixos. Na frente, uma forquilha Marzocchi garante um comportamento desportivo mas relativamente confortável, enquanto que na roda traseira, um monobraço que é uma bonita peça de design, é suportado por um monoamortecedor Sachs que absorve bem as irregularidades do piso e as exigências do binário.
Com tantas assinaturas a valorizar a ficha técnica, não preciso de muito mais para poder dizer que a Stradale é efectivamente bastante segura. No entanto não posso negar que a posição de condução agressiva, o motor que incita a desrespeitar em absoluto o código da estrada, e a ciclística que garante que somos capazes de escapar incólumes a qualquer perseguição policial por muito mau que seja o caminho, juntamente com as ajudas electrónicas que proporcionam aquela confiança extra, sobretudo em mau piso, podem ser factores que nos põem em sério risco de perder a nossa tão querida carta de condução. Mas sempre com uma enorme confiança e muito, muito prazer de condução.
Em termos de ergonomia a Stradale é um caso aparte. A posição de
condução, inspirada nas mais radicais Supermotards, apesar de não ser
tão fundamentalista como a da sua “irmã” Brutale é, ainda assim, pouco
convencional e dificilmente se pode classificar de relaxada, mas os
comandos estão todos muito acessíveis.
As pernas pouco dobradas, o
tronco elevado, os braços abertos, boa visibilidade para todos os lados
são factores que se traduzem num reduzido consumo de energia que
compensa o esforço extra dispendido tanto no combate à pressão
aerodinâmica proporcionado pela escassa protecção, como ao reprimir os
nossos impulsos "hooliganescos".
O assento do condutor é um pouco rijo, mas o facto de ser demasiado estreito é uma bênção para os mais baixos. No entanto também reduz o apoio ao fundo das costas que, ao fim de algum tempo de condução, começa a reclamar. Mas isto só se nota se conduzirmos a Stradale como se de uma moto normal se tratasse. A vantagem da adrenalina é que anestesia qualquer dor.
Curiosamente, e para grande surpresa minha - que à partida juraria o contrário - o passageiro usufrui de um elevado conforto já que o assento é bem almofadado, os poisa-pés estão bem colocados e o espaço disponível é muito maior do que à partida pode parecer. Além do mais, ainda usufrui de uma boa protecção aerodinâmica já que o condutor serve de deflector.
No quotidiano a Stradale revela-se muito polivalente. Leve e manobrável, apenas peca por uma brecagem demasiado escassa. Os seus consumos, a passar ligeiramente os 6,5 litros/100km em percurso misto e a tentar cumprir todas as regras de trânsito, são uma boa surpresa e as estilosas malas laterais pouco estorvam no meio dos engarrafamentos e são uma boa ajuda para o dia-a-dia urbano, ou para uma pequena escapadela de fim de semana. Neste capítulo há que lamentar a pouca altura disponível ao solo, que limita as manobras de emergência como subir ou descer passeios mais elevados.
Em viagem a maior desvantagem pode ser a autonomia, já que o depósito de 16 litros é um pouco escasso se pretendermos imprimir um ritmo mais rápido ao andamento. A iluminação é potente e o foco de luz é bem distribuído. O descanso lateral é bastante firme e de fácil acesso. O painel de instrumentos também é bastante completo e de fácil leitura, e o acesso aos menus de configuração é simples e feito apenas com o polegar esquerdo.
A Stradale ainda oferece enormes massagens ao ego, pois sempre que paramos apercebêmo-nos que há gente a olhar para nós e somos frequentemente assediados por comentários e interpelados por curiosos que querem saber mais sobre aquelas linhas tão voluptuosas.
Voltando ao princípio, a Stradale é mesmo um caso de desempenho bipolar, já que que tanto permite umas relaxantes escapadelas de fim-de-semana a dois, como umas egoístas injecções de adrenalina a subir e descer qualquer montanha. Seja de que forma for, temos que deixar algum tempo livre para a podermos contemplar de longe.
Se ficou curioso, dirija-se a um concessionário oficial da marca e peça para a experimentar. Está disponível em três esquemas cromáticos e pode ficar a saber o preço e todos os pormenores técnicos aqui, no nosso catálogo.
andardemoto.pt @ 30-4-2015 18:32:14
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