Teste Yamaha Tracer 9 e Tracer 9 GT - Mais do que um makeover
A popular gama Tracer tem na variante “novecentos” a sua versão mais excitante. Dividida entre Tracer 9 e Tracer 9 GT, esta gama da Yamaha é o que podemos chamar de verdadeira SUV das duas rodas. E para 2021 está bastante atualizada, bem mais do que apenas um makeover.
andardemoto.pt @ 5-4-2021 23:38:34 - Texto: Bruno Gomes
Os
motociclistas mais atentos já terão percebido que atualmente existe no setor
das duas rodas uma tendência que leva os fabricantes a criarem motos que
misturam conceitos. Longe vão os tempos em que podíamos dizer, sem medo, que
uma trail é uma trail, uma desportiva é uma desportiva, uma turística é uma
turística, etc.
Hoje em dia, até mesmo nós, jornalistas que há muitos anos trabalhamos nesta
área, encontramos dificuldades em definir certo tipo de motos.
No caso das novas Tracer 9 e Tracer 9 GT, a versão melhor equipada e desenhada
para viagens maiores, a Yamaha esbate as diferenças entre uma trail de asfalto
e uma “sport-touring”. A casa de Iwata não é a primeira a fazer isso, nem será
a última, mas com a nova geração desta gama que chegou aos concessionários em
2015, a Yamaha apresenta-se como forte candidata a dominar o segmento.
Estas motos são verdadeiras SUV das duas rodas! São de tal forma polivalentes
que os motociclistas de todo o mundo as receberam de braços abertos. De facto,
desde a sua chegada ao mercado há seis anos, já foram vendidas mais de 63.000
unidades de Tracer 9 e Tracer 9 GT, com predominância para a versão GT, que seduz
três em cada quatro clientes Yamaha.
Esteticamente as Tracer 9 e Tracer 9 GT seguem a mesma abordagem de design que
a Yamaha apresentou noutros modelos, como a MT-09, moto que serve de base às
Tracer 9, mas com a Yamaha agora a ter mais em conta as necessidades de uma “sport-touring”
em vez de apenas adaptar os componentes e ciclística da hypernaked de Iwata.
De uma forma geral, a aparência das Tracer 9 e Tracer 9 GT é bastante
interessante. Um olhar rápido e descobrimos diversos detalhes, como as luzes
LED escondidas no frontal, e que no caso da GT incluem função de iluminação em
curva, ou ainda o painel de instrumentos divido em dois ecrãs de 3,5 polegadas
cada um, que permitem um nível de personalização da informação que temos à
nossa disposição que, arrisco dizer, será dos melhores. No entanto, e apesar de
ter apreciado os ecrãs, alguns números e letras não são de dimensões
aceitáveis, pelo que muitas vezes senti dificuldades em visualizar, por
exemplo, qual o modo de suspensões ativo (no caso da GT), ou o modo de motor
selecionado.
Talvez esteja a precisar de visitar o oculista, mas confesso que em conversa
com outros jornalistas durante a apresentação internacional que se realizou na
região da Toscânia, Itália, houve quem também tivesse passado pelo mesmo.
O conjunto apresenta formas bastante aerodinâmicas, com carenagens sem grandes
folgas entre si, e a qualidade dos materiais usados, mesmo na versão base Tracer
9, está bastante acima da média.
O motor é basicamente a mesma unidade três cilindros que encontramos na super
divertida MT-09. Nesta passagem para homologação Euro 5 a Yamaha não quis
perder a performance, e para isso aumentou a cilindrada do motor CP3. Graças ao
aumento no curso do pistão em 3 mm, a cilindrada passa para os 899 cc, um
aumento de 42 cc em comparação com a geração precedente.
Isto significa que a potência cresce para os 119 cv às 10.000 rpm, enquanto o
binário, particularmente nos médios regimes, sobe, sendo que o pico de binário
é de 93 Nm às 7.000 rpm. Apesar desta melhoria na performance, a Yamaha
conseguiu reduzir o consumo de combustível, sendo que nesta apresentação, sem
qualquer cuidado com o dosear do acelerador eletrónico, cheguei ao fim do dia
com 5,6 litros de média. Um valor muito aceitável e até surpreendente tendo em
conta o ritmo imposto.
Evoluído para ser eficiente e mantendo o fator diversão, o motor CP3 viu
ser-lhe removido o sistema de injeção de ar, os injetores de combustível foram
reposicionados para garantir uma combustão otimizada, sendo que no interior dos
três cilindros destacam-se os pistões forjados ou a cambota com 15% de mais
inércia para garantir um melhor “feeling” e controlo da subida de rotação em
aceleração.
Os pistões ligam-se à cambota por intermédio de bielas que são fabricadas numa
única peça antes de serem “partidas” em peças individuais.
Agarrado ao motor tricilíndrico das Tracer 9 encontramos um novo sistema de
escape. Mais leve 1,4 kg, a grande particularidade desta solução adotada pela
Yamaha é o facto da ponteira de escape ficar totalmente dissimulada por baixo
do motor! Quase parece que não existe uma ponteira. Para os puristas do motor “tri”
japonês, este poderia ser um problema, pois a sonoridade do escape estaria em
causa. Mas depois de um dia inteiro aos comandos das novas Tracer 9, posso
garantir que essa sonoridade não foi afetada. Até porque agora o som
proveniente da admissão é muito mais forte.
Ainda no motor, a embraiagem foi revista para ser mais leve de usar, enquanto o
seletor de caixa, tanto na versão base como na GT, que usa um “quickshift”
bidirecional, foi redesenhado e garante agora trocas de caixa mais precisas,
mais suaves, evitando assim o tato algo metálico da geração anterior.
Por último temos de falar na transmissão. A 1ª e 2ª relação estão mais longas, o
que permite prolongar as rotações e não obriga a trocar de caixa
constantemente, principalmente nos momentos em que conduzimos em meios urbanos,
no chamado pára-arranca.
O pico de binário é às 7.000 rpm. No entanto o motor sente-se forte e pujante
logo a partir das 4.000 rpm, altura em que podemos “enrolar punho”, sentir a
excelente ligação entre o acelerador eletrónico e a resposta dos 119 cv
escondidos no motor japonês, e deixar que toda a potência se revele bem para lá
das 9.500 rpm.
O motor das Tracer 9 e Tracer 9 GT revela uma enorme flexibilidade na forma
como se deixa explorar. Sinto o motor mais doseável do que a unidade que equipa
a MT-09, mais amigável por assim dizer. Dócil quando precisamos que seja, sem
vibrações irritantes, ou absolutamente demoníaco na forma como aumenta de
rotação, em particular quando selecionamos o mapa de potência mais agressivo e
cada impulso no acelerador obtém uma resposta muito direta do motor.
Na ciclística as alterações são também profundas e bastante variadas.
Do ponto de vista mais técnico, encontramos um novo quadro em alumínio. Através
de uma inovador técnica de controlo de fluído, a fundição do quadro permite
obter uma estrutura mais leve, com uma espessura mínima da parede da tave de
apenas 1,7 mm (!), sendo que a Yamaha garante que aumentou a rigidez lateral em
50%.
Depois baixaram a posição da coluna de direção em 30 mm e rodaram o motor para
trás 5 graus, colocando-o numa posição mais vertical. O motor está agora fixo
ao quadro por apoios de borracha específicos, e com um braço oscilante que é
nada menos do que 64 mm mais longo do que o da MT-09, as Tracer 9 e Tracer 9 GT
apresentam uma distância entre eixos que atinge os 1500 mm.
O sistema de travagem Nissin permanece praticamente inalterado. Há no entanto
uma nova centralina de ABS Bosch 9.1MP, 40 gramas mais leve do que a anterior,
e que oferece um funcionamento do ABS mais natural.
As jantes são agora fabricadas através do método exclusivo da Yamaha de forja
por rotação. Com esta tecnologia as jantes das Tracer 9 e Tracer 9 GT, embora
sendo de alumínio, são bastante mais leves (cerca de 1 kg por conjunto) o que
garante benefícios na agilidade, mas também mais resistentes, embora a parede
das jantes apresente uma espessura mínima de apenas 2 mm contra os anteriores
3,5 mm.
E como é que se traduzem todas estas novidades da ciclistica na dinâmica das Tracer 9 e Tracer 9 GT?
Bom, é aqui que a situação muda. Tudo porque a Tracer 9 é uma versão que a
Yamaha define como mais “desportiva”, se assim se pode dizer, apoiada em suspensões
de funcionamento mecânico convencional, enquanto a Tracer 9 GT perfila-se como
uma opção melhor preparada para enfrentar as longas viagens e por isso conta
com suspensões Kayaba de funcionamento eletrónico.
O aumento da distância entre eixos, graças ao novo braço oscilante,
efetivamente ajuda a prevenir a tendência da roda dianteira de subir em
aceleração, algo que na MT-09 tantos motociclistas adoram pelo seu fator “hooligan”.
No caso das Tracer esse levantar da dianteira simplesmente não existe. O que
existe é uma clara melhoria na estabilidade em linha reta!
Na geração anterior era frequente alguns proprietários da Tracer 9 queixarem-se
da instabilidade a alta velocidade em linha reta. Eu próprio ouvi o meu cunhado
queixar-se disso, sendo ele proprietário de uma Tracer 9 de 2017. Pesquisei
então sobre o assunto e descobri vários comentários de proprietários nos fóruns
dedicados aos modelos Yamaha.
Pois bem, nesta nova geração Tracer 9 e Tracer 9 GT, precisamente porque o
modelo é desenvolvido tendo em conta a especificidade de uma “sport-touring”, o
conjunto mostra uma estabilidade a toda a prova, mesmo em pisos menos
agradáveis. Nem mesmo as malas de 30 litros incluídas no equipamento de série
da GT causam qualquer perturbação. Um dos pontos mais negativos na geração
anterior ficou assim resolvido!
A nível dinâmico, a Tracer 9 apresenta-se muito mais simples em termos de
componentes, mas na realidade é a moto que mais diversão oferece.
As suspensões Kayaba mecânicas contam com uma afinação de fábrica mais
desportiva, o que significa que deixam passar alguns impactos maiores, mas
mesmo tendo em conta que a forquilha não oferece afinação da compressão, a
verdade é que revelam um funcionamento equilibrado e garantem uma boa leitura
do asfalto, maximizando a confiança, embora a direção da Tracer 9 nunca se
mostre totalmente “plantada” no asfalto.
Talvez a culpa seja do pneu Bridgestone Battlax T32 GT, que por mais do que uma
vez teimou em escorregar e deixou-me sempre em “estado de alerta”. Nunca senti
a confiança para levar a moto mesmo ao limite.
Ainda assim, a agilidade do conjunto que pesa 213 kg a cheio é muito boa, com a
direção a mostrar-se reativa mas fácil de controlar, permitindo corrigir
facilmente as trajetórias. Neste aspeto a posição de condução da Tracer 9
torna-se referencial no segmento!
O assento está mais baixo e deixa-nos mais no interior da moto, o guiador largo
permite que os braços adotem uma postura ligeiramente fletida e aberta, e a
posição dos poisa-pés garante que as pernas ficam descontraídas mas ao mesmo
tempo facilmente “abraçam” as linhas esculpidas do depósito de combustível de
18,7 litros de capacidade.
O espaço no assento, muito confortável, não é muito, e por isso não é fácil
encontrar uma posição mais desportiva em curva. No entanto basta ficar sentado
e acompanhar o movimento natural da moto que tudo fica sob controlo, sem grande
esforço, pois o equilíbrio é nota dominante.
Passando para a Yamaha Tracer 9 GT, a grande novidade são as suspensões
semi-ativas de controlo eletrónico. Estas suspensões Kayaba não são as mais
evoluídas do mercado, oferecem dois modos de funcionamento, e a pré-carga é
ajustada de forma manual.
A primeira grande diferença é a forma bastante mais suave como absorvem os
impactos. De facto a GT é uma moto mais confortável, e para além do assento
específico, conta com estas suspensões eletrónicas que se ajustam de acordo com
o ritmo imposto e as condições do asfalto, graças a uma nova unidade de medição
de inércia de 6 eixos, que controla também as ajudas eletrónicas (controlo de
tração, “slide control”, “lift control” e ABS com função em curva).
Não oferecem um comportamento absolutamente irrepreensível, mas garantem maior
capacidade de resposta aos impactos. Ao longo do percurso por estradas da
Toscânia dei por mim a pensar que o ideal seria se a Yamaha tivesse criado um
terceiro modo de suspensões, que fosse um “meio caminho” entre o modo A1 mais
firme e desportivo e o modo A2 mais descontraído.
Um modo que replicasse o funcionamento das suspensões mecânicas da Tracer 9, e
assim a Tracer 9 GT ofereceria uma gama muito mais variada de opções.
Com o pacote eletrónico disponível a funcionar bem, incluíndo o ABS que digeriu
na perfeição os muitos abusos que sofreu ao longo de mais de 200 km por
estradas toscanas que aconselho qualquer motociclista a descobrir (assim que a
pandemia o permitir, claro!), as minhas últimas notas vão para os travões e
para o equipamento da Tracer 9 GT.
Em relação aos travões, e sendo iguais tanto na versão base como na mais bem
equipada GT, talvez o melhor elogio que lhes posso fazer é que ao longo das horas
que passei aos comandos destas japonesas polivalentes nem sequer pensei neles!
Uma potência sempre presente, progressiva e muito doseável. Tudo graças à nova bomba radial Nissin.
Já em relação ao equipamento da Tracer 9 GT, apenas gostaria de referir que os
punhos aquecidos que a Yamaha inclui de série nesta versão têm nada menos do
que 10 níveis de funcionamento diferentes!
Bom, no dia do teste dinâmico as temperaturas ambiente na região da Toscânia
rondavam os 8 graus Celsius, pelo que dei por bem empregue o nível mais forte
de aquecimento. Mas não eram necessários 10 níveis diferentes. Três níveis (Alto,
Médio e Baixo) seriam suficientes e mais simples de usar.
Ou será que alguém vai notar a diferença entre nível 10 e nível 9?!
Veredicto Yamaha Tracer 9 e Tracer 9 GT
Tanto a Tracer 9 como a Tracer 9 GT são motos bastante mais evoluídas e
civilizadas do que as versões que substituem. O nível e espeficiações dos
componentes são melhores, a qualidade e atenção aos detalhes de uma “sport-touring”
subiram de nível, e de uma forma geral posso dizer que estas Yamaha estão mais
maduras, mais polidas, e sempre polivalentes.
O motor tricilíndrico CP3 continua a ser a “jóia” destes modelos. Forte,
económico, flexível, é um motor que gosta de ser espicaçado e não se sente
aflito quando o condutor puxa pelas rotações. Sem vibrações de maior, é um
motor que me conquistou.
Desconfio que a versão base vai ganhar maior preponderância
em termos de vendas da gama, mas a Tracer 9 GT continuará a ser a opção
preferida também dos motociclistas portugueses. A chegada ao mercado nacional está prevista para final de abril ou início de maio, mesmo no momento certo para aproveitar o bom tempo e as boas estradas portuguesas.
Galeria de fotos Yamaha Tracer 9
Galeria de fotos Yamaha Tracer 9 GT
andardemoto.pt @ 5-4-2021 23:38:34 - Texto: Bruno Gomes
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