Aventura de beleza absoluta

Edição de 2012 considerada das mais bonitas de sempre Aventura saudada por todos, sobretudo pelos muitos estreantes e pelo enorme contingente de motociclistas espanhóis, o 14.º Portugal de Lés-a-Lés revelou apaixonante interior de um País tantas vezes votado ao esquecimento. De Tavira a Boticas, com passagem pela Covilhã, a maior maratona mototurística da Europa confirmou ser oportunidade ímpar de descoberta, revelando paisagens e monumentos, gentes e gastronomia. E de todos os participantes recebeu enormes elogios!

andardemoto.pt @ 24-9-2012 10:50:43

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Edição de 2012 considerada das mais bonitas de sempre


Aventura saudada por todos, sobretudo pelos muitos estreantes e pelo enorme contingente de motociclistas espanhóis, o 14.º Portugal de Lés-a-Lés revelou apaixonante interior de um País tantas vezes votado ao esquecimento. De Tavira a Boticas, com passagem pela Covilhã, a maior maratona mototurística da Europa confirmou ser oportunidade ímpar de descoberta, revelando paisagens e monumentos, gentes e gastronomia. E de todos os participantes recebeu enormes elogios!

Da ria Formosa a terras de Barroso com passagem pelo mais alto maciço montanhoso do continente, de Tavira a Boticas com pernoita na Covilhã, a grande aventura proposta pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal confirmou, na estrada, a promessa de uma das mais cativantes edições do Portugal de Lés-a-Lés. E, assim, justificou o merecido e unânime aplauso da longa e colorida caravana de mais de um milhar de motos que aceitou o desafio de descobrir segredos e maravilhas tantas vezes desconhecidos dos próprios portugueses.

Uma aventura com início em Tavira, com as mais eficazes, frescas e despachadas verificações técnicas, em aprazível espaço entre os paços do concelho e Rio Gilão. E onde a experiência acumulada pela equipa composta por elementos federativos e de diversos motoclubes se fez sentir, contribuindo para bem oleada máquina que limitou o tempo de espera dos participantes. Desejosos de fazer-se à estrada para cumprir o pequeno mas interessante prólogo, de 29,6 quilómetros, boa parte dos quais ao longo dos 18 km de frente de mar do concelho tavirense. Palco de eleição para alegre convívio, passeando a pé ou relaxando em amena cavaqueira numa das muitas esplanadas de Santa Luzia apodada de capital do polvo ou em Cabanas, com direito ao primeiro controlo secreto, com o alicate entregue aos elementos do MC Convívio de Olhão. Momentos de descontração que começaram com a visita ao centro histórico daquela que já foi a localidade mais importante do Algarve, com sinais de evidente riqueza histórica e patrimonial. Das muralhas do castelo à porta manuelina do Convento das Bernardas, passando pela igreja de Nossa Senhora da Conceição, pela escondida Fortaleza de São João da Barra ou pelo Convento de N.ª Sr.ª da Graça, recuperado e transformado em Pousada. Pequena passeata em jeito de aquecimento para um dia que prometia tanto de distância como de animação...

1.ª etapa – Da aventura junto ao mar aos pinhais serranos

Beneficiando de uma temperatura primaveril, longe do estio ardente que marcou os dias anteriores, a primeira etapa levou a madrugadora caravana de Tavira à Covilhã, da serra algarvia às faldas da Estrela, atravessando o incontornável Alentejo, com paragens gastronómicas em Reguengos de Monsaraz e Mação. Longa de 545,7 quilómetros, esta tirada, uma das maiores de sempre na história do Lés-a-Lés, ofereceu agradável miríade de paisagens, condizente com as entusiasmantes estradas, quase sempre em bom piso, mesmo se os primeiros quilómetros ficaram marcados por alguns pequenos e divertidos troços em bom piso de terra batida e umas quantas travessias de rios e ribeiros a vau.

Imprescindíveis para dar a conhecer algumas belezas naturais do nosso País e recordar as dificuldades das viagens de outrora, além de proporcionarem momentos únicos de emoção, com exigência de mais cuidado registo fotográfico.

Travessia que começou bem no coração de Tavira, com direito a passagem pela ponte romana sobre o rio Gilão, antes das primeiras curvas rumo a... Marrocos! Pequena aldeia encravada na serra que motivou sorrisos de muitos aventureiros, desejosos de atravessar o estreito de Gibraltar em direção ao Norte de África. E depois de França, no brigantino parque de Montesinho, e da alentejana Cuba, visitadas, respetivamente, em 2008 e 2010, nada como um nome africano para dar pitada de internacionalização à maior aventura mototurística da Europa.

Quilómetros iniciais por estevais, cumes e vales, palco privilegiado para as primeiras tropelias do dia, preparadas pelos elementos dos motoclubes, responsáveis pelos controlos secretos que vão atestando a passagem dos participantes. Do (Moto Clube do) Porto viajaram até à aldeia de Mealha os «montanheiros e agricultores» que deram nova vida às ancestrais casas que mais faziam lembrar a aldeia do Asterix. Estradas bucólicas e com bom piso alternando com caminhos de terra entrecortados por uns ribeiros iam despertando os aventureiros, preparando-os para mais animação, ora a cargo do Moto Clube de Albufeira, junto a secular moinho em S. Miguel do Pinheiro, ora entregue aos inventivos Motards do Ocidente, na Ribeira de Odearce. Pelo caminho, também os entusiastas do Grupo Motard da Vidigueira haviam dado o seu contributo, com muito útil entrada em ação na travessia da Ribeira de S. Pedro, que surpreendentemente era a que apresentava o nível de água mais elevado.

Atrativo enorme – mesmo não fazendo parte do percurso – a barragem do Alqueva chamou centenas de mototuristas que não hesitaram em fazer mais um par de quilómetros para visitar a construção que dá forma ao maior lago artificial da Europa, com 83 quilómetros de comprimento e cerca de 1100 km de margens. Forma de abrir o apetite para o almoço na belíssima cidade de Reguengos de Monsaraz, onde a boa organização do Moto Clube de Moura permitiu descobrir tempo para contar as primeiras aventuras, desfiar algumas peripécias e soltar umas boas gargalhadas. Que assim se faz o Portugal de Lés-a-Lés...

Para digerir o bacalhau desfiado com grão nada como um troço único, entre Reguengos e Caridade, rumo à serra da Ossa, com a subida entre montado natural merecedora de calma bem turística para apreciar a Aldeia da Serra ou o magnífico Convento de S. Paulo enquanto a descida, com paisagem desfeiada pelas plantações de eucaliptos, encorajou maior concentração e diversão na condução.

A delicada e bela Estremoz, dos afamados mármores às visitas da apaziguadora Rainha Santa Isabel, passando pela histórica e longínqua batalha dos Atoleiros, foi o ponto seguinte de um mapa onde a (re)descoberta de paisagens e maravilhas arquitetónicas serve, sobretudo, para criar o desejo de regressar, com mais calma, para melhor usufruir de um País de relíquias ímpares. Aviz, Gavião ou Ponte de Sor foram alguns dos locais de passagem rumo a Mação, não sem antes assinalar a estreia do Portugal de Lés-a-Lés na passagem da barragem de Belver, construída em 1952 e com a particularidade de poder apreciar as águas do Tejo através da grade que serve de piso. Em Mação, e com apoio do clube MAC TT, pausa para um lanche reforçado, com direito a prova de degustação de várias qualidades de presunto. Que o Lés-a-Lés é evento que privilegia a descoberta de Portugal no seu todo, das paisagens às gentes, dos monumentos à fauna e flora, passando, naturalmente, pela gastronomia.

Boas estradas, bordejando o rio Zêzere e em plena serra de Alvelos, fizeram as delícias dos mais de mil condutores, «obrigados» a desfrutar a imponente vista do miradouro do Cabeço do Mosqueiro, de onde é possível apreciar as serras do Açor e da Lousã, mas também a da Estrela, vista mais de perto a caminho da Covilhã. Cidade revisitada pela caravana do Lés-a-Lés, da elegante e elevada ponte pedonal, com os 220 metros de comprimento a erguerem-se a 52 metros de altura, às abandonadas fábricas de lanifícios, imagem marcante da antiga e granítica Covilhã. Cidade que recebeu os aventureiros de forma inovadora, com final verdadeiramente teatral, com direito a entrada em cena no anfiteatro do Parque da Degoldra, muito aplaudida por todos os participantes e pelos muitos habitantes que ali se deslocaram atraídos pelo colorido da gigantesca caravana.


2.ª etapa – Do xisto do centro do País ao granito das terras barrosãs

Menos concorrida, é certo, a partida para a segunda etapa contou, ainda assim, com alguns animados estudantes, sobretudo da Universidade da Beira Interior, que parecem ter resistido estoicamente a uma noitada de sexta para sábado, para saudar os madrugadores aventureiros. Que, indiferentes ao cansaço acumulado de véspera, apresentaram-se de forma pontual no largo fronteiro à Câmara Municipal da Covilhã para uma jornada que começava com frescura matinal e uma bem servida dose de curvas, em estradas de excelente pavimento rumo ao imponente vale do rio Zêzere e da não menos impressionante encosta de sarrisca, até chegar às minas da Panasqueira. Enorme e complexa rede de mais de cinco mil quilómetros de túneis de onde, há cerca de um século, se extrai volfrâmio, chegou a dar emprego a mais de 11 mil pessoas mas agora conta apenas com dois turnos de 40 mineiros, suficientes para extrair cerca de duas toneladas diárias de tungsténio. Tempo de dar uma espreitadela à entrada da mina antes de arrancar para S. Jorge da Beira, pensando no reforço do pequeno-almoço que a manhã prometia ser bem longa, até ao almoço em Sabrosa.

Longa, é certo, mas com extensão diretamente proporcional ao gozo oferecido por centenas e centenas de curvas até Alvoco da Serra, não sem antes usufruir uma das mais belas panorâmicas do Lés-a-Lés. Esta localidade ficará, aliás, bem marcada na mente dos participantes, a começar pelos bem disfarçados elementos do BMW MC Clube, que mais pareciam intrigantes pastores serranos a aguardar a comitiva para novo controlo estratégico. Depois, já no interior da vila que foi sede de concelho, antes de pertencer ao de Loriga e integrar agora do de Seia, tempo para a maior aventura do dia. Sem caminhos de terra batida ou ribeiros para atravessar, as emoções fortes foram servidas em forma de íngreme, irregular e escorregadia calçada, em Alvoco da Serra, que, com maior ou menor dificuldade, todos venceram.

Sempre com a serra de Estrela como pano de fundo, a caravana passou por Seia, antes de rumar a Fornos de Algodres e Aguiar da Beira onde os elementos do moto clube local, o MC Janados, picavam o 10.º furo na tarjeta. Região magistralmente retratada por Aquilino Ribeiro que, ao longo de toda a sua obra mas com destaque para o Terras do Demo, tão bem descreveu a dura vida de tempos idos.

Local cujo cinzento granítico ganhou tonalidade mais pesada com o cumprimento das promessas de chuva, vindas de um céu plúmbeo que acompanharia o périplo transmontano.

Nada, porém, que intimidasse os participantes ou os desviasse das muitas curvinhas que a estrada ia oferecendo, entrecortadas pela insuspeita monumentalidade descoberta em locais como Vila da Rua, onde solares e pelourinhos, distraíam das ameaçadoras nuvens que ensombravam o horizonte. Tão pouco as promessas de chuva conseguiram afastar um único mototurista do bem conservado templo beneditino de S. Pedro das Águias com curiosa entrada escondida por uma escarpa. E onde monges, padres e provocantes freiras, do convento do Moto Clube do Porto, iam marcando mais um furo na tarjeta, lá bem no fundo do escarpado vale do rio Távora.

Até Sabrosa, tempo ainda para maravilhar os sentidos com imponência de um País de paisagens únicas, com destaque para o vale do Douro e os seus irrepetíveis vinhedos em socalcos ou os barcos rabelos, ou os surpreendentes solares (em quantidade e qualidade arquitetónica...) de Provesende. Aldeia com nada menos de 11 casas brasonadas que acolheu o 12.º controlo secreto, montado pelos Motociclistas sem Fronteiras, na ajuda aos bombeiros locais que, com tamanha caravana pela frente, aproveitaram (e bem...) para solicitar o apoio económico que tanta falta faz aos Voluntários.

Região de história moldada por obstinados personagens de caráter vincado, do aventureiro Fernão de Magalhães, com passagem junto à casa onde nasceu o mentor da primeira circum-navegação da Terra, ao médico e poeta Miguel Torga. Cujos escritos foram recitados pelos participantes na visita a S. Martinho de Anta, logo a seguir à boa feijoada à transmontana servida de forma despachada em Sabrosa. Forma criativa de elogiar o escritor que várias vezes foi indicado para Nobel da Literatura e que mostrou vários talentos escondidos na sempre difícil arte de (bem) declamar.

Já na reta final mas ainda com muitas curvas para cumprir, a travessia do País à moda antiga, trocando as incaracterísticas auto-estradas, IP’s, IC’s e SCUT’s pelas mais pitorescas estradas nacionais, regionais e até uns caminhos de terra batida, tinha uma dos melhores petiscos guardados para os derradeiros quilómetros. Verdadeira cereja no topo do bolo, as aldeias barrosãs de Curros, Bela, Nogueira, Ardãos ou Sapiãos surpreenderam pela genuinidade de uma história que foi e continua a ser a nossa. Local escolhido pelos sempre presente MotoGalos de Barcelos para instalar o penúltimo controlo secreto, depois de os Vespistas do Norte terem assumido a responsabilidade de picar a tarjeta a todos os que se aventurassem na travessia da oscilante ponte de arame sobre o Tâmega.

Final em beleza com visita, entre outros pontos de histórica curiosidade, ao centro de Ardãos onde continua a funcionar o forno do povo, local que, além da função prática que o nome indica, servia como espaço social, onde os habitantes gostavam de passar o serão, em amena cavaqueira. Além da função social e altruísta, servindo de refúgio a pobres, mendigos e peregrinos, onde comiam o que solidariamente lhes era oferecido. Aos participantes, o Grupo Motard de Chaves oferecia o último furo na tarjeta...

Histórias que mais aumentaram o entusiasmo dos muitos estreantes no Portugal de Lés-a-Lé, como foi o caso de Cândido Barbosa, satisfeito por poder cumprir o desejo de regressar em duas rodas (com motor...) às estradas onde construiu bem-sucedida carreira como ciclista profissional, uma das mais recheadas em Portugal.

Estreante foi também o italiano Davide Biga que, depois de um ano a viajar em redor do Mundo, com mais de 94 mil quilómetros percorridos, não resistiu ao convite para conhecer Portugal com mais pormenor. E que, juntamente com Cândido Barbosa, teve direito a dois guias de luxo, motociclistas experientes no Lés-a-Lés oriundos do universo da política, no caso o deputado Miguel Tiago (PCP) e o ex-deputado Rodrigo Ribeiro (PSD). Que, deixando de lado as guerras partidárias, procuram, desde há quatro anos, conhecer melhor Portugal de uma forma divertida, chegando sempre a horas aos controlos como às refeições. Tal como os pilotos de todo-o-terreno Paulo Marques e Bernardo Villar ou o ator Vítor Norte, rendido aos encantos de uma aventura ímpar que descobriu no ano passado.

Aventura que, em 2013, começará no Norte de Portugal Continental e que, sem o feriado do Corpo de Deus, poderá sofrer ligeiros ajustes no figurino para ir de encontro às necessidades dos participantes, sendo no entanto realizado na mesma altura do ano.

Fonte: Portugal de Lés-a-Lés

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