Adeus Pingüinos Adeus (por Gustavo Cuervo)
Mais do que um desabafo, o conhecido jornalista e viajante resume toda a polémica em torno da Concentração Invernal Pingüinos. Com a sua autorização, aqui deixamos a tradução do texto original.
andardemoto.pt @ 17-12-2015 16:25:45
Introdução
Gustavo Cuervo, conhecido jornalista e viajante espanhol, motociclista e um fervoroso adepto da Concentração Invernal Pingüinos, expressou no seu site oficial os seus sentimentos relativamente a toda a polémica que tem envolvido a mítica concentração:
- a sua não realização em 2015, justificada por uma denúncia de um grupo de ecologistas que supostamente defende as condições naturais do local onde se tem realizado o evento,
- a megalómana festa que o alcaide de Valladolid, Oscar Puente, pretende realizar em Janeiro de 2016,
- toda a polémica em torno do Clube Turismoto, do seu presidente, Mariano Parellada e do contencioso com o seu ex-Tesoureiro, José Manuel Navas e outros cinco sócios que levaram a cabo uma batalha judicial que terminou com o afastamento de Parellada da direcção do clube,
- e o cancelamento de uma concentração alternativa que este pretendia realizar, (La leyenda continua) em Cantalejo (Segóvia) e que também já não vai acontecer.
Tradução integral do texto original
Com a suspensão por parte dos organizadores da recentemente anunciada reunião “A Lenda Continua - Eu sou Pingüino", que era suposto vir a ser realizada em Cantalejo (Segóvia), põe-se fim a uma época. Sim, ponto final a mais de três décadas de paixão pelas motos, camaradagem, amizade e solidariedade.
Quem, ou o quê, acabou com uma actividade que já não voltará a entender a moto como até agora? Pois isso está claro: foi a falta de sorte, os políticos e também as leis, porque em alguns casos, o que é legal não é necessariamente justo! Foram denúncias ecologistas as que começaram por fazer perigar esta reunião, e logo de seguida, os contornos legais em torno da divisão no seio do moto clube Turismoto.
Os tribunais deram razão a uma minoria de sócios, preterindo uma maioria de colaboradores que tinham cometido o “delito” de não assinar as actas quando se juntaram, por acreditarem mais nas pessoas do que nos papéis. Esta mesma maioria de “sócios” que, em votação democrática expulsou o tesoureiro do clube, era muito maior, e constituída pelos que sempre trabalharam altruisticamente para levar em frente os Pingüinos em Valladolid. Enquanto um acumulava normas legais, outros trabalhavam duro para que os motociclistas tivessem um fim-de-semana em grande.
Com as eleições municipais e a mudança do edil de Valladolid, tudo mudou. E por tudo, quero dizer tudo! Enquanto estava na oposição, acusava o anterior governo de não fazer bem as coisas relativamente aos Pingüinos, e que ele sim seria capaz de resolver os problemas com os ecologistas, conseguindo terreno para lhes dar uma localização fixa e conveniente. No entanto, já a ocupar a cadeira do poder, o novo edil continuou apenas a disponibilizar a mesma localização, ameaçada pelas denúncias colocadas pelos ecologistas. Depois, iniciou um ataque contra aquele que é “de facto” o presidente do clube Turismoto. Acabar com Mariano Parellada, o elo mais fraco e fácil de atacar, foi uma prioridade do actual alcaide que, com maior ou menor intensidade e/ou agrado, apoiado, voluntariamente ou não, por todos os envolvidos em assuntos económicos e de imagem da capital de Castela e Leão. Nenhum deles estava disposto a perder os benefícios económicos desta convocatória.
A edilidade de Valladolid fez tudo o que é possível para arruinar qualquer outra alternativa que não seja a festa proposta por si e pelo conjunto de mercadores que o rodeia. Questões como o Espírito Motard e anexas não lhe importam. Para eles, dá no mesmo que sejam motos ou corridas de caracóis, o que querem é ter muitos consumidores na sua cidade. O que é válido e legítimo, mas chamarem-lhe Festa da Moto é que já é outra coisa. A grande maioria dos moto clubes da região, que foram contactados no sentido de emprestarem um pouco de paixão motard a esta festa, rejeitou o convite.
E a grande maioria dos muitos e variados sectores do mundo das motos não viram com bons olhos esta proposta, tendo inclusivamente alguns expressado a sua opinião por escrito à edilidade e aos meios de comunicação.
Foram claras as pressões efectuadas em todos os âmbitos pelo executivo para prejudicar qualquer reunião alternativa que pudesse preservar o verdadeiro espirito dos Pingüinos. Tão claras que até o edil de Segóvia as terá comentado. Pelo menos os ecologistas são mais claros, e disseram que denunciariam a organização da convocatória para Cantalejo, apesar de os terrenos serem públicos e livres de qualquer classificação ou protecção ambiental, e apesar de todas as licenças terem sido emitidas. Cheira a que algo mais escondem para se meterem assim com uma reunião completamente legal e autorizada, que estava convocada para outra província.
Como entendem a Festa da Moto na edilidade de Valladolid? - Pois com 16 horas de concertos com bandas bem conhecidas, confirmadas, e que naturalmente cobram o seu “caché”. Nos Pingüinos antigamente, as bandas de média dimensão batiam-se para tocar de graça. Nos Pingüinos antigamente o mais importante era o acampamento e as suas fogueiras, em que todos partilhávamos comida trazida desde os mais remotos lugares da geografia europeia. Nesta nova tavez proibam a entrada de comida para não perderem nem um cêntimo de benefício (desculpem-me, quem sabe lhes tenha dado alguma ideia!).
Quem sabe, talvez agora, e como já aconteceu em outros desportos e ocasiões, decidam declarar nulos os troféus e galardões entregues nos últimos anos. Até poderiam tirar os Pingüinos de ouro a Marquez ou a Crivillé… e os de honra ao Hospital de paraplégicos de Toledo. Legalmente poderiam fazê-lo. O meu, se o quiserem apenas têm que mo pedir, pois como disse quando o recebi, “o importante não é ser um pingüino de honra, mas a honra de ser um pingüino”. Em algum momento iremos saber quanto custou ao Ayuntamiento de Valladolid montar este seu evento, e ainda que saibam camuflar bem os números, o que vai ser difícil de ocultar é que cada cidadão da cidade terá pago mais para esta festa do que para todas as demais edições até agora realizadas, juntas.
Talvez isto não seja mais do que uma birra de menino. Uma birra de quem foi arrebatada a inocência infantil, trocando-a pela dureza de um mundo sem outro objectivo para além do dinheiro. Adeus Reis Magos, adeus Pingüinos.
PS: Ainda assim, não conseguirão acabar com o nosso espirito, pois algo faremos para continuar a sonhar como os meninos.
Gustavo Cuervo
Pode encontrar o texto original aqui, no site oficial de Gustavo Cuervo
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