Francisco Sande e Castro - Uma viagem do tamanho do Mundo!

Aos 63 anos de idade o veterano piloto concluiu com sucesso uma viagem do tamanho do Mundo. A Volta ao Mundo em Honda Crosstourer iniciou-se em 2012, e mais de sete anos depois chegou ao fim com muitas histórias, aventuras, e principalmente uma nova visão do que é o nosso planeta e as diferentes culturas.

andardemoto.pt @ 2-6-2019 19:30:00

Esta é uma daquelas histórias que ficará na História do motociclismo português! Francisco Sande e Castro, de 63 anos de idade, decidiu que Portugal e as suas estradas eram já pequenas demais para as suas ambições enquanto aventureiro, e foi então que tomou a decisão de completar a volta ao mundo de moto.

Para tal feito, Francisco Sande e Castro encetou negociações com a Honda Portugal ainda em 2012, lançando o desafio a Carlos Cerqueira, o responsável de marketing da Honda Portugal, que não teve grandes dúvidas no momento de decidir apoiar esta “ideia maluca”, e o espírito revelado pelo Francisco durante essas conversas pré-viagem levaram a Honda Portugal a aceitar participar nesta viagem do tamanho do Mundo.

Percurso da Volta do Mundo em Crosstourer

Percurso da Volta do Mundo em Crosstourer

Foi assim que, em setembro de 2012, Francisco Sande e Castro arrancou aos comandos de uma Honda VFR1200 Crosstourer. O objetivo inicial seria completar a viagem em 2 anos e maio, talvez três. Mas, como em tantas outras situações na nossa vida, os objetivos mudam, e há necessidade de alterar os planos para alcançar objetivos ainda maiores.    

A primeira parte da viagem levou a Crosstourer a atravessar a Europa de uma ponta à outra. Talvez a parte mais fácil da aventura, e que serviu de aquecimento perfeito para o que depois se iria seguir. Francisco Sande e Castro não teve dúvidas sobre qual o trajeto que tinha de marcar, e depois de cruzar a Turquia seguiu em “linha reta” até ao Irão.

Foi aí que, nas palavras do próprio motociclista aventureiro português, passou por aquela que foi a situação mais complicada da sua viagem à volta do Mundo: decidiu parar ao pé de uma centra nuclear iraniana. Sem ninguém por perto, decidiu tirar uma fotografia à instalação iraniana.

O que se seguiu foi digno de um filme de espionagem! Francisco Sande e Castro foi imediatamente abordado pelos serviços militares do Irão, questionado sobre qual a razão para estar naquele local e o porquê de estar a tirar fotografias.

O motociclistas português, surpreendido pelo que lhe estava a acontecer, foi-se defendendo das acusações de espionagem como conseguiu, e quando o destino já parecia traçado, e incluia uma prisão iraniana, um derradeiro esforço diplomático por parte das entidades portuguesas permitiu a Francisco Sande e Castro prosseguir a sua viagem de Crosstourer.


Seguiu depois para o sudeste asiático onde passou bastante tempo. Na Tailândia recebeu o reforço anímico da presença da sua filha. A dupla optou então por dar a volta à Tailândia antes da filha de Fransciso Sande e Castro regressar a Portugal. A viagem teria de continuar, mas já a solo, como tinha acontecido até então.

De barco viajou até à Indonésia, depois Timor. Esteve em Dili, antes de ser obrigado a regressar a Portugal por compromissos profissionais e pessoais. Esses regressos, que aconteceram várias vezes ao longo dos anos, foram uma das principais razões para o extender da viagem para lá do prazo inicialmente previsto de três anos.

A Honda Crosstourer permaneceu em Dili, parada no estacionamento de um hotel, durante cerca de seis meses, à espera do regresso do seu condutor. Livre dos compromissos que o prendiam a Portugal, Francisco Sande e Castro lá reencontrou a sua moto e reiniciou a viagem à volta do Mundo.

De Timor Leste marcou como objetivo a Austrália. Enquanto a moto demorava a chegar ao continente australiano, através de barco, Francisco Sande e Castro já se encontrava na terra dos aborígenes e kangurus pois tinha viajado de avião. Com a moto atrasada, teve tempo de visitar as ilhas Fiji, embora sem a companhia da sua fiel companheira de duas rodas. Foi uma experiência enriquecedora diz Francisco, e que ao mesmo tempo lhe permitiu descansar um pouco.

Depois de se reunir com a sua Honda, o destino seguinte era o Japão. Aí, foi “obrigado” a visitar o quartel general da Honda, a pedido expresso do engenheiro chefe responsável pela criação e desenvolvimento da Crosstourer, que soube desta aventura e não quis deixar de conhecer o motorciclista português que se tinha proposto a dar a volta ao mundo.

Durante a visita à Honda, a Crosstourer sofreu uma revisão mais profunda: recebeu pneus novos, foi feita a troca de óleo e filtros, para além de ter sido lavada em condições para enfrentar aquela que seria, supostamente, a última parte da viagem: atravessar os Estados Unidos da América.

Do Japão a moto viajou então para a costa oeste da América do Norte. De Los Angeles, na Califórnia, Francisco Sande e Castro tomou rumo em direção a norte, viajou ao longo da costa americana até chegar a Seattle, tendo então atravessado os EUA em direção à costa atlântica com destino final em Washington DC. A previsão inicial apontava para que esse fosse o fim da aventura, mas a Crosstourer ainda tinha muito para dar, pelo que o Francisco Sande e Castro tomou a decisão de prolongar a viagem rumo à América do Sul e depois a África.

Desceu pelo México, e atravessou a América Central sem problemas de maior, mesmo tendo sido avisado dos perigos que o esperavam em países como Guatemala ou Nicarágua. Mas o maior problema que enfrentou neste percurso rumo ao sul foi mesmo conseguir atravessar para a Colômbia, pois a floresta é intransponível por via terrestre.

Teve de apanhar um barco, lá conseguiu entrar na Colômbia, e prosseguiu viagem até à Argentina, passando por Perú e Chile. Depois de muitos quilómetros acompanhado pelo Oceano Pacífico, a viragem para a Argentina trouxe Francisco Sande e Castro de regresso ao Atlântico. Foi então que subiu para o Brasil.

Foi já em terras de Vera Cruz que sentiu o perigo mais de perto. Enquanto descia o rio Amazonas de barco, a sua comitiva foi abordada por piratas. Felizmente nada de mal aconteceu, e a viagem prosseguiu sem problemas de maior. Não passou de um susto.

No Brasil a Honda Crosstourer voltou a ser embalada e transportada por barco. Após uma longa travessia, finalmente a moto e o Francisco Sande e Castro chegavam ao continente africano, nomeadamente à África do Sul. Esta última parte da viagem foi aquela que mais lhe custou fazer, admitiu à chegada a Lisboa. A opção por percorrer a África Ocidental, de sul para norte, e apesar de todos os avisos para não o fazer, estava tomada. Francisco Sande e Castro e a Honda Crosstourer já tinham Portugal em “ponto de mira”. Faltava apenas o esforço final.

E que final! Percorrer os troços e caminhos africanos foi uma experiência quase transcendental, tanto a nível físico como psicológico. Países como República Democrática do Congo, Gabão, Camarões ou até mesmo Nigéria levaram o Francisco Sande e Castro ao limite das suas forças.


Lamaçais infindáveis em que tinha de se socorrer da ajuda daqueles que ali viviam para poder transpor esses desafios, quedas em buracos no meio da selva, felizmente sem consequências físicas de maior, mas que o obrigavam a esperar horas e horas ao calor, pela ajuda de alguém que ali passasse para ajudar a sair do buraco, pois sozinho não conseguia levantar a Crosstourer, ainda por cima carregada com malas e bagagem.

Mas Portugal, e Lisboa, estavam já “ali ao virar da esquina”! Fazendo das fraquezas as suas forças, Francisco Sande e Castro lá conseguiu chegar ao final desta viagem épica que foi sendo realizada aos bocados, ou aos “bochechos” como  o próprio a define. Mas não é isso que retira qualquer mérito ao que este motociclista aventureiro conseguiu fazer! Não são muitos que se podem orgulhar de completar uma volta ao mundo. De moto muito menos. E depois dos 60 anos ainda menos. Portugueses então, não conhecemos nenhum.

Para a história do motociclismo português fica esta viagem do tamanho do Mundo. Uma viagem que, contas feitas, demorou cerca de sete anos e meio, e levou a Honda Crosstourer a acumular 140 mil quilómetros, enquanto ela e o Francisco passaram por nada menos do que 62 países em 6 continentes.

Muitas histórias ficaram por contar nesta reportagem, claro, mas para quem quiser mais detalhes fica a promessa de que até ao final do ano o Francisco Sande e Castro irá detalhar todas as aventuras num livro cujo título será “A Volta ao Mundo em 800 dias” – na realidade foi mais perto dos 900 dias! – e onde vai continuar a maravilhar aqueles de nós que gostam destas aventuras com histórias onde dormiu ao relento, ou com famílias pobres que quase nada tinham mas que sempre o ajudaram de sorriso nos lábios, e comeu no chão, ou foi atacado por enxames de mosquitos tendo tido a sorte de não ser afetado por nenhuma doença grave, embora se tenha recusado a tomar qualquer medicamento.

Galeria de fotos Volta ao Mundo em Crosstourer

Honda Crosstourer - Fiabilidade à prova de bala!

Francisco Sande e Castro, quando idealizou a sua Volta ao Mundo, idealizou-a tendo por base uma companheira bem específica: a Honda VFR1200 Crosstourer. Então uma novidade, esta grande aventureira é uma moto bastante pesada, conforme o próprio definiu quando nos contou sobre as suas inúmeras quedas. No entanto também se revelou uma companheira fiel... e fiável!

De acordo com o Francisco, a Crosstourer que chegou ao final da volta ao mundo é praticamente a mesma que arrancou em setembro de 2012. Dizemos “basicamente” pois nem todos os elementos e componentes duraram até ao fim. Após 140 mil quilómetros percorridos a Crosstourer quase não deu problemas. O moto V4 não sofreu qualquer intervenção profunda, nem mesmo para afinação de válvulas.

Devido ao peso do conjunto, e tendo em conta os terrenos muito acidentados e para os quais não foi pensada, a Crosstourer castigou as suspensões. Estes foram os elementos que mais obrigaram a intervenção mecânicas, e o Francisco Sande e Castro refere que teve de substituir por diversas vezes os retentores das bainhas, enquanto o amortecedor traseiro levou rolamentos.

Francisco Sande e Castro e a Crosstourer à chegada a Lisboa depois da Volta ao Mundo

Francisco Sande e Castro e a Crosstourer à chegada a Lisboa depois da Volta ao Mundo

As intervenções foram sendo realizadas pelo próprio, com a ajuda de alguns “técnicos” proprietários de oficinas que ia encontrando pelo caminho. Óleo e filtros foram os componentes mais substituídos ao longo da viagem de 140 mil quilómetros, tal como os pneus, claro. Ainda assim a contabilidade, em termos de material usado, não é nada má, e a Honda Crosstourer revelou-se extremamente fiável, mesmo tendo enfrentado alguns dos terrenos mais complicados que podemos encontrar numa viagem de volta ao mundo.

andardemoto.pt @ 2-6-2019 19:30:00