Passeio de Abertura do 25.º Portugal de Lés-a-Lés - 2023
O primeiro capítulo da grande aventura foi acompanhado de chuva que não estragou o passeio, antes acentuou beleza natural do Parque de Montesinho
andardemoto.pt @ 7-6-2023 18:05:00
Os participantes do Passeio de Abertura do 25.º Portugal de Lés-a-Lés desafiaram os elementos e, sem medo, partiram à chuva para uma descoberta do Parque Natural de Montesinho.
A forte intempérie, prometida pela depressão atmosférica Óscar não demoveu os cerca de 2500 motociclistas a fazerem-se à estrada para o Passeio de Abertura da edição das Bodas de Prata do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal.
E por bem empregue deram a ousadia já que a chuva, sob a forma de esparsos e leves aguaceiros, não incomodou quem na estrada passeava. Antes teve o condão de sublinhar os tons de verde e castanho das paisagens de encantar.
Foram 116 quilómetros, por entre soutos de enormes castanheiros e centenários carvalhais, visitando aldeias de gentes rijas e afáveis, que sabem receber como poucos. Foi o caso de Donai, onde poucos resistiram a fotografar as vetustas varandas de madeira, ou Vilarinho, onde era dada a descobrir a história dos ‘pica-burros’.
Aqueles aldeãos que iam até Bragança vender carvão, picando aqueles animais para que se despachassem… Bem precisavam de despachar alguns participantes, que não resistiram a provar o mel da Apimonte e descobrir mais sobre a região, fortemente dinamizada pelo apicultor local Luís Correia.
Ora entre bosques, ora por entre lameiros, aproveitando a agradável estrada nacional 308, sempre com a fronteira espanhola por perto, lá foi a caravana até Meixedo, seguindo depois, lado a lado com o rio Sabor, até França e o seu casario típico. Depois, a subida a Montesinho, aldeia de granito e lousa, materiais mais resistentes ao calor e ao gelo, para fazer frente aos nove meses de inverno e três de inferno que cada ano traz.
Por ruelas estreitas e inclinadas ia-se descobrindo a dureza da vida destas gentes. Curtidas pelo isolamento e pelo frio de uma serra cujo pico mais alto, na Lombada Grande chega aos 1486 metros de altitude, sendo a 4.ª mais alta de Portugal, depois da Estrela, Gerês e Larouco.
Descendo novamente ao vale do Sabor, rio que é companhia omnipresente nos dois primeiros dias da grande aventura mototurística, Aveleda e Varge, duas das 92 aldeias englobadas no Parque, mostraram mais animação, com os seus caretos, antes da entrada na segunda parte deste Passeio de Abertura.
Com estradas panorâmicas no topo das serras rumava-se a Rio de Onor, a famosa aldeia que pertence a dois países, com metade da população a viver em cada lado da fronteira e onde a língua é só uma. O rionorês é o dialeto local que todos, portugueses e espanhóis, entendem e que alguns dos aventureiros do Lés-a-Lés quiseram aprender. Nem sempre com os melhores resultados.
Após a marcante passagem na ponte que corta as águas do rio de Onor (onde teve início a grande aventura há 25 anos, em junho de 1999), iniciava-se o regresso a Bragança. Com passagem por Guadramil, onde o abandono a que tem sido votada esta aldeia reforça o misticismo, e Gimonde, cada vez mais conhecida pela famosa posta de vitela mirandesa.
E se não fosse a posta, havia sempre a oportunidade de experimentar a rica gastronomia nordestina, do cordeiro bragançano ao cabrito de Montesinho, das alheiras de caça aos enchidos de porco bísaro. Ou das trutas, em escabeche ou assadas, saídas das águas frias dos límpidos ribeiros locais, ao fumeiro, desde as tradicionais alheiras ao menos conhecido butelo, acompanhado por casulos (cascas de feijão secas).
Houve quem logo ali jantasse, com apetite que esquecer o repasto de boas-vindas a todos os participantes, e houve quem seguisse o ‘road-book’ até à bem preservada Cidadela de Bragança. No casario envolvente a um dos mais bem preservados castelos portugueses, quase mil anos de história foram mostrados em detalhes de inesquecível riqueza.
Como a Domus Municipalis, Monumento Nacional desde 1910 e um exemplar único da arquitetura civil de estilo Românico na Península Ibérica. Edifício que teve a dupla função de cisterna, de perfil abobadado e subterrânea, que permitia o abastecimento de água da cidade, e sede das reuniões dos ‘homens-bons’ da região.
Construída por volta do Séc. XII ou XIII, com planta em forma e pentágono irregular, é em alvenaria de pedra, razão da excelente conservação até à atualidade. Isto porque este tipo de edifícios era habitualmente feito de madeira, uma vez que nem o poder municipal nem o Estado tinham meios para financiar obras civis deste género.
Curiosidade rodeou também o pelourinho apoiado numa tosca estátua zoomórfica proto-histórica: um ‘berrão’. Semelhante a outras figuras conhecidas na região transmontana, como em Murça ou Torre de Dona Chama, há quem a veja como a ‘porca da vila’ da Idade do Ferro, sendo neste caso, muito mais antiga do que o próprio pelourinho. Terá sido esculpida, em granito, cerca de 200 ou 300 anos antes do nascimento de Cristo, e a designação deriva do termo popular usado para os porcos não castrados. No entanto há autores que defendam que este ‘berrão’ possa representar um urso…
A pensar na espécie animal que terá dado origem ao ‘berrão’, foram os participantes até à sede do Moto Clube Cruzeiro, brindar a um Passeio de Abertura de deliciosas paisagens, antecâmara de uma etapa que, no dia seguinte, a partir das 6 horas da madrugada, levará os cerca de 2500 motociclistas, organização incluída, até Viseu.
No programa, 304 km com passagem por Macedo de cavaleiros, Alfandega da Fé, Torre de Moncorvo, Pocinho, Meda ou Celorico da Beira, antes da chegada a Viseu, a partir das 15.30 horas.
andardemoto.pt @ 7-6-2023 18:05:00
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