Veloce Aperion: o paradoxo mecânico que desafia a era da eletrificação
Numa época em que a indústria motociclística se rende, ano após ano, a arquiteturas mais limpas, motores de menor capacidade e promessas de eletrificação total, surge uma moto absolutamente em contracorrente.
andardemoto.pt @ 19-7-2026 13:14:59
A Veloce Aperion, apresentada pela start-up britânica Veloce Motorcycles no Bike Shed Moto Show 2026, em Londres, é a antítese de tudo o que os regulamentos de emissões europeus têm perseguido nas últimas duas décadas: um motor a dois tempos, de oito cilindros, sem qualquer sistema de gestão eletrónica da mistura, alimentado a gasolina pré-misturada com óleo, tal como nos anos dourados das 500cc de Grande Prémio.
É esse o contraste que torna a Aperion fascinante do ponto de vista motociclístico: uma engenharia obsessivamente sofisticada, colocada ao serviço de uma tecnologia que, por definição, é ecologicamente insustentável.
No seu motor não há filtro de partículas, catalisador nem injeção direta estratificada. Há, isso sim, o retorno deliberado e assumido a um paradigma que a generalidade da indústria abandonou por motivos ambientais e que a Veloce recupera agora precisamente pelas qualidades mecânicas que os motores a quatro tempos modernos sacrificaram em nome da conformidade regulamentar.
O coração da Aperion: um motor X8
A base técnica da Veloce Aperion é tão insólita quanto ambiciosa. O seu motor tem por base oito cilindros Rotax, equipados com pistões forjados (os mesmo usados na Aprilia RS125), configurados em dois blocos V4 distintos, montados em posição invertida em torno de uma caixa de transmissão central. Esta arquitetura em X, e não em V ou em linha, é o fundamento mais radical do projeto.
Cada bloco é maquinado a partir de uma massa sólida de alumínio (billet) em quatro secções, em torno de duas cambotas, ambas engrenadas num veio secundário comum que aciona a embraiagem dedicada e a caixa de velocidades.
A alimentação é assegurada por quatro pares de carburadores Dellorto de 24 mm, controlados por um sistema de acelerador em espiral, com oito cabos, uma solução puramente analógica, sem qualquer corpo de borboleta eletrónico, numa época em que praticamente todas as motos de produção usam um sistema digital ride-by-wire.
O responsável pelo projeto, Jack Levy, explicou a lógica por detrás da disposição em X: o equilíbrio foi o principal argumento de decisão, já que os pistões diagonalmente opostos disparam em simultâneo, o que torna o conjunto perfeitamente equilibrado, mantendo o motor estreito, ao contrário do que aconteceria com um V8 ou um V6, que seriam bem mais largos.
E acrescentou uma justificação ainda mais reveladora do ponto de vista da engenharia: o formato em X só é possível graças ao ciclo de dois tempos, porque a lubrificação deixa de ser um problema quando os cilindros trabalham em posição invertida, uma tecnologia um pouco esquecida, mas ainda hoje muito válida em certas aplicações.
Números que desafiam a história dos dois tempos
Os valores reivindicados pela Veloce colocam a Aperion num patamar sem precedentes para a categoria. O motor X8, com 1000 cc, reivindica 280 cv (206 kW) às 12.000 rpm.
Para colocar este número em perspetiva histórica: poucos motores a dois tempos no passado do motociclismo ultrapassaram alguma vez a barreira dos três dígitos de potência, e a Aperion apenas concorre com o lendário Suter MMX 500, que reivindica 195 cv a partir de apenas 576 cc.
É este confronto de escalas, com uma potência descomunal, que resume o ADN da marca: extrair de um bloco compacto aquilo que a engenharia de quatro tempos só consegue com sobrealimentação ou cilindradas muito superiores.
Um braço oscilante desenhado à medida do motor X8
A suspensão traseira da Aperion não podia ser um simples aproveitamento de catálogo, dada a arquitetura invulgar do motor. A Veloce desenvolveu de raiz um monobraço oscilante em alumínio, fixado diretamente ao bloco do motor, que aciona por biela (pull-rod) um monoamortecedor montado sob a parte frontal do motor, e não na posição habitual, junto ao braço oscilante.
Segundo a marca, esta disposição invertida, com o amortecedor "underslung", foi escolhida por duas razões concretas: favorece o arrefecimento do conjunto, ao afastar o amortecedor das zonas mais quentes do motor, e permite otimizar a geometria de suspensão sem comprometer a integração estrutural do motor, que funciona como elemento do próprio chassis.
O resultado visual é um braço oscilante volumoso, quase desproporcionado à vista, associado ao emaranhado de escapes do X8, o que se tornou um dos traços mais reconhecíveis da silhueta da Aperion.
A dianteira, essa, recorre a uma solução bem mais convencional, com forquilha invertida, travões e jantes de especificação corrente, uma prova de que a ousadia da Veloce se concentrou deliberadamente onde a arquitetura do motor a exigia, e não onde a tradição motociclística já tinha respostas eficazes.
Do lado do escape, a solução também rejeita qualquer atalho ecológico: um sistema de câmaras de expansão em liga leve, produzido por sinterização a laser, ajuda a manter o conjunto do motor com um peso de apenas 105 kg, um valor notável tratando-se de um oito cilindros com a respetiva caixa de velocidades integrada.
O paradoxo ambiental, dentro do bloco
Um motor a dois tempos, por definição técnica, queima óleo em conjunto com o combustível e expulsa uma fração de mistura não queimada por cada ciclo, motivo pelo qual esta tecnologia foi praticamente erradicada da produção em série desde os anos 2000, tanto por via das normas Euro como pelas equivalentes normas de emissões noutros mercados.
A Veloce não contorna esse facto: assume-o. O próprio site da marca resume a filosofia como "um passo de mudança na filosofia de design e na audácia de engenharia da moto", com "motores próprios que oferecem um desempenho e uma visceralidade incomparáveis", sem nenhuma palavra sobre eficiência energética, redução de emissões ou eletrificação.
A prioridade é declaradamente outra: a Aperion é apresentada como "uma harmonia entre o visceral e o performativo", com o chassis, motor e transmissão combinados numa única unidade estrutural, em que as forças combustivas, inerciais e rotacionais se cancelam naturalmente pela própria geometria do X8.
O contraponto ecológico surge, paradoxalmente, pela via da exclusividade: ao limitar a produção a apenas 24 unidades, a Veloce transforma a Aperion não num produto de massa poluente, mas numa peça de coleção mecânica, mais próxima de uma obra de arte da engenharia do que de um meio de transporte de utilização corrente.
É esse enquadramento de raridade extrema que, na prática, permite à marca contornar os obstáculos legislativos: cada exemplar obtém uma certificação individual de aprovação de veículo único (MSVA) para uso rodoviário no Reino Unido, um regime pensado precisamente para veículos de produção muito limitada que não cumpririam os critérios da homologação em massa.
Do protótipo estático à estrada
O exemplar mostrado em Londres era um modelo estático, não funcional, enquanto um protótipo já operacional se encontra no centro de desenvolvimento da própria empresa, em Carmarthenshire, no País de Gales. É ali, na sua própria unidade de motores e circuito de testes, que a Veloce desenvolve tanto os motores como as motos completas.
As entregas aos clientes estão previstas para 2027, com um preço fixado em 78.000 libras (aproximadamente 90.500 euros).
Ficha técnica - Veloce Aperion
Características / Especificação
Marca e Fabricante: Veloce Motorcycles (Veloce Automotive Ltd), Oxfordshire, Reino Unido
Desenvolvimento: Centro próprio, Carmarthenshire, País de Gales
Motor: X8 a dois tempos, com 8 cilindros e configuração em X
Cilindrada: 1000 cc
Potência máxima: 280 cv (206 kW) às 12.000 rpm
Origem dos cilindros: Rotax (Aprilia RS125) com pistões forjados
Bloco: Duas bancadas V4, maquinadas em alumínio, 4 secções cada
Cambotas: 2 por bancada, engrenadas num veio comum
Alimentação: 4 pares de carburadores Dellorto de 24 mm
Acelerador: Punho giratório em espiral, 8 cabos
Lubrificação/combustível: Gasolina pré-misturada com óleo de dois tempos
Transmissão: Caixa de 6 velocidades, embraiagem dedicada
Escape: Câmaras de expansão em liga, sinterizadas a laser
Peso do conjunto motopropulsor: 105 kg
Produção: Limitada a 24 unidades
Homologação: MSVA individual (Reino Unido)
Preço: £78.000 (aprox. 90.500 €)
Início das entregas: 2027
andardemoto.pt @ 19-7-2026 13:14:59
Clique aqui para ver mais sobre: MotoNews