Zündapp KS 750: Filha da guerra!
Uma verdadeira moto de combate, com carro lateral e tudo, daquelas que povoam o nosso imaginário da II Guerra Mundial.
andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Esta Zündapp KS (abreviatura de Kardan Sport) é uma irmã mais espigada da KS 600 (acima ainda chegou a existir a KS 850, mas essa é uma verdadeira raridade) e a sua utilização massiva e quase exclusivamente dedicada à guerra mostra a importância que as motos desempenharam durante o conflito.
Aliás, a KS 750 foi produzida apenas para a guerra e não serão muitas as que terão sobrevivido sem passar pelos campos de batalha. No pós-guerra ainda existiu uma pequena produção, mas foi muito residual.
Para os mais atentos e que gostam de motos clássicas é possível que já tenham tido oportunidade de encontrar um exemplar praticamente igual num museu e em Portugal. Refiro-me especificamente à que se encontra no Museu do Caramulo, sendo um dos grandes atrativos do mesmo, com a respetiva metralhadora e tudo!
Curiosamente, ou não, esta também tem a sua machine gun (devidamente desativada, como é óbvio), mas não chegou a ser aplicada para a sessão de fotos, embora o suporte esteja lá.
Poderão ter sido usados mais modelos de metralhadora durante o conflito pelos alemães, mas a mais comum era a MG34 ou mesmo a MG42. Agora imagine-se a cena de piloto, passageiro, o carro lateral com outro soldado, a metralhadora, respetiva munição e, muitas vezes, ainda um atrelado cheio de carga! Não admira que ficasse conhecida por Kriegs Elephant, ou seja, Elefante de Guerra!
Alguma contextualização
A história da marca Zündapp já foi sumariamente apresentada na edição de março pelo que é simples ir a esse número recolher mais informação sobre o seu início, apogeu e declínio e perceber porque é uma das marcas que não chegou aos nossos dias. Talvez, um dia destes, o nome volte a ser usado por uma qualquer marca oriental como estratégia para seduzir os potenciais clientes, em particular os europeus, como tem acontecido em diversos casos.
Numa primeira fase do conflito o avanço das tropas alemãs foi rápido e inesperado. A Guerra Relâmpago (Blitzkrieg) combinava uma estratégia militar de ataque rápido e coordenado, usando blindados (Panzer), aviação (Luftwaffe) e infantaria, incluindo muitas motos. Baseada na velocidade e na surpresa mostrou ser uma tática de guerra quase infalível.
No início a KS 600 até ia dando conta do recado, mas o OKH (Oberkommando des Heeres), isto é, o Alto Comando do Exército necessitava de veículos mais robustos e com maior capacidade de carga. Foi então exigido à Zündapp e à BMW o lançamento de motos mais potentes, com superior capacidade de carga e que, idealmente, que pudessem partilhar peças entre si. Surge a KS 750, em oposição à BMW R75.
Este modelo em concreto foi produzido em 1943 (a produção decorreu de 1940 a 1944) numa altura em que Alemanha começou a sofrer sérios reveses e a guerra a mudar de rumo rapidamente. O exército alemão capitulou em Estalinegrado (fevereiro), foi o fim da campanha no Norte da África (maio) e a invasão aliada da Itália, com a deposição de Mussolini (julho-setembro). Mesmo o seu Aliado no Extremo Oriente, entenda-se Japão, começou a sofrer as primeiras derrotas nessa altura. O cerco às tropas do Eixo começava a apertar.
Estética extasiante, numa máquina de guerra
Vou escrever o óbvio: esta é uma daquelas motos que, por onde passa, chama a atenção e não é pouco. Quem quiser ter uma ou mais motos clássicas e passar despercebido nunca vai querer ter uma moto destas! Não combina com anonimato e o seu porte gigante também não ajuda.
Miúdos e graúdos são facilmente atraídos por uma moto que é verdadeiramente impactante e o facto deste exemplar estar num estado de conservação acima da média reforça esse facto. A própria cor facilmente nos transporta para a Frente Russa ou o Norte de África, talvez até servindo no Afrika Korps como escolta do General Rommel, também conhecido por Raposa do Deserto.
Talvez até possam ser um pouco mais criativos e pensar no icónico filme de 1942 Casablanca, dirigido pelo genial Michael Curtiz e conceber a fuga de Humphrey Bogart (Rick) e Ingrid Bergman (Ilsa), aos comandos de uma igual. Idealmente com a música de fundo As Time Goes By, de Herman Hupfeld, interpretada por Dooley Wilson (Sam) e que deve guardar um lugar especial no coração de muitos de nós. Um clássico de amor em tempo de guerra, de todos os tempos.
Qualquer que seja a perspetiva, a moto é imponente, mas percebe-se que há proporções equilibradas nas suas formas. O facto de ter uma série de “acessórios”, como os estojos das máscaras de gás, o pneu suplente, as malas laterais ou a cobertura do lugar do passageiro no side-car só lhe reforçam o encanto.
Até tem o encaixe para o atrelado! Foi melhor fazer as fotos sem a metralhadora, não apenas por questões legais, mas antes pelo risco de alguém a querer adquirir e não está nos planos do seu proprietário vender, mas como diz o povo… tudo tem um preço!
Nota de destaque para a transmissão final por veio. Não apenas para a roda traseira, mas um sistema muito mais completo em que parte da força do motor é também transmitida por veio até à roda do carro lateral. Um sistema robusto, perfeito para caminhos esburacados, pedras, lama, areia ou qualquer outro obstáculo, bem como uma elevada altura ao solo.
Sensações de condução
Há já algum tempo, anos, que não conduzia uma moto com side-car e do que me recordo tinha sido uma moto atual. Para quem nunca fez a experiência deixem que vos diga o óbvio: é um teste completamente diferente! Não melhor ou pior, apenas distinto! Há quem goste e quem odeie a ponto de nunca mais querer repetir!
Logo para colocar o boxer de dois cilindros e 751 cc requer alguma atenção, sendo que o facto de o pedal de arranque estar do lado esquerdo exige algum cuidado, mas encontrando o ponto morto superior até arranca para a vida com relativa facilidade. Tal como na KS 600 as manetes são invertidas, passando os respetivos cabos por dentro do guiador, mas não complica a condução.
O motor tem um trabalhar típico de um boxer, com alguma vibração que não chega a complicar e o som dos escapes é cheio, mas nada incomodativo. A diversão chega quando engrenamos a 1.ª velocidade e sentimos e ouvimos o clonk que nos dá indicação de que está tudo pronto para arrancarmos, mas com muita atenção e já vão perceber porquê.
Só a moto e a respetiva parafernália pesam mais de 400 kg em ordem de marcha! Com três pessoas, equipamentos, armas… não seria difícil duplicar esse peso e se adicionarmos o atrelado é melhor nem pensar nisso!
Do que me lembrava uma moto com side-car exige sempre uma condução muito física, em especial quando queremos curvar, seja para a direita ou para a esquerda. Nada tem a ver com uma moto de duas rodas e direi até que se conduz muito com os ombros, ou seja, usamos bastante força, mas o resultado acaba por ser compensador e logo nos habituamos, sobretudo se formos muito atentos. Apesar da volumetria, o facto da KS 750 ter tração à roda lateral ajuda a manter a moto mais colada no chão quando viramos para o lado esquerdo e gera mais tração.
Ao conduzir cerca de meia tonelada, numa moto com mais de 80 anos, dimensões que quase se assemelham a um utilitário, travões anémicos… dei por mim a dizer que foi um momento verdadeiramente único e marcante.
Mesmo tendo conduzido sempre muito devagar (os 26 cv do motor estão lá) e com máxima cautela não há como negar que foi algo verdadeiramente peculiar e é bom saber que uma máquina de guerra nos pode fazer sentir tão bem em tempos de paz!
Notas finais
Ao guiador desta Zündapp KS 750 tive uma oportunidade rara de poder fazer um recuo no tempo para uma época marcada por uma tragédia humana sem precedentes (os momentos que atravessamos têm demasiadas semelhanças). Porém, numa perspetiva atual, foi algo mágico e toda a moto é quase uma obra de arte, tal o cuidado que existiu em todo o projeto e como nada foi deixado ao acaso na sua construção.
Para variar, depois de estacionar, não senti aquela vontade habitual de trazer esta moto para casa, como tantas vezes me acontece com outras motos. É demasiado corpulenta, exigente do ponto de vista físico, ocupa muito espaço, mas tenho a certeza de que se me saísse uma quantia avultada teria que ter uma, nem que fosse apenas para pequenos passeios ao fim de semana ou para fazer dela um centro de uma mens garage!
Ao escrever esta crónica dou por mim a sorrir cada vez que me lembro daquela moto. Isso diz praticamente tudo sobre a forma como me marcou e espero também conseguir transmitir-vos essa sensação!
andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Clique aqui para ver mais sobre: MotoNews