Honda NSR 125R: japonesa com sotaque italiano

Uma moto completamente diferente, mais recente, muito popular no nosso país e da qual ainda se vão encontrando alguns exemplares a rolar: a Honda NSR 125 R.

andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte

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A Honda, como tantas outras marcas, nasceu com o final do conflito trágico que terminou em 1945 e que mudou o mundo. Aliás, para o melhor e para o pior, as guerras têm esse condão, basta pensar nos conflitos atuais e na forma como estão a condicionar e a alterar as nossas vidas.

De um país completamente de rastos, que foi alvo de severas sanções e até sofreu o impacto direto de duas bombas atómicas, o Japão deu um salto incrível em poucas décadas também ao nível da indústria motociclística. Para este resultado, que levou ao desaparecimento de muitas marcas, nomeadamente inglesas, há várias justificações, mas vejamos algumas:

Métodos de produção com um apertado controlo de qualidade, elevada capacidade produtiva e com custos controlados, facilidade de adaptação a novos contextos e gostos dos consumidores, investimento elevado em publicidade e marketing, nomeadamente na competição.

Esta NSR 125 R encarna tudo isso, sendo criada “à imagem e semelhança” das poderosas Honda NSR com que a marca nipónica competia nos mundiais de velocidade e até o padrão cromático se aproxima. Basta pensar nas motos a 2 tempos (nomeadamente as NSR 500) e em nomes que fazem parte do Olimpo das Motos de Corrida, casos de Freddie Spencer, Michael Doohan ou Valentino Rossi.

Por outro lado, a aposta nas baixas e médias cilindradas era perfeitamente lógica: fidelizar os jovens para uma 50 ou 125 cc, com a elevada probabilidade de, mais tarde, poderem vir a adquirir uma 600 ou 900 cc! Foi exatamente o que aconteceu e a NSR 125R foi a primeira moto com cilindrada acima dos 50 cc que muitos jovens tiveram ou ambicionaram ter! 

A sucessora da NS 125F


A NSR 125 R era a herdeira da bem-sucedida NS 125F, uma simpática desportiva de 125 cc, igualmente apelativa para os jovens, bastante popular no nosso país, sendo que na atualidade são já bastante raras e difíceis de encontrar. Chegou ao mercado em 1985 e a sua comercialização durou até 1988, data em que deu lugar à NSR 125 R, apesar das primeiras unidades terem chegado ao nosso mercado em 1989, que é exatamente o ano do fantástico exemplar que vos trazemos este mês, propriedade do Hugo, a quem agradecemos a disponibilidade e simpatia.


Ainda sobre a NS, já vinha equipada a rigor com um potente motor a 2 tempos, com refrigeração por líquido e uma carenagem dianteira, mas uma estética ainda old school, sem as modernices que a NSR veio trazer, caso do motor de arranque elétrico ou do travão de disco traseiro.

A NSR 125 R era já um patamar intermédio de uma vasta família, sendo que nem todas as suas diferentes declinações chegaram a ser comercializadas em Portugal e algumas só existem cá por via do mercado de importação direta. Existem várias cilindradas (50, 80, 125, 150, 250, 400, 500…), distintas arquiteturas de motor com diversos número de cilindros (1, 2, 3 e 4 em linha, em V), mas sempre de ciclo a 2 tempos e muito focadas na competição, mesmo que fossem apenas para usar no dia-a-dia, a caminho da escola ou do trabalho. 

De Itália, com carinho


No Japão cedo compreenderam que diferentes mercados tinham também especificidades próprias, além de regras de importação e taxas para proteger a produção nacional. Além disso, o Japão tinha escassez de matérias-primas e era inevitável a produção de motos fora do país, sobretudo em países com forte know-how e mão de obra qualificada, como era o caso da Itália, que veio a produzir e a abastecer o mercado europeu deste modelo, tal como já tinha feito com a NS.

Até a sua apresentação ocorreu no Salão de Bolonha em 1988 com a comercialização a ter início no ano seguinte, e a produção a ter lugar na Honda Italia Industriale S.p.A., em Roma. Essa aproximação foi tão longe que a Honda aproveitou a oportunidade e recorreu a vários fornecedores italianos, caso da Girardoni, Grimeca, Dell’Orto ou Marzocchi. 

Assim que foi apresentada ao grande público causou imenso impacto e os jovens deliraram com esta oitavo de litro, incluindo em Portugal, apesar do preço não ser propriamente convidativo! Custava cerca de 600 contos, o que representa algo como 3000 Euros atualmente.

Para referência, o ordenado mínimo era de 31,5 contos, algo como 158 euros! Com a designação de JC 20, declarava uns otimistas 31 cv (na realidade serão uns 28), obtidos às 10.000 rpm. Tinha uma estética espetacular, com cores chamativas e muitas novidades, incluindo arranque elétrico, travão de disco traseiro ou um vistoso taquímetro, de fundo branco, em posição central, com a zona vermelha a começar apenas às 11.000 rpm.


Também a velocidade máxima apresentada no velocímetro, 180km/h, está para lá do real, mas a moto é bastante rápida. Mais ainda se mantivermos as rotações acima das 6.000 rpm, garantindo que a válvula de escape (RC Valve) não se feche por completo e o motor ganhe uma nova vida, disparando velozmente em direção à zona vermelha do conta-rotações, acompanhado de uma sonoridade como só os motores a 2 tempos sabem emitir! Um verdadeiro clássico. 

Sensações de condução


Este magnífico exemplar está num estado de conservação quase de concurso, mas não foi sempre assim. Quando foi adquirida estava em muito mau estado, sem carenagens… e foi uma longa batalha para lhe devolver toda a mística do modelo original, tendo sido integralmente desmontada, pintada, adquiridas umas carenagens de uma moto dadora que depois foram também pintadas e decoradas com os respetivos autocolantes, recebendo ainda um novo cilindro e respetivos pistão e segmentos.

Efetivamente pode não ser das motos mais agradáveis de conduzir em trânsito urbano, muito por culpa da esperada apatia do motor em baixas rotações, mas a posição de condução não é demasiado racing e vamos bem encaixados na moto, incluindo o pendura que tem espaço para se sentar com facilidade e até um suporte adequado para segurar as mãos. Já os consumos são suportáveis, desde que não se caia na tentação de abusar do último terço do taquímetro, onde tudo acontece e o consumo de óleo de mistura e de gasolina disparam.

A Honda NSR 125 R trava muito bem (disco dianteiro de 316 mm de diâmetro), tem suspensões que cumprem perfeitamente, o quadro garante uma boa rigidez e é um elemento de destaque da moto. Fabricado pela Grimeca, em alumínio (alcast) pintado num bonito tom dourado, tem um aspeto peculiar e com uma vantagem adicional: torna-a praticamente imune à ferrugem.

A caixa de 6 velocidades é deliciosa, leve e muito precisa, com uma embraiagem fácil de acionar e que acabamos por usar imensas vezes, sobretudo se quisermos espicaçar mais o motor ou andarmos em meio mais urbano, onde estamos permanentemente a usar o seletor.


Ao estar equipada apenas com arranque elétrico acaba por ser uma comodidade, mas também um aumento de peso. Caso não seja utilizada com regularidade, a bateria facilmente pode descarregar, mas em desespero de causa é muito fácil de colocar em funcionamento engrenando uma segunda ou terceira velocidade. Solução de recurso, mas que funciona bem.

No sentido de tentar abranger um leque maior de consumidores, a marca lançou até uma versão F, despida de carenagens, na qual se pode ver toda a beleza do quadro e perceber melhor a qualidade dos acabamentos. É praticamente igual à versão R, tirando obviamente parte da instrumentação que teve de ser “recolocada”. É ainda mais rara e também mais leve, abaixo dos 130 kg da R, tendo um encanto muito especial também pelo único farol dianteiro. 

Notas finais


A Honda NSR 125R foi um marco. Imagino que muitos leitores, hoje na casa dos 40 ou 50 anos de idade, ainda se recordam dela com ternura e carinho e lhes traga memórias de uma época em que as motos eram muito distintas das atuais, mais sensoriais e menos tecnológicas.

Em 1994 a NSR 125 R teve ainda uma “reformulação” profunda (modelo JC22), ganhou um visual renovado, incluindo uns faróis “olhos de raposa” e semelhanças estéticas com a icónica NR 750. As últimas unidades da NSR 125R foram produzidas já no início do milénio, numa altura em que os motores de ciclo a 2 tempos estavam praticamente a desaparecer.

A Honda NSR 125 R deixa saudades e faz-nos vibrar. Sem ter os radicalismos de algumas produções italianas, como a Cagiva Mito e a Aprilia RS ou mesmo das nipónicas, como a Suzuki RGV, a Honda é uma moto muito especial. A sua estética quase decalcada da competição e o seu divertido motor a 2 tempos dão-lhe uma aura que perdura no tempo.


andardemoto.pt @ 5-9-2026 13:31:30.2886461 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte


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