MotoGP 2021 – A polémica e as explicações da Michelin sobre os pneus slick

Este ano a Michelin criou uma nova gama de pneus slick para a categoria MotoGP. Algumas motos parecem estar a dar-se bem com estes pneus, mas outras motos estão a sofrer, como é o caso da KTM RC16 de Miguel Oliveira. Piero Taramasso da Michelin Motorsport explica o que a marca francesa fez para 2021.

andardemoto.pt @ 12-5-2021 09:00:00

Um dos componentes mais importantes na afinação e comportamento dos protótipos de MotoGP não está nas mãos dos fabricantes que participam na categoria rainha. Estamos a falar dos pneus slick que equipam todas as 22 motos que estão na grelha de partida de cada Grande Prémio.

Os pneus de MotoGP são, desde há alguns anos, fornecidos em exclusivo pelos franceses da Michelin. Antes da casa de Clermont-Ferrand, eram os japoneses da Bridgestone que detinham o exclusivo dos pneus de MotoGP, e depois de muitos anos os pneus Bridgestone tornaram-se muito eficientes.

Aliás, eram tão eficientes e resistiam tão bem ao desgaste de uma corrida de MotoGP, que não era raro os pilotos conseguirem fazer os seus melhores tempos por volta em corrida nas últimas voltas da corrida. Às vezes até mesmo recordes de corrida eram batidos já com a bandeira à vista!


A entrada em cena da Michelin veio baralhar as contas dos fabricantes há muito habituados à consistência dos pneus Bridgestone. Depois de um momento inicial em que a Michelin Motorsport demorou a entender o caminho que devia seguir no desenvolvimento destes pneus slick tão especiais, a verdade é que nos últimos anos as borrachas francesas deram um salto significativo em termos de eficiência e resistência.

Mas a cada temporada de MotoGP, o departamento de competição da Michelin dedicado às duas rodas tem de apresentar novidades de acordo com pedidos de equipas e pilotos, mas também da Dorna.

E foi isso que aconteceu na preparação da temporada 2021.

A Dorna Sports pediu à Michelin Motorsport uma maior estabilidade técnica. E a equipa liderada por Piero Taramasso cumpriu, na sua opinião, com o que lhes foi pedido. Mas algumas equipas como a KTM, talvez o caso mais notório mas não o único, ressentiram-se dos novos pneus slick criados para a atual temporada de MotoGP.



A polémica sobre os pneus tem sido constante desde o início da temporada no Qatar. O português Miguel Oliveira (Red Bull KTM Factory), por diversas vezes se tem queixado de que mesmo o pneu mais duro da Michelin para este ano torna-se demasiado macio para as necessidades da KTM RC16.

Não será por isso de estranhar que o novo pneu francês esteja a impedir a KTM de encontrar a melhor afinação para cada circuito, e inclusivamente já levou Miguel Oliveira a algumas quedas pouco habituais no piloto português, como foi o caso do Grande Prémio de Portugal.

Mas enquanto a KTM ou a Honda, e até mesmo a Aprilia, se têm queixado dos pneus Michelin, fabricantes como a Yamaha ou a Ducati parecem estar a beneficiar bastante da nova construção dos pneus e dos compostos selecionados para as corridas de MotoGP. Talvez o segredo das três vitórias Yamaha e da vitória Ducati em Jerez sejam os pneus, talvez esteja a ser esse o fator que faz destas motos as mais eficazes em pista. Pelo menos até ao momento.


A confiança que os pilotos colocam no pneu dianteiro é o derradeiro fator que permite baixar os tempos por volta. Motos como a KTM RC16 ou a Honda RC213V foram desenvolvidas para permitir que os pilotos usem muito apoio na dianteira, essencial para entrada em curva.

Mas o pneu dianteiro Michelin tem-se revelado demasiado macio em termos de construção. Basicamente o que acontece é que os pilotos da KTM ou Honda, travam mais forte, o pneu dianteiro esmaga sob a pressão da travagem, e depois as motos não conseguem entrar em curva. Os pilotos forçam a dianteira a entrar na trajetória desejada, e é nesse momento em que acontecem as quedas, por perda de aderência na frente.

Os novos pneus assimétricos que a Michelin introduziu para 2021 também não têm sido a solução. Com um composto mais duro de um lado e mais macio do outro, dependendo do circuito, o piloto acaba por perder a confiança na dianteira da moto pois existe uma grande diferença em termos de aderência e performance entre os dois compostos usados no pneu dianteiro.

Há fabricantes que terão de alterar a configuração das suas motos, retirando peso da dianteira e passando-o para a traseira. Curiosamente, o pneu traseiro slick da Michelin é bastante bom.


Mas quais são as novidades Michelin para 2021 que tanta polémica e comentários de fãs e pilotos têm gerado nas redes sociais?


O grande foco da Michelin Motorsport foi manter a performance dos pneus, mas ao mesmo tempo garantir que a gama de pneus é mais simples e com menos compostos de referência. Simultaneamente os pneus oferecem, de acordo com a marca francesa, maior versatilidade e maior consistência.

Piero Taramasso diz que “A evolução da gama 2021 baseia-se na experiência acumulada na temporada passada. A alteração das datas de alguns eventos em 2020 permitiu-nos testar em condições diferentes do habitual, e testámos com uma amplitude de temperaturas bastante grande: desde 60 graus em Jerez em julho, até 13 graus em Barcelona no final da temporada. Conseguimos estudar como os pneus trabalham nestas condições extremas, e descobrimos que algumas misturas são ainda mais versáteis do que esperávamos”.

“A procura pelo set-up foi um tema recorrente em 2020. Ansiosos por fornecer às equipas os melhores pneus para as corridas, a Michelin Motorsport utilizou no ano passado um total de mais de 35 compostos diferentes”, continua a explicar Taramasso.

É a partir deste ponto que a Dorna Sports pediu à Michelin Motorsport para criar uma gama de pneus mais “simples”, com menor quantidade de compostos disponíveis. A intenção inicial era que os pilotos pudessem entender mais facilmente as características de cada pneu no momento inicial de afinação das suas motos.


“A consistência dos pneus tem sido a imagem de marca da Michelin. Por isso trabalhámos para equilibrar a situação ao introduzir os pneus assimétricos em determinados circuitos, especialmente à frente, enquanto até este momento apenas tínhamos pneus de composto único. Graças aos esforços da nossa equipa de desenvolvimento focámos a nossa gama numa dureza ligeiramente acima da de 2020, ao mesmo tempo que mantemos a performance. Desenvolvemos a nossa gama de acordo com a opção de continuidade técnica definida pela Dorna”.

Em conclusão, Piero Taramasso afirma que “O nosso programa de pré-temporada viu-nos atingir os objetivos definidos pela equipa de desenvolvimento. Isto significa que podemos dar aos pilotos uma gama de pneus que é mais reduzida mas mais versátil, o que lhes facilita o trabalho de afinar o chassis. Também conseguimos melhorar a consistência ao usar compostos ligeiramente mais duros, e ao mesmo tempo melhorámos a aderência e a performance de uma forma geral. Estas melhorias foram aplaudidas desde os testes de pré-temporada no Qatar, onde os nossos pneus ajudaram a bater os recordes de volta mais rápida e de maior velocidade atingida por uma MotoGP”.

Quais são os pneus que os pilotos de MotoGP têm à sua disposição em cada Grande Prémio?


Slicks
- Em cada GP, o piloto tem 22 pneus slick. 10 pneus para a frente e 12 pneus para trás
- Os pneus dianteiros escolhidos têm de ter no máximo cinco pneus de uma determinada especificação: macio, médio ou duro
- Os pneus traseiros escolhidos podem ser no máximo seis Macios, cinco Médios ou quatro Duros
- Os pilotos que passam da Q1 à Q2 têm direito a um pneu dianteiro e um traseiro adicionais, que podem ser de qualquer especificação

Chuva
- Os pilotos têm 13 pneus (seis dianteiros e sete traseiros), e podem escolher entre Macio ou Médio

Convém no entanto ter em conta que há exceções.

- Se quatro das cinco sessões de treinos livres e qualificação forem em piso molhado, um par adicional (dianteiro + traseiro) será entregue a cada piloto. Adicionalmente, se tanto a Q1 como a Q2 forem declaradas sessões em piso molhado, os pneus adicionais serão pneus de Chuva, de acordo com a especificação preferida do piloto. Se no entanto a Q1 e a Q2 forem declaradas sessões de piso seco, não serão disponibilizados pneus adicionais.

andardemoto.pt @ 12-5-2021 09:00:00


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