Entrevista a Miguel Oliveira – Contem com ele!

Miguel Oliveira juntou a imprensa para um almoço que serviu de desculpa para uma análise à primeira metade da temporada do MotoGP. A vitória, os pódios e um crescendo de forma e resultados colocam o português da KTM como um dos candidatos ao título. Contem com ele!

andardemoto.pt @ 26-7-2021 10:42:52

Com a caravana do Mundial de Velocidade parada para umas merecidas férias de verão, o piloto português Miguel Oliveira aproveitou este raro momento de descanso para juntar a imprensa para um agradável almoço na sua terra natal, Almada. Foi com o ar fresco do rio  Tejo que separa Almada de Lisboa,  e na companhia do Cristo Rei, que tivemos a oportunidade de passar algumas horas com o piloto da Red Bull KTM Factory.

Numa  primeira  metade  de  temporada  onde  há  tanto para  analisar  e  para  contar, como  por  exemplo  a  questão  dos  pneus  Michelin  e  dos  compostos  assimétricos que  causaram  tantas  dores  de  cabeça  na  afinação  da moto, Miguel  Oliveira  falou  abertamente  de  vários  temas, alguns  mais  técnicos  como  a  alteração  no  chassis da  KTM  RC16, e  que  permitem  agora  entender  melhor que  aconteceu  no  início  de  temporada  menos  positivo do que se esperava.

Mas  agora  entramos  na  segunda  metade  do  ano,  e a  situação  inverteu-se  por  completo  com  o  português a  somar  vitória  e  pódios,  revelando  estar  mais  forte do  que  nunca  em  MotoGP.  A vitória em Barcelona e os pódios consecutivos  vieram  dar  um  novo  alento  ao piloto  luso  e  à  sua  equipa.

O  festejo  ao  melhor  estilo de  Cristiano  Ronaldo  em  Montmeló, como  que  a  dizer “Calma,  eu  estou  aqui!”,  são  a  demonstração  da  maturidade  de  um  piloto  que  não  desiste  do  seu  sonho  de ser  campeão  de  MotoGP.  Contem com  ele  para  estar na luta até ao fim!

- Como analisas a primeira metade da temporada de MotoGP?

Miguel  Oliveira -  As  corridas  têm  sido  muito  mais rápidas  não  só  a  nível  de  volta  rápida, mas  também  do tempo  total  de  corrida.  Lembro-me  que  terminei  no Qatar, a  segunda  corrida  a  8  segundos, e  penso  que  na história  foi  a  corrida  com  a  menor  diferença  de  tempo entre  1º  e  o  15º.  Mas  toda  a  época  tem  sido  bastante competitiva,  temos  ido  a  vários  circuitos  e  têm-se  batido  vários  recordes. Cada  vez  mais  os  terceiros  treinos livres  estão  a  virar  autênticas  sessões  de  qualificação, onde  se  batem  recordes,  e  portanto  torna-se  cada  vez mais  difícil  nós  estarmos  naquele  grupo  tão  restrito que  são  os  dez  primeiros.

As  motos  têm  evoluído  bastante,  e  obviamente  que  a  proximidade  técnica  entre os  construtores  tem  contribuído  massivamente  para que  as  coisas  estejam  muito  mais  apertadas  e  que criem  um  espetáculo  muito  bonito. Temos visto  corridas  espetaculares  com  várias  ultrapassagens,  muita incerteza  naquele  que  será  o  resultado  final,  temos visto  surpresas,  a  maior  parte  delas  surgem  da  minha parte  (risos).  Mas  está  a  ser  um  campeonato  muito  interessante,  com  muitos  fatores  que  contribuem  para isso.  Julgo  que  este  último  ano  o  facto  de  não  termos permitido  um  desenvolvimento  daquilo  que  são  as peças  para  as  motos  veio  aproximar  tudo  um  pouco, e vemos  que  os  pilotos  conseguem  explorar  ao  máximo as  suas  máquinas  e  isso  acaba  por  trazer  uma  competitividade brutal.


-  O  campeonato começou de uma forma inesperada, pelo lado negativo para ti também,  porque esperavas com toda a certeza mais.  Foi coincidente com a altura em que houve a vacinação para todo o paddock.  Essa parte da vacinação afetou-te?  Tanta gente tem sido afetada…

Miguel Oliveira - Nós  no  paddock  tivemos  testemunhos  muito  diferentes  de  pessoas  que  não  sentiram nada,  outros  que  sentiram  alguma  coisa.  Esse (a  vacinação)  foi  um  ponto  de  viragem  essencial  para  nós continuarmos  o  nosso  campeonato,  porque  temos uma  caravana  gigante  de  equipas  e  pilotos  e  pessoal da  organização,  que  são  fundamentais.  Da  parte  do promotor,  que  é  a  Dorna,  garantir  essa  vacina  através  do  governo  do  Qatar  para  quem  quisesse  foi  um passo  importante,  porque  temos  visto  praticamente zero  casos  de  Covid-19  no  paddock  e  estamos  a  viajar pela  Europa  inteira,  e  começámos  a  viajar  há  algumas semanas  para  fora  de  Europa  com  o  início  do  campeonato  no  Qatar.  Eu  tive  um  ligeiro  sintoma  de  febre até  quinta-feira  antes  da  segunda  corrida,  mas  toda  a equipa passou bem, felizmente os mecânicos e toda a gente sempre em forma e de boa saúde.-  De  um momento  para  o  outro,  a  partir  de Mugello principalmente, pareceu ter existido um  volte-face total entre a KTM que tínhamos  visto até então.

- O  que aconteceu para que de um momento para o outro a KTM curvasse como tu queres?

Miguel  Oliveira -
  É  um  tema  que  parece  que  sempre  que  eu  respondo  a  essa  questão  parece  que  estou a  esconder  alguma  coisa.  Mas  não  há  nada  a  esconder.  Nós  quisemos  contar  à  imprensa  que  na  corrida de  Mugello  começámos  a  usar  um  chassis  que  já  tínhamos  testado  no  passado,  após  o  Grande  Prémio de  Jerez.  Era  um  chassis  que  achávamos  que  em  longa  duração,  numa  corrida,  pudesse  dar  alguma  coisa de  positivo  e  em  Mugello  tivemos  essa  confirmação. Por  outro  lado,  a  equipa  aliou-se  a  um  novo  parceiro técnico  de  combustível,  e  tudo  junto  acabou  por  dar bom  resultado.

Da  minha  perspetiva,  a  perspetiva de quem trabalha dentro da box,  já  vínhamos com a sensação de que o pódio já poderia ter chegado há mais tempo.  Talvez  na segunda corrida do Qatar em que tive aquele problema com o painel de instrumentos. Portimão era outra prova em que poderia ter terminado no pódio. Jerez  foi mais limitante pela minha posição de saída,  mas também o meu ritmo não era muito promissor para fazer algo mais,  e depois chegou França que era o Grande Prémio claramente onde tanto a seco como a chuva as coisas podiam correr muito bem,  mas acabei por cair na corrida. Portanto,  a  verdade é que parece que as coisas só começaram  a  correr  bem  a  partir  de  Mugello, mas  da minha perspetiva já tínhamos tudo para correr bem antes,  mas não aconteceu. E a alta competição é isso. Às  vezes nós sentimos  que temos tudo  para…  mas falta aquela pontinha de sorte.  De facto,  a partir de Mugello  focámo-nos  em  terminar  corridas  e  o  fim  de semana na maior perfeição possível.


- Já  vimos que o início de temporada não foi o ideal. Que parte dos problemas foram resolvidos pela KTM e qual a parte em que foram resolvidos por ti?

Miguel  Oliveira -
  Nós  tivemos  uma  dificuldade  de adaptação este ano ao novo pneu assimétrico da Michelin.  A  nossa moto neste momento tem uma baliza muito  pequena de  temperatura  de pista  para  trabalhar com os compostos do pneu dianteiro,  e portanto a adaptação foi técnica.  Tivemos de repensar um pouco a  estratégia,  como  passar  mais  peso  para  a  dianteira da  moto,  gerando  o  calor  suficiente  para  que  o  pneu funcionasse. Também tivemos essa sorte do nosso lado nas últimas corridas porque os compostos não são assimétricos e temos bastante à  vontade para trabalhar com estes compostos.  Neste momento no MotoGP,  os pneus são talvez  um dos componentes mais importantes em que precisamos de acertar logo.

E é muito difícil encontrar aquela linha de equilíbrio para podermos trabalhar com todos os compostos que temos na Michelin. Por  vezes  vemos na televisão  os compostos, mas não quer dizer necessariamente que são mais macios ou mais duros que temos.  Torna-se complicado passar essa mensagem cá para fora. A  Michelin é um parceiro técnico excelente do MotoGP  e tem já  vários anos de experiência nas duas rodas,  e tem sido um excelente exemplo em termos de segurança.  Da nossa parte,  o investimento  técnico  que  fazemos  para  durante  o  fim de semana reunir a informação dos pneus é essencial para  fazer com que as coisas funcionem bem.  Portanto tivemos adaptação técnica, e nalgumas corridas consegui perceber bem até que ponto posso arriscar e levar a  minha  moto,  como  em  Barcelona.  E  isso  dá-me  um pouco de  vantagem face aos restantes pilotos KTM.



- Não revelaste grandes segredos da importância do novo chassis.  Falaste na baliza de temperatura. A procura por mais aderência alargou essa baliza?

Miguel  Oliveira -
  O  chassis apenas nos  veio  dar  o que eu disse anteriormente.  A  performance de longa duração.  Eu  fui  rápido  quando  fizemos  o  teste  com  as duas motos.  Foi mais uma questão de sensação do que puramente aquilo que o cronómetro mostrava,  e a minha sensação era que o novo chassis pudesse ser um pouco mais amigável para a traseira da moto.  O foco do novo chassis não foi bem a dianteira.  Portanto conseguimos ganhar um pouco mais de aderência, mais estabilidade na saída das curvas rápidas. A  equipa da  Tech3 também acreditava que o chassis era uma peça fundamental para melhorar a performance,  mas quando os pilotos da  Tech3 o experimentaram não notaram  grandes  diferenças. Aqui  está  a  prova  de  que ao  nível  do  chassis  não  fizemos  a  escolha  errada, apenas  seguimos  mais  a  minha  sensação  e  que  no  final do dia foi aquilo que contou mais.

- E tu,  mudaste alguma coisa na tua preparação?

Miguel  Oliveira -
  Julgo  que  talvez  aquele  mau  arranque  de  campeonato  me  tivesse  trazido  alguma ansiedade  em querer demonstrar  alguma  coisa.  E até Mugello não tive nenhum resultado dentro do top 10, mesmo terminando as corridas.  E isso poderá ter-me trazido  alguma  ansiedade. Até  mesmo  a  minha  equipa, apesar de toda a gente saber o meu  valor, havia ali um ânimo que é sempre reforçado com um bom resultado.  E foi isso que aconteceu.  A  partir daí entrou em piloto automático e portanto as últimas corridas têm sido aquilo que se  viu.


-  O  mercado está em ebulição total.  De que maneira é que tu te  vês no mercado, sabendo que tens contrato até 2022 e que estás  “blindado”? E de que maneira é que  vês uma segunda corrida em Portimão este ano? Poderá ser uma  vingança?

Miguel  Oliveira -
  O  mercado,  sobretudo  nestes tempos modernos, os contratos  vêm demonstrar, e já houve um ou dois casos,  que quando não existe  vontade de uma das partes em continuar esses contratos são quebrados. Hoje em dia ter um contrato assinado  vale o que  vale.  Eu tenho o meu compromisso assumido com a  minha equipa,  já  desde o ano passado com a KTM,  e  essa  palavra  é  palavra  que  eu  não  vou  voltar atrás.  Naturalmente que esta situação do  Viñales  veio trazer  algum  nervosismo  nas  negociações  e  antecipou um  pouco  as  negociações  para  o  futuro,  também  fui abordado nesse sentido,  mas como disse há pouco,  o meu foco está neste  momento  na minha equipa, numa equipa em que eu acredito que posso ser campeão do mundo, e até o conquistar haverá ainda trabalho pela frente.  Em  relação  a  Portimão,  ficarei  muito  feliz  por poder  voltar a correr num circuito de casa,  a minha ambição é alterar o resultado do início do ano (queda em Portimão).  E,  portanto,  o objetivo será obviamente apontar  à vitória.

- Quais consideras que são os pontos fortes e os menos bons da tua moto em relação à concorrência?

Miguel  Oliveira -
Em primeiro lugar precisamos de partir  da  premissa  que  nenhuma  moto  é  má. Todas as motos que alinham na grelha do MotoGP  todas elas são  muito competitivas. Das  22 motos  que participam temos  20  que  são  oficiais, as  outras  são  motos  2019  ou 2020. Tendo essa igualdade entre construtores torna--se difícil de perceber quais são os nossos pontos muito fortes ou os menos bons. O que queremos melhorar para o futuro é,  mantendo as características de parar bem  a  moto para  a  curva  ou  com menos grip  na  pista, podermos usar bem a nossa eletrónica e usar o motor V4,  mas gostaríamos de ganhar agilidade,  porque as motos  com  motores  quatro  em  linha  são  mais  naturais nas trocas de direção e  muito mais rápidas. Não é fácil, pois podemos alterar o compromisso que já está bom. Tudo o resto são detalhes que  vamos sempre otimizando,  quer  seja  a  estratégia  da  eletrónica,  a  injeção, o  próprio  corpo  de  injeção,  a  forma  como  otimizamos todo o ar que entra na moto,  e o novo campo a explorar que tem sofrido um elevado investimento que é o campo da aerodinâmica,  onde aí sim,  há algum trabalho para fazer.


- O que é que sentiste quando  venceste na  Catalunha e celebraste como o  Cristiano Ronaldo?

Miguel  Oliveira -
  Basicamente a ideia da celebração já tinha surgido antes de Mugello,  por ser um momento  em  que  necessitava  de  me  afirmar. Foi  perfeito ser  em  Barcelona,  onde  o  Cristiano  fez  o  mesmo  movimento há alguns anos no Camp Nou,  mas isso não foi propositado,  era algo que já tinha na mente que queria fazer e quando surgisse a oportunidade iria fazer.  Não  tem  nenhum  significado  especial. Apenas  que têm de contar comigo.

-  As  corridas  de  Moto3  estão  a  ficar  caóticas.  O  que achas que se pode fazer nas corridas de Moto3 para disciplinar a confusão?

Miguel  Oliveira -
Em relação às Moto3,  e é a minha opinião,  acredito que o nível não é muito elevado.  Isto porque, factualmente, temos assistido a grandes pilotos passar por essa categoria e  víamos esses grandes pilotos  conseguirem  destacar-se, fisicamente, dos  restantes na corrida,  por exemplo o Jorge Martin ou o Joan Mir, que  agora  estão  em  MotoGP.  E  o  que  é  certo  é  que  é muito fácil levar uma Moto3 ao limite,  onde os cones de ar são super importantes e retiram uma  vantagem a nível de tempo que é absurda.  Mas é a categoria.  Na minha opinião,  a solução seria aumentar um pouco o nível das motos,  ou através do incremento da potência, ou  fazendo  uma  alteração  na  largura  dos  pneus,  para que  aumente  um  pouco  a  dificuldade  técnica  de  levar  a Moto3 ao limite. E aí penso que seria possível ao piloto sobressair mais durante a corrida.  Os grupos são muito grandes,  as motos muito leves,  e há muita agressividade nos pilotos que depois levam a quedas.


-  Como  vês o papel do público no MotoGP?

Miguel  Oliveira -
O público tem um papel fundamental.  E notamos isso agora que passámos um ano sem público e agora  voltamos a ter.  Para quem pensa que só ouvimos as motos dentro do capacete isso é mentira.  Temos uma atmosfera completamente diferente quando há público nas bancadas,  e na  Áustria  vamos ter  a primeira experiência  com  casa  cheia  e  sentir  a adrenalina de público nas bancadas. Na Holanda tivemos algum público, e é sempre bonito termos o apoio dos fãs.  O reconhecimento internacional também me deixa muito orgulhoso,  e é inevitável não falar dos próprios portugueses que estão sempre em todas as corridas,  mesmo fora da Península Ibérica,  vejo sempre bandeiras de Portugal por todo o mundo.

- Já disseste que esperas ser campeão do mundo.  O que é essencial para que isso aconteça?

Miguel  Oliveira -
O  essencial  é  acreditar  até  ao  final. Tenho  vivido essa experiência pessoalmente de que acreditar é preponderante. Acreditar quando se ganha é muito fácil,  o acreditar quando não se ganha e se passa  por  momentos  difíceis  é  o  verdadeiro  teste.  Soa sempre  a  cliché,  mas  cada  vez  mais  tem-se  mostrado que é preponderante a competência psicológica no desporto,  tão  importante  como  as  competências  técnicas.  Por isso temos sempre de acreditar até ao final.



-  O  foco é,  portanto,  mais no  “eu daqui já não  vou descer!”?

Miguel  Oliveira -
  O foco é sempre no  “eu  vou conseguir!”.  Neste mundo da alta competição nada é garantido,  e  vivemos numa era onde tudo acontece de forma muito mais rápida,  passa do muito bom para o muito mau, é  sempre  bom  caminhar  na  direção  justa  e  o  foco naquilo que queremos porque há muitas coisas que podem  influenciar  e  desestabilizar  um  pouco. Estou  rodeado por uma equipa excelente, que acredita em mim como  nunca,  e  isso  dá-me muita  força  para manter o foco naquilo que é o objetivo maior. Há duas coisas preponderantes  que  é  acreditar  até  ao  final,  e  depois  chegar ao fim com mais pontos que os outros! (risos)

- Agora  vamos entrar numa nova fase do campeonato.  Quais são os circuitos onde pensas que  vais estar mais à  vontade e aqueles que estarás menos à  vontade?

Miguel  Oliveira  -
Diria que os circuitos onde estaremos menos à  vontade serão aqueles em que não competimos com a nossa moto  versão de 2020, que é praticamente a mesma que corremos atualmente. Talvez pistas  como  Texas  ou  Tailândia  sejam  circuitos  que nos  criem  dificuldades  pois  não  temos  experiência. No entanto,  acredito que a  segunda  metade  da  temporada  tem circuitos que de  alguma  forma  são  um  pouco mais amigáveis para a nossa moto e mesmo para o meu estilo de condução.


- Achas que o arranque de temporada pode de alguma forma frustrar o que perspetivas para esta temporada? E quando dizes que foste abordado,  nesta loucura que está o mercado de negociações, queres dizer que foste abordado pela concorrência ou pela KTM para garantir que não te  vais embora?

Miguel  Oliveira -
Como  eu  tenho  vindo  a  dizer, no  final do  ano  em  Valência, após  a  bandeira  de  xadrez  é  que  se fazem  as  contas. Obviamente  que  no  fim  há  sempre  um olhar em retrospetiva e há sempre aquela espinha atravessada de  “se não fosse…”. A  minha estratégia é focar--me no presente e na segunda metade da temporada, e  o  que  ficou  para  trás  serve  apenas  de  aprendizagem e  para  motivar, serve  para  alertar que  nada é  garantido. E que o importante é continuar a trabalhar em direção ao nosso objetivo. Em relação ao que eu disse anteriormente das negociações, ambas as opções.

-  O  Fabio  Quartararo está na frente distanciado. Acreditas  que  até  ao  final  da  temporada  pode  quebrar como aconteceu no ano passado? E achas que podes lutar pelo título?

Miguel  Oliveira -
O Fabio é um piloto que é muito forte e está numa forma incrível, em que mostra muita rapidez.  Acredito  que  nós  conseguimos  batalhar  com ele,  como  conseguiremos  batalhar  com  outros  pilotos. No  que  diz  respeito  a  metas  e  expectativas, a  resposta é sempre a mesma do costume.  Apontamos ao melhor resultado e esperamos que faça jus aquilo em que  acreditamos  que  conseguimos  fazer. Mas  não  corremos  sozinhos,  temos  sempre  fatores  externos  que podem influenciar o resultado.


-  A  longo prazo gostarias de participar numa prova do Dakar? E em duas ou em quatro rodas?

Miguel  Oliveira -
  Acho  muito  improvável  fazer  em duas  rodas,  apesar  de ser  a  minha  área  de  conforto. Sigo o Dakar todos os anos e são os Jogos Olímpicos do todo-o-terreno.  Seria um enorme privilégio algum dia poder alinhar num Dakar,  espero que em quatro rodas,  pois quando me retirar (do MotoGP) o meu físico já não estará tão bom como está agora.

- Quantos anos é que achas que Portugal terá de esperar para ter outro piloto  no Mundial de  Velocidade?

Miguel  Oliveira -
  Não sei quantos anos  vai ter de esperar,  mas  sei  que  há  imenso  potencial. O  investimento da nossa parte (n.d.r.: Miguel Oliveira Fan Club Racing Team) é no fundo alargar a formação para passarmos o conhecimento técnico.  Os tempos atuais são muito diferentes de quando eu me iniciei.  O que mais nos interessa a nós é passar-lhes (aos jovens) o que chamamos de  “soft skills”,  aquelas competências que não vemos,  que são super importantes para singrar em qualquer  área  profissional  em  que  estamos  inseridos, e passar-lhes estes conhecimentos que fomos ganhando com já  vários anos de mundial, vários anos a passar por onde eles passam agora em Espanha.  Uma coisa é certa: pode existir sempre muita  vontade de quem quer ajudar,  mas têm de ser os próprios pilotos a querer.  Temos constatado isso mesmo,  e há pilotos que chegam lá mais facilmente do que outros.  Há uns que não chegam porque não têm ajuda, mas querem muito. Os que têm ajuda têm de querer agarrar na ajuda para chegar a algum lado. E é assim em tudo na  vida. É essa a mensagem que deixo aos pilotos mais jovens.

andardemoto.pt @ 26-7-2021 10:42:52


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