MotoGP – O que acontece às motos quando termina a temporada?
Os protótipos de MotoGP são motos muito especiais e que valem milhões de euros. Têm uma vida útil relativamente curta e, no final de cada temporada, as equipas têm de decidir o que lhes acontece.
andardemoto.pt @ 6-8-2021 19:28:19
A
categoria rainha do motociclismo de velocidade conta com a participação de dezenas
de motos, verdadeiros protótipos que, nas mãos dos melhores pilotos do mundo,
conseguem atingir performances fantásticas que um comum motociclista apenas consegue sonhar em sentir.
Estas motos, que fazem qualquer um sonhar, valem muitos milhões de euros, mas o
que lhes acontece quando termina a temporada?
Enquanto nas categorias inferiores existem muitas equipas, principalmente as privadas,
que adquirem motos que pertencem às equipas de fábrica e as “reciclam”, por
vezes com novos componentes, quando há orçamento para isso, na categoria rainha
MotoGP o nível é tão elevado e a evolução tecnológica está a acontecer a um
ritmo tão veloz que não faz sentido, para a grande maioria das equipas,
reutilizar as motos que foram usadas na temporada anterior.
Num passado não muito distante, as equipas de fábrica disponibilizavam, em
formato aluguer ou mesmo a vender, as suas motos usadas e correspondente material suplente da temporada anterior às equipas privadas. Outras vezes, as
motos que chegavam ao fim da sua vida útil acabavam por se tornar modelos de
exposição em feiras e eventos de motociclismo.
Um caso curioso, e até rocambolesco, aconteceu com uma Honda RC166, a moto com que
Mike “The Bike” Hailwood foi campeão em 1966 e 1967. A Honda ofereceu a Mike
Hailwood um contrato muito interessante do ponto de vista financeiro e que incluía,
também, a obrigação da marca japonesa entregar ao piloto diversas motos com as quais
ele tinha sido campeão nas mais diversas provas internacionais.
No Japão, a Honda acreditou que essas motos estavam guardadas
numa garagem. No entanto, o HRC não estava a par do destino concreto dessa moto campeã.
Inicialmente a Honda RC166 acabou na posse da Honda Alemanha, que a levou a
várias exposições de motos na Europa. Sem se saber bem ao certo como foi
possível, mas a verdade é que aconteceu, essa moto, uma 250 de 6 cilindros
apareceu nos treinos para o Grande Prémio da Alemanha em 1969, pilotada por Gerhardt
Heukerott, um desconhecido piloto alemão que conseguiu convencer a Honda
Alemanha a disponibilizar-lhe a moto.
O que Gerhardt Heukerott e a Honda Alemanha não tiveram em conta, como muitas
vezes acontece, foi que a Honda RC166 era uma moto altamente sofisticada para a
época, e obrigava a uma manutenção muito cuidada para que pudesse funcionar na
perfeição. Essa manutenção realizada pelos especialistas da Honda não foi feita
conforme previsto, a RC166 sofreu uma avaria e nem sequer correu nesse Grande Prémio.
Infelizmente, e tal como aconteceu a muitas motos de competição, exemplares
únicos, perdeu-se o rasto a essa Honda RC166 depois deste episódio caricato em
que uma moto de exposição tentou competir num Grande Prémio.
Leilões e coleções
Outras vezes acontecem coisas muito curiosas às motos de competição. Há uns meses
foi a leilão uma Benelli 250/4 com que Kel Carruthers foi campeão do Mundial
250 em 1969. Esse foi o ano em que foram introduzidas alterações aos
regulamentos técnicos do Mundial de Velocidade, e por isso o destino da moto
seria a coleção particular da família Benelli.
No entanto, quando a marca foi adquirida pelo grupo De Tomaso, em 1972, Marco
Benelli, filho de Giuseppe Benelli, um dos fundadores da Benelli, removeu o
motor da moto e instalou-o na sua moto particular que regularmente conduzia em estrada! No mínimo, uma
situação insólita.
Posteriormente, todo o material dessa moto campeã, incluindo o motor, foram recuperados
por Giancarlo Morbidelli e a moto foi restaurada no Museu Morbidelli. O museu
acabou por ser desmantelado há cerca de três anos, e o seu conteúdo acabou por ser
leiloado. A Benelli 250/4 de Kel Carruthers acabou por ser arrebatada em leilão
por um colecionador particular.
Outras motos de competição acabam em coleções dos pilotos. E Ángel Nieto, o
famoso espanhol que foi campeão mundial “12+1” vezes, conseguiu criar uma coleção bem
especial, graças às suas vitórias em pista.
Ángel Nieto conseguiu sempre ficar com uma das motos com que se sagrava campeão,
criando assim uma coleção muito valiosa. Nieto tinha uma forma
especial de conseguir as suas motos: numa ocasião chegou mesmo a garantir para si uma
Minarelli 125, quando estava com o proprietário da marca no pódio… minutos
depois de se sagrar campeão! “Sabia que se lhe pedisse nesse momento, ele não iria
recusar o meu pedido”, afirmou Ángel Nieto ao recordar esta história.
Atualidade do MotoGP
Em MotoGP, chegou a dar-se o caso de fabricantes, depois de usarem algumas
unidades para testes, acabarem por enviar para a sucata outras unidades às
quais já não iam dar uso. Hoje em dia isto já não acontece, até porque, tão
importante como um bom design é poupar nos custos.
Convém ter em conta que, em MotoGP, cada piloto tem duas motos (nas Moto2 e Moto3
apenas uma moto por piloto), e que para além dos que competem no
campeonato, cada fabricante tem uma equipa de testes que conta com material
diverso e trabalha com diferentes unidades: motos da temporada atual, motos da
temporada anterior, protótipos…
Por exemplo, na Honda, as motos de uma temporada servem de base para evoluir a
moto da temporada seguinte. No passado estas motos eram usadas pelas equipas
satélite do fabricante, mas com este a fornecerem às equipas satélite
motos quase idênticas às motos usadas pelas equipas de fábrica, isto já não
acontece na grande maioria dos casos.
Assim, e no caso da Honda, as motos que já não são usadas têm destinos
diferentes. Algumas são enviadas para o Japão onde são usadas em vários
eventos, algumas são ainda entregues aos patrocinadores. Por exemplo, a Repsol,
na sua sede em Madrid, conta com uma bela coleção de motos Honda de 500 cc e de
MotoGP.
No caso da Ducati, as motos são usadas como bancada de teste para a temporada
seguinte. O tempo de vida útil de uma MotoGP pode estender-se por duas ou até
três temporadas, caso exista essa necessidade.
Mas chegará um momento em que já não as podem usar. E o que acontece às motos
nesse momento?
“Depende dos contratos de leasing que fazemos com as equipas independentes”, confirma
a Ducati Corse. “Algumas motos sofrem uma atualização e são usadas na temporada
seguinte, outras são vendidas a colecionadores, mas há sempre uma que acaba no Museu
Ducati”.
Mas se as motos não forem parar a nenhuma coleção nem ao museu, o que lhes
acontece? Ken Kawauchi, diretor técnico da Suzuki Racing, responde: “Algumas
motos passam a ser usadas pela equipa de testes, outras têm como destino o
banco de potência, e outras acabam por se tornar motos de exposição”.
Mas a KTM adotou uma estratégia bastante diferente e até pouco habitual. Em meados
de 2020 a marca austríaca anunciou que colocava à venda duas unidades da sua
MotoGP, a RC16. Foi a primeira vez que uma marca colocou à venda, de uma forma
tão aberta e pública, protótipos genuínos de MotoGP.
A Ducati Corse já tinha vendido motos de competição a colecionadores
particulares, mas nunca o fez de forma tão aberta. No caso da KTM a dimensão
do negócio foi enorme, tal como o preço pedido, que começava nos 288.000€ + IVA,
mas o valor das RC16 acabou por ser superior, pois houve bastante procura por
parte de colecionadores de motos de competição que não quiseram perder a
oportunidade de “deitar a mão” a um verdadeiro protótipo de MotoGP.
Este preço “desde 288.000€” anunciado pela KTM está longe de ser o real valor
destas motos tão especiais. Mas serve de base para ficarmos com uma ideia de
quanto poderá custar comprar uma MotoGP para ter na sua garagem.
andardemoto.pt @ 6-8-2021 19:28:19
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