Rogério Carmo

Rogério Carmo

Publisher Andardemoto.pt

OPINIÃO

Os cavalos e os burros

A sociedade moderna assenta em paradigmas interessantes que, um dia, algum novo Freud há-de conseguir explicar.

andardemoto.pt @ 13-12-2022 13:47:58 - Rogério Carmo

À semelhança do dinheiro, que se pensa remédio milagroso para a ignorância e má educação, também a potência dos veículos serve para normalmente esconder deficientes dotes de condução e complexos de inferioridade.

Num planeta com recursos cada vez mais escassos, a enfrentar elevados níveis de poluição, desertificação e uma cada vez maior instabilidade política e social, os meios de transporte continuam a ser frequentemente usados como indicadores de status dos seus proprietários, em vez de soluções práticas de mobilidade.

No caso concreto das motos, porque nos automóveis o caso é bastante pior e triste, a cavalagem é o fulcro das atenções dos menos… vou dizer informados, para não ferir muitas susceptibilidades. 

No mundo real, e refiro-me ao local onde melhor se percebe o nível intelectual e a educação das pessoas: as redes sociais, é frequente lerem-se e ouvirem-se comentários sobre a cavalagem que alguns modelos debitam.

Ora, tal como não se compra um livro pelo número de páginas, admira-me (ou antes, nem por isso) que uma moto seja avaliada pela potência máxima declarada na ficha técnica. 

O marketing, aquela ciência que estuda e cria necessidades de consumo onde elas não existem, ignorando as verdadeiras carências da humanidade e usando estratégias magistrais para beneficiar financeiramente da ignorância, frustração e vaidade dos “consumidores”, há muito que percebeu que quanto mais cavalos anunciar na ficha técnica de qualquer moto, mais apetecível e deslumbrante ela vai ser. 

Com a ajuda da eletrónica, tornou-se fácil escalar a potência, usando a tecnologia para mitigar o risco que daí advém. Por isso, independentemente da cavalagem, os sistemas eletrónicos de ajuda à condução existem para, qual anjo da guarda, proteger os menos experientes, os néscios ou os mais atrevidos, limitando na prática a entrega da potência a valores significativamente mais baixos.

Para cumprir o código da estrada, ou até abusar um pouco dele, e mesmo para conseguir níveis de diversão muito interessantes a ritmos que muito poucos motociclistas podem praticar com confiança, diria que valores na ordem dos oitenta cavalos são mais do que suficientes. Mais do que isso, a menos que se seja um piloto profissional com dotes excepcionais, ou se incorre em sério risco de acidente, ou a eletrónica da moto se encarrega de resolver o assunto. Mas é frequente lerem-se e ouvirem-se comentários do tipo: “Só 100 cavalos? - É fraquinha!”. E porque não há forma de parar a ganância, muitas motos de hoje, homologadas para circularem na via pública, já declaram valores de potência a rondar (e até a ultrapassar) os 200cv. E o burro sou eu?


Outubro 2022

andardemoto.pt @ 13-12-2022 13:47:58 - Rogério Carmo


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