Johan Pereira

Johan Pereira

Motociclista, peregrino da liberdade.

OPINIÃO

De Portugal à Finlândia - oitavo e nono dias

18 e 19 de abril 2024

No oitavo dia da nossa aventura, despertámos ao alvorecer, movidos pela expectativa de conhecer um novo país nesta jornada.

andardemoto.pt @ 21-4-2024 17:30:00 - Johan Pereira

Oitavo dia – 18 de abril de 2024

Assim que o sol se mostrou, já estávamos a arrumar as nossas coisas nas motos, partindo de imediato em direção à Eslováquia. A proximidade da fronteira facilitou a nossa chegada antecipada, permitindo-nos fazer algumas paragens pelo caminho. Contudo, a Eslováquia não nos cativou como esperado. As expressões fechadas e a aparente falta de cortesia das pessoas com quem tentámos comunicar lançaram uma sombra de desconforto sobre a nossa breve estadia. Sentindo a necessidade de mudar de ares, decidimos que a Polónia seria o nosso próximo destino, especificamente Auschwitz, um lugar carregado de história e reflexão.

A viagem até lá, no entanto, revelou-se um desafio à parte. A autoestrada, embora prometesse ser a rota mais rápida, mostrou-se perigosamente agitada, não apenas pelo intenso tráfego de veículos pesados, mas também por uma ventania implacável que atravessava a planície sem obstáculos. Priorizando a nossa segurança, optámos por alterar a nossa rota em direção a Prievidza, seguindo pela estrada nacional, uma decisão que, apesar de mais demorada, nos ofereceu uma paisagem diversificada e a possibilidade de uma viagem mais serena.



A entrada na Polónia, assinalada por volta das 18h, revelou novos desafios. A estrada, em meio de um extenso processo de obras, estava em condições precárias, com elevações e depressões na primeira camada de asfalto que exigiam de nós uma atenção redobrada na condução. A direção pesada das motos, sob o efeito dessas irregularidades, testava a nossa resistência e habilidade a cada quilómetro percorrido. O frio, persistente nos 2°C, apenas reforçava o nosso desejo de alcançar o destino e descansar.

Finalmente, pelas 20h30, chegámos ao Hotel Villa Central, localizado em Auschwitz. A decisão de permanecer por dois dias foi motivada tanto pela necessidade de um descanso merecido quanto pela oportunidade de visitar com calma os campos de concentração no dia seguinte. Adicionalmente, o custo bastante acessível das duas noites de hospedagem apresentou-se como um alívio para o nosso orçamento, já impactado pelos imprevistos anteriores da viagem. Assim, concluímos mais um dia, marcado tanto pelos desafios enfrentados na estrada quanto pela antecipação de uma experiência profundamente histórica e reflexiva que nos esperava.


Nono dia – 19 de abril de 2024

No nono dia da nossa aventura, despertámos em Auschwitz, imersos numa atmosfera de profunda reflexão. Decidimos que as motos permaneceriam estacionadas, uma pausa merecida que também se assemelhava a um gesto de respeito perante a seriedade do dia que se avizinhava. Após um pequeno-almoço marcado por uma quietude pensativa, onde as conversas deram lugar a reflexões introspectivas, encaminhámo-nos de Uber para os campos de concentração, espaços impregnados pelas histórias de dor e resistência humana.

A opção por uma visita guiada em francês foi um aceno de inclusão ao meu pai, cuja fluência na língua assegurava uma compreensão mais aprofundada desta incursão pelo passado. Às 12h45, sob um céu que se dividia entre a promessa do meio-dia e o avançar da tarde, iniciámos a nossa visita, um percurso que nos guiaria pela penumbra de Auschwitz e Birkenau. O guia, dono de uma voz que trazia consigo o peso dos relatos que partilhava, conduziu-nos através dos resquícios daquilo que foi um dos episódios mais sombrios da história da humanidade.


Cada passo dado, cada narrativa partilhada pelo nosso guia, impregnava o ar com os ecos das vidas ali perdidas. A visita, que se estendeu até as 17h, transformou-se numa experiência de imersão, deixando-nos com uma sensação tangível de conexão com o passado. Os 220 zł despendidos na visita guiada revelaram-se um investimento na memória colectiva, uma lição sobre a importância de recordar e honrar aqueles que padeceram naqueles campos.

De regresso ao Hotel Villa Central, a densidade da história que nos envolvia ainda era palpável, substituindo o habitual rumor das nossas conversas por um silêncio reflexivo. A escolha de assistir ao filme "A Minha Amiga Anne Frank" não foi tanto uma decisão, mas uma necessidade; uma forma de prolongar a jornada de reflexão iniciada durante o dia. Visualizar a história de Anne Frank, após um dia passado nos campos de concentração, transformou-se não apenas num acto de aprendizagem ou compreensão, mas num exercício de empatia, de memória e de compromisso para com o nunca esquecer.

Ao terminar o dia, com o desenrolar final do filme e a noite a envolver Auschwitz num manto de quietude, a magnitude do que tínhamos vivenciado começava a sedimentar-se. Sentíamo-nos cansados, sim, mas era um cansaço distinto; saturado de gratidão pela vida e pela liberdade, e com um renovado compromisso de jamais esquecer as lições assimiladas neste dia de intensa reflexão histórica.

andardemoto.pt @ 21-4-2024 17:30:00 - Johan Pereira


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