Johan Pereira

Johan Pereira

Motociclista, peregrino da liberdade.

OPINIÃO

De Portugal à Finlândia - 14º e 15º dia

24 e 25 de abril de 2024

No décimo quarto dia da nossa aventura, o sol finalmente brindou-nos com a sua presença, dissipando as pesadas nuvens que haviam coberto Tallinn com uma imponente tempestade de neve.

andardemoto.pt @ 27-4-2024 09:30:00 - Johan Pereira

Dia 14 – Dia 24 de abril de 2024

Apesar de a neve ainda marcar presença nas estradas, o asfalto começava a revelar-se, parcialmente limpo, prometendo um caminho possível. Fortificados por um pequeno-almoço robusto e imbuídos de renovada esperança, partimos rumo ao ferry que nos levaria à Finlândia, com partida marcada para as 10:30.

Seguimos as indicações do GPS para o local de check-in, chegámos por volta das 10:10. Para nossa surpresa, o local estava deserto, lançando-nos num mar de dúvidas. “Se a partida é às 10:30 e às 10:10 não há vivalma, seguramente errámos o local”, pensámos. Transformámo-nos em verdadeiros exploradores urbanos, desafiando regras de trânsito, entre sentidos proibidos e passeios, numa busca desesperada por alguma indicação ou pessoa que nos orientasse.

Num ato de ousadia, entrei num parque de estacionamento privado que mostrava ser o único estabelecimento com seres humanos, passando "à justa" entre um poste e a cancela, com as malas a roçar nos obstáculos, invadido por uma frustração crescente com a aparente desorganização do porto. Foi então que, num volte-face, um gentil senhor esclareceu que o check-in era, afinal, no ponto de partida inicial. Voltámos a toda a velocidade, resignados, mas ainda com um fio de esperança.


“Bem, parece que também não é hoje que apanhamos o barco”, resignou-se o meu pai. A minha frustração era palpável, mas retorqui, determinado: “Vais ver que é hoje. O raio do barco não foi barato... vais ver”. Foi quando me dirigi a um polícia, cuja postura não deixava dúvidas quanto à sua profissão, mesmo estando à paisana. Percebendo o meu estado de exaustão e irritação, confirmou que estávamos no local certo e que apenas precisávamos esperar.

Contrariamente ao previsto, a operação de check-in só teve início depois das 11:00, e quando finalmente fomos atendidos, a resposta foi cortante:

“Chegaram tarde demais, o barco já partiu”. A frustração atingiu o ápice, e talvez tenha sido demasiado veemente na minha resposta, mas, contra todas as expectativas, permitiram-nos embarcar no barco seguinte sem custos adicionais.

Três horas e meia depois, desembarcámos em Helsínquia, uma cidade que lembra uma Inglaterra nórdica, com edifícios surpreendentemente similares. Sem destino pré-definido, programámos Oulu no GPS e seguimos viagem, fazendo poucas paragens, sob um clima frio, mas soalheiro.


Numa dessas paragens, tivemos o privilégio de conhecer Yusuf, um senhor que, aos 23 anos, partiu da Finlândia rumo ao sul de África a pé, sem um cêntimo no bolso. Contou-nos das suas aventuras, incluindo passagens por Espanha e Portugal, e de como, com a esposa, viajou pelo mundo numa caravana. Após o falecimento dela, decidiu regressar à sua terra natal, Vierumäki.

Eram quase 21:00 h e ainda havia luz do dia quando decidimos procurar um parque de campismo perto de Oulu. Chegámos por volta das 23:30, após enfrentar um caminho terrível, não limpo, com cerca de 300 metros de gelo esmagado. Para nossa surpresa, estava fechado. “E agora?”, o meu pai pergunta com um sorriso.


“Agora montamos as tendas aqui”. Não encontrando alternativa, regressámos, enfrentando novamente o piso escorregadio, até encontrar uma área onde fosse possível acampar confortavelmente.

Às 2 e meia da manhã, finalmente encontrámos uma área de serviço completamente escura e vazia.

O meu pai olha para um pequeno barracão, com um telhado a proteger uma área e disse: “daqui já não saio”!

Montámos uma só tenda com 2° negativos às 3 da manhã.


Dia 15 – Dia 25 de abril de 2024

No décimo quinto dia acordámos, mas foi o funcionário, possivelmente da câmara da cidade onde estávamos, quem nos despertou. Eram 6 da manhã... 6 da manhã caramba, dormimos no máximo 3 horas. Ele parecia pensar que éramos sem-abrigo. O meu pai, que não sabe falar inglês, ficou completamente perdido, sem saber o que dizer. O funcionário começou a pedir se tínhamos autorização em papel, queria ver com os próprios olhos.

Quando o ouvi a pedir, a minha cabeça saiu logo da tenda: “Excuse me?” respondi, seguido de um “Que autorização?”, com um tom irónico. Porque, para quem não sabe, na Finlândia, o campismo selvagem é permitido por lei, desde que não seja em propriedades privadas, e nós estávamos a 3 metros de um parque de caravanas, em local público.

O rapaz encarou-me e percebeu que eu estava com cara de poucos amigos. “Ah, é só para saber se é possível desviarem um pouco a moto, porque ali é onde enchem os pneus dos carros,” disse ele, com uma risada nervosa. Mudou de assunto rapidamente. Eu, mantendo a educação, respondi: “Sim, claro, posso retirar. Talvez tenha ali a autorização.” Ele riu-se, nervosamente.

Super cansados, com 3 horas mal dormidas, decidimos esperar mais 2 horas na área de serviço, para que o gelo na estrada principal derretesse um pouco. Então, decidimos seguir em direção a Rovaniemi, 600 quilómetros que fizemos sob um céu que clareava gradualmente, prometendo mais um dia de aventura.

Terminámos um dia, raramente, ainda de dia já em Rovaniemi.

andardemoto.pt @ 27-4-2024 09:30:00 - Johan Pereira


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