Inauguração do FIM Racing Motorcycle Museum
Foi no passado dia 18 de Fevereiro de 2026 que o FIM Racing Motorcycle Museum abriu as suas portas ao público. Antes disso, em Dezembro de 2025, realizou-se a cerimónia oficial de inauguração, e o nosso colaborador Alan Cathcart foi um dos poucos jornalistas convidados, tendo aproveitado a oportunidade para nos contar tudo o que por lá se pode encontrar.
andardemoto.pt @ 23-2-2026 18:32:43
Em Mies, na Suíça, praticamente no cruzamento estratégico da Europa Ocidental, surgiu um novo destino obrigatório para qualquer entusiasta do motociclismo desportivo. A par de eventos como o TT da Ilha de Man, as 24 Horas do Bol d’Or, o Grande Prémio de Itália em Mugello ou as 200 Milhas de Daytona, passa agora a figurar na lista de locais a visitar, o FIM Racing Motorcycle Museum, uma exposição permanente parcialmente interativa dedicada à memória viva do motociclismo, reunindo máquinas que marcaram a história da modalidade.
Em outubro de 2024, o organismo que tutela o motociclismo mundial, a FIM - Fédération Internationale de Motocyclisme, inaugurou um novo edifício-sede, em Mies, situado apenas 10 km a norte do Aeroporto de Genebra, no cantão de Vaud. A abertura desta nova infraestrutura coincidiu com o 120.º aniversário da FIM e com os 40 anos da sua instalação em Mies.
A federação foi fundada em 1904, em França, mudou-se para a Suíça em 1959 e fixou-se em Vaud em 1994. Este novo edifício ergue-se diretamente ao lado das instalações anteriores, inauguradas em 2016, um edifício circular que foi agora convertido no novo RMM - Racing Motorcycle Museum, inteiramente dedicado ao motociclismo internacional.
O museu estará aberto ao longo de todo o ano e a sua coleção de motos traça a evolução do motociclismo desde os primeiros anos do pós‑Segunda Guerra Mundial, quando se iniciaram os Campeonatos do Mundo organizados pela FIM, até às sofisticadas máquinas de competição da atualidade.
“O FIM Racing Motorcycle Museum é uma coleção verdadeiramente notável”, afirma o presidente da FIM, Jorge Viegas.
À frente da organização desde 2018, o português Viegas é o responsável pela visão que deu origem à exposição, desenvolvida por uma equipa liderada pelo seu colega italiano Fabio Muner, Diretor de Marketing e Digital da FIM. “Percorrer a exposição é fazer uma viagem pela ilustre história das corridas de motos, desde os seus anos formativos até aos dias de hoje”, acrescenta Viegas. “Mas é muito mais do que uma simples mostra de máquinas clássicas, o RMM oferece aos visitantes uma perspetiva valiosa e interativa sobre o património do desporto que todos amamos, ajudando a compreender melhor as emoções e as inovações que lhe estão associadas.”
Com esse objetivo, o museu ocupa 1.600 m² distribuídos por três pisos e apresenta 61 motos na sua exposição principal, abrangendo desde os primeiros anos do Campeonato do Mundo, a partir de 1949, até à coleção completa das máquinas dos Campeões do Mundo FIM de 2025, nas sete disciplinas principais da federação.
E cada moto exposta é uma verdadeira máquina de competição, não uma réplica, garante Fabio Muner: “Cada exemplar possui um historial competitivo autenticado”, afirma. “São motos genuínas de corrida, não modelos de exposição.”
Entre os destaques da exposição encontra‑se a AJS Porcupine E90 twin de 1949, a moto com que Les Graham conquistou o primeiro título mundial de 500 cc de velocidade, emprestada pelo Sammy Miller Museum, no Reino Unido. Está posicionada mesmo junto à entrada do edifício do Museu, permitindo observar de perto as lendárias e únicas aletas de arrefecimento em forma de espigões, na cabeça do motor.
As motos mais antigas que se seguem são a requintada Honda RC166 de seis cilindros e 250 cc de 1966, pilotada por Mike Hailwood, e a diminuta Derbi de 50 cc de 1969, com motor a dois tempos, na qual o falecido Ángel Nieto conquistou o primeiro dos que sempre designou como os seus “12 + 1” títulos mundiais.
Próxima encontra‑se a MV Agusta tricilíndrica de 500 cc de 1971, com a qual Giacomo Agostini superou Nieto ao alcançar um dos seus 15 títulos mundiais. O próprio Agostini esteve presente a 7 de dezembro para, juntamente com outras figuras, cortar a fita que marcou a abertura oficial do Museu, como um dos quatro primeiros nomeados para o recém‑criado Hall of Fame da FIM, ao lado da lenda do Trial e piloto de velocidade Sammy Miller, do promotor de MotoGP e CEO da Dorna, Carmelo Ezpeleta, e do tetracampeão mundial de Motocross 500, Harry Everts.
Cada uma destas personalidades foi convidada a deixar a impressão da mão direita em argila, posteriormente moldada em pedra para exibição no jardim do Museu, junto a uma placa cerâmica com o respetivo nome, integrada na lateral de uma pequena pista de corrida. Novos nomeados serão acrescentados anualmente.
Contudo, esta exposição está longe de ser dominada exclusivamente por motos de velocidade. O motociclismo off‑road está amplamente representado, com máquinas das disciplinas de Rally, Motocross, Enduro, Trial, Speedway, Flat Track e Ice Speedway, ilustrando a evolução destas modalidades ao longo de várias décadas.
Entre elas encontram‑se a Yamaha YZ450F com que Stefan Everts conquistou o título MX1 em 2006, a Beta Zero de 1989 de Jordi Tarrés, sete vezes campeão mundial de Trial Outdoor, e a Zaeta DT450RS que levou Francesco Cecchini ao título mundial de Flat Track da FIM em 2019.
A BMW R80 G/S de 1981 de Hubert Auriol contrasta com a Yamaha YZE750T de 1991 de Stéphane Peterhansel, ambas vencedoras do Paris‑Dakar, enquanto a Jawa de 2001 do sueco Tony Rickardsson encontra o seu paralelo na moto do polaco Bartosz Zmarzlik, atual campeão mundial, sendo ambos hexacampeões de Speedway.
As motos campeãs do mundo de 2025 trazem o Museu até à era moderna, com a máquina de Bartosz Zmarzlik acompanhada pelas de Toprak Razgatlıoğlu (WorldSBK), Toni Bou (TrialGP), Daniel Sanders (World Rally‑Raid), Josep Garcia (EnduroGP) e Romain Febvre (MXGP), todas elas responsáveis por títulos mundiais nesse ano.
No topo desta lista surge a Ducati com que Marc Márquez conquistou o título de MotoGP em 2025 mas, numa área separada do Museu, está igualmente exposta a Honda RC213V de 2016, com a qual o piloto espanhol alcançou um dos seus seis títulos mundiais com a marca japonesa, antes de se transferir para a Ducati em 2024. Importa sublinhar que os visitantes podem aproximar‑se de todas as motos expostas, já que não existem cordas ou barreiras a impedir a observação detalhada de cada máquina, embora seja estritamente proibido tocar.
No final de cada ano, estas motos serão substituídas pelos modelos campeões da nova temporada.
Outras máquinas de pilotos multicampeões do passado recente também estão presentes, incluindo a Aprilia RS250V de 1995 com que Max Biaggi conquistou o segundo dos seus quatro títulos mundiais de 250GP, a Honda RCB1000 de 1978 de Christian Léon e Jean‑Claude Chemarin, que dominou invicta o Campeonato Europeu de Endurance durante três anos consecutivos, de 1976 a 1978, e a Kawasaki Ninja ZX‑10R de 2016 de Jonathan Rea, proveniente do segundo ano da sua série de seis títulos consecutivos no Mundial de Superbike.
Mas esta exposição está longe de ser composta unicamente por motos de competição, já que existem numerosos módulos, alguns deles interativos, dedicados aos elementos muitas vezes invisíveis ou até desconhecidos que compõem o funcionamento do desporto motorizado sobre duas rodas (apesar de haver um sidecar de três rodas em exibição!).
“O Museu está estruturado em torno de três aspetos fundamentais; Heróis, Tecnologias e Das Corridas para a Estrada”, explica Fabio Muner. “Esta abordagem dá igual importância aos pilotos, às inovações de engenharia e à forma como a tecnologia desenvolvida na competição foi sendo transferida para as motos de produção ao longo das décadas. Não queríamos apenas expor motos icónicas, mas contar a história da evolução das corridas e mostrar como a FIM contribuiu para a segurança e para a inovação através da sua orientação nas diferentes vertentes do desporto.”
Assim, existem módulos específicos dedicados aos vários componentes do equipamento de segurança de um piloto, mostrando como são desenvolvidos capacetes, fatos de couro e luvas, entre outros. Há também áreas dedicadas à tinta antiderrapante utilizada nos circuitos, ou à tecnologia dos pneus de competição em todas as disciplinas.
Outras secções focam-se nos avanços tecnológicos das corridas, incluindo o desenvolvimento de motores e chassis, bem como soluções de engenharia de diferentes gerações, traçando uma linha temporal das inovações históricas até aos produtos atuais.
Os visitantes podem ainda perceber como é pilotar os circuitos da sua escolha através de simuladores fornecidos pela Triumph Motorcycles, que permitem experimentar tanto as emoções como os desafios de conduzir motos de MX do Mundial ou protótipos de MotoGP.
Há também uma exposição de escapes Akrapovič para várias disciplinas, bem como uma coleção de motores de competição independentes, que inclui uma comparação muito atual entre duas abordagens distintas ao design de motores de MotoGP: um quatro‑em‑linha Yamaha de 800 cc de 2010 e um V4 Ducati de 2021.
Várias outras áreas exploram temas como aerodinâmica e sistemas eletrónicos, incluindo controlo de tração, sublinhando o papel das corridas como laboratório de investigação e a forma como as exigências extremas da competição impulsionam o desenvolvimento de tecnologias que acabam por chegar às motos de estrada.
Mas há mais. Numa área separada no piso térreo encontra‑se atualmente uma fascinante exposição de 21 motos oficiais de Motocross, desde uma CZ de 380 cc a dois tempos de 1969 até à raríssima Aprilia RXV450 V‑twin de 2009.
Este panorama histórico do MX, que retrata a ascensão da modalidade, primeiro na Europa e depois nos Estados Unidos, inclui motos Husqvarna, BSA, Bultaco, Monark, KTM, Maico, Puch, Ossa, Suzuki e Yamaha, mas nenhuma Honda ou Kawasaki!, juntamente com modelos especiais artesanais de equipas europeias como a Simoncini e a TGM.
Esta notável coleção de motos de todo‑o‑terreno pertence a Giuseppe Luongo, que se reformou no ano passado após quatro décadas a promover o Motocross, incluindo 25 anos como parceiro da FIM na organização dos eventos do Campeonato do Mundo de MX.
Esta é a primeira de várias exposições temáticas temporárias que, segundo Fabio Muner, irão complementar a exposição permanente do Museu da FIM, cada uma com duração entre seis meses e um ano.
“Esperamos que isto incentive os visitantes a regressar ao Museu, além de nos permitir assinalar marcos importantes na evolução do nosso desporto”, afirma Fabio. “Por isso, a próxima exposição temporária que quero apresentar aqui será dedicada ao International Six Days Enduro (ISDE), a mais antiga e prestigiada competição anual de motociclismo off‑road do mundo, que celebra este ano o 100.º aniversário da sua primeira edição.
Os ISDE começaram em 1913, em Carlisle, Inglaterra, mas as provas foram interrompidas pelas Guerras Mundiais e pela Covid em 2020.
A edição deste ano terá lugar em Portugal, em outubro, onde organizaremos uma grande celebração no paddock para assinalar o centenário, mas, paralelamente, iremos montar aqui no Museu da FIM uma grande exposição de motos do ISDE, para contar a história do evento. E depois virão outras.”
O RMM integra também o Paddock Café, que Fabio Muner espera se torne um ponto de encontro privilegiado para os fãs assistirem, num ecrã gigante, a qualquer competição de um Campeonato do Mundo FIM que esteja a decorrer no próprio dia da visita. “Vamos transmitir todos os eventos reconhecidos pela FIM, seja MotoGP, Endurance, MXGP, etc., todos os fins de semana”, afirma Fabio.
“Temos um parque de estacionamento grande, com muito espaço para motos, por isso as pessoas podem vir aqui de moto, tomar o pequeno-almoço enquanto veem os treinos de aquecimento na televisão, e depois partir para desfrutar das magníficas estradas do Jura, aqui ao lado, antes de regressarem a Mies ao final da tarde para ver o resumo das corridas que perderam. Esperamos também que este espaço se torne uma paragem de eleição para motociclistas em viagem por toda a Europa Central.”
Fiquemos com as palavras finais do Presidente da FIM, Jorge Viegas, sobre este novo e significativo projeto:
“Com uma história tão longa e rica, é extremamente entusiasmante que o motociclismo de competição tenha agora uma casa permanente no Racing Motorcycle Museum, onde o seu legado pode ser celebrado e apreciado por visitantes de todo o mundo”, afirma. “Tanto conhecimento, experiência e paixão foram investidos na curadoria das peças que compõem esta coleção de classe mundial, cuidadosamente reunida para criar um recurso histórico e educativo sem paralelo, que estou certo será inestimável para as gerações futuras.”
Que assim seja!
Abaixo pode ver imagens da exposição e o vídeo da inauguração.
O Museu da FIM está aberto das 10h às 18h, de quarta-feira a domingo, e os bilhetes têm um custo de 19 € para adultos, sendo a entrada gratuita para crianças com menos de 16 anos.
A morada é:
Racing Motorcycle Museum
Route de Suisse 11b1295 MIES ‑Tannay - Suíça
Email: contact@fim-rmm.com
Website: www.fim-rmm.com
Nota: A viagem de comboio a partir do Aeroporto de Genebra, um hub da EasyJet, demora cerca de 30 minutos, e a estação de Mies fica a apenas dois minutos a pé do Museu.
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