Indian Chief Dark Horse - A viagem de cavalo negro
Uma epopeia de 700 quilómetros pelas curvas da EN2, aos comandos de uma moto que não deixa ninguém indiferente.
andardemoto.pt @ 1-9-2015 14:20:39
Texto: Rogério Carmo Foto: ToZé Canaveira
Nem uma escadaria para o céu, nem uma autoestrada para o inferno. Prefiro um serpenteante tapete de veludo negro que deambule entre aromas e ventos e me leve onde ele quiser ou então até onde eu conseguir. Ou lá perto. Ou, quem sabe, ainda mais longe. Ir e voltar está sempre nos planos, mas nunca existe qualquer confirmação. Importante mesmo é a diversão.
Um trajecto cercado por paisagens diversas, entrecortadas por rios, ribeiras e riachos que também eles serpenteiam entre relevos geográficos, é apenas uma parte da diversão. O ronco de um motor potente que responda instantaneamente ao punho direito, é o outro prato de uma balança que equilibra os meus sentidos.
A cada tanto uma paragem. Um cigarro, uma conversa, um refresco ou apenas um momento de contemplação da paisagem. O ritual é sempre o mesmo. Desligar a chave, tirar as luvas e o capacete, atirar com o descanso lateral, esticar as pernas, ou as costas!
Longe de tudo, um pássaro canta para alegrar o silêncio. A madeira crepita sob a torreira do sol, em resposta aos estalidos metálicos da moto negra que arrefece na berma da estrada.
O enorme cão preto que ladrava em pressentimento de algo para correr atrás, está agora calado, e tal como eu, a olhar para aquela moto negra, voluptuosa, tão pesada quanto ágil, tão deslumbrante quanto inquietante. Tal como a moto, tão tranquilo naquele momento, e tão excitado momentos antes, o cão fareja. Para além dos restos de gases de escape pouco mais tem para farejar. Aviso-o mentalmente que se tentar alçar a perna se vai arrepender!
Num devaneio mental comparo ambos. Ambos negros, ambos grandes e possantes, ambos fiéis e prontos para correr. Uma questão surge-me, estúpida mas pertinente: se a moto é a evolução artificial do cavalo, qual virá a ser a evolução artificial do cão? Ou já existe?
Um ronco surge na última curva da estrada e corta-me o pseudo-raciocínio. Uma moto aproxima-se. Não trás cão a correr atrás! O ronco definha e a moto pára. Um sorriso cai de dentro de um capacete:
- Boas! - Boas! - Linda! (diz o recém chegado, apontando para a moto negra parada na berma da estrada) - Ya! - Qual a cilindrada? - 1800! - Dassssss! Gasta Muito? - Nem por isso! (reparei no trejeito tipo: Ya pois… deves!) - Indian? É nova? - Sim. Modelo 2016! - É m’ta Linda! - Ya! (pensei vaidoso). - Vais‘pa Góis? - Vou. - ‘Ganda seca não? - Porquê? - Tantas curvas e isso não tomba nada! - Tomba pois! - Mas não curva nada! - Curva sim! (reparei novamente no trejeito tipo: Ya pois… deves!) - Vens de Lisboa? - Sim! - Eichhh! Valente! Eu tenho uma do género mas é só p’às voltinhas! Parte-me todo! (sorri) 'Pra viagens maiores uso esta! (e olhou enternecido para a sua Mega Trail cheia de malas e GPS e todo o catálogo de acessórios da marca). - Sim, percebo-te! (ainda tentei argumentar) Mas não é a mesma coisa! - É pois! E chego muito mais depressa e menos cansado! - Sabes? (disse-lhe) tenho um amigo que costuma dizer que o último a chegar é o que anda mais tempo de moto! (ele sorriu) - Bem pensado! (breve silêncio) O cão é teu? - Não (respondi incrédulo pela pergunta algo descabida) - Mas olha que fica bem com a moto! (risos) Olha, vou andando… Parabéns pela tua moto! É m’ta gira! Felicidades!
Aproveitei o silêncio e a ausência de distracções para contemplar a paisagem. Refresquei-me no azul do céu, inspirei o cheiro dos pinheiros e dos eucaliptos e do mato circundante e retratei o momento para a posteridade. Ao longe percebi novo ronco de motos que se aproximavam. Sem pachorra para mais conversas sobre motos incompreendidas enfiei o capacete, dei arranque e parti ainda antes que o ronco chegasse à última curva da estrada.
Uns quilómetros depois vejo o vulto negro do grande cão perseguidor de motos. Vinha feliz de cauda erguida e língua de fora. Quando me viu sentou-se, num claro sinal de quem por falta de forças resiste à tentação. Atirei-lhe um “V” e pareceu-me vê-lo sorrir! Concentrei-me na condução e juntos, eu e o meu cavalo negro, continuámos o nosso bailado nas curvas, e passado uns quilómetros, lá ia o nosso homem da Mega Trail cheia de malas e GPS e todo o catálogo de acessórios da marca. Ao passá-lo atirei-lhe também um "V", mas não me pareceu vê-lo a sorrir.
Nota:
Esta Indian Chief Dark Horse, que tive oportunidade de conduzir durante cerca de 1000 km, grande parte dos quais nas curvas da EN2, foi uma grande e agradável surpresa. Não digo isto apenas por dizer. Uma Cruiser não seria nunca a minha primeira escolha para uma deslocação de mais de 750km por uma estrada retorcida. Como dizia o outro, as experiências que já tive com este tipo de motos em percursos de mais de 70/80 km deixaram-me sempre “todo partido” e requereram sempre muito tempo, gasto sobretudo em paragens para recuperar as dores das costas e do seu fundo. Mas esta “cavalo negro” portou-se muito bem.
Fosse ao nível do conforto, com destaque para os amortecedores traseiros que absorvem com a maior compostura os maiores buracos e ressaltos da estrada, fosse ao nível da posição de condução, fosse (ainda mais importante) pelo ritmo a que se consegue andar em estradas de curvas, algumas bastante retorcidas, esta moto e sobretudo este dias que pude privar com ela, vão-me ficar gravados no lado bem da memória.
Derivada da Indian Chief, com apenas algumas alterações quase de pormenor e acabamento (se bem que esta versão do motor Thunderstroke 111 não está equipada com radiador de óleo, e isso não é um pormenor), a Chief Dark Horse é um pouco mais leve que a versão base, mas na sua essência, posição de condução à parte, é em tudo semelhante. A grande altura ao solo e o bom comportamento da suspensão permitem um ritmo muito alegre em qualquer estrada de curvas.
A travagem também se confirmou bastante eficaz, com o travão traseiro a garantir uma boa redução da velocidade (como é típico neste género de motos por permitir uma condução relaxada e menos exigente fisicamente, sobretudo para quem optar por guiadores mais elevados, que pode facilmente conduzir sem ter que frequentemente usar a manete do travão), mas com o dianteiro a ser também bastante eficaz (o que já não é tão frequente neste mesmo género de moto). Neste capítulo porém há lugar para uma nota negativa, para o ABS, que aparenta ser de uma geração bastante antiga por ser demasiado intrusivo, demorando muito tempo a reagir. No entanto, e como é normal, também só se dá conta dele quando manifestamente se abusa na travagem (ou na velocidade) em pisos mais escorregadios.
E depois o motor... A sua disponibilidade e elasticidade promovem uma resposta rápida na saída das curvas, com uma sonoridade verdadeiramente deliciosa, sem dissonâncias ou reverbações, e sem se notarem vibrações parasitas e, sempre, sempre com o enorme binário a empurrar-nos para a frente sem qualquer tipo de esforço. A caixa de velocidade é precisa, e as mudanças fazem-se com suavidade, sendo o ponto morto fácil de encontrar, mesmo a frio, e mesmo parado.
O guiador permite afinação, conforme o gosto ou conforme a necessidade, e o assento é largo e confortável, baixo e bem desenhado, garantindo um encaixe perfeito na moto. Os espelhos retrovisores são funcionais, isentos de vibração, garantindo uma boa visibilidade. A iluminação é boa, os comandos estão bem colocados, excepção feita ao comutador de máximos/médios que sofre do mesmo defeito de ergonomia da maioria dos comutadores de máximos/médios da maioria das marcas, sendo muito afastado, obrigando a largar o punho para se conseguir que o polegar lhe toque.
Mas o controlo automático de velocidade (Cruise Control) funciona perfeitamente, estando bastante acessível e apenas com um simples toque do polegar. As plataformas dos pés são espaçosas e estão muito bem colocadas e (como já disse mas nunca é demais repetir) bastante afastadas do solo. Quem quiser ter uma boa desculpa para andar sozinho não deve referir que a Dark Horse, apesar de ter apenas assento para o condutor, está homologada para dois ocupantes, sendo apenas necessário comprar o segundo assento e os respectivos poisa-pés.
Para saber mais sobre esta moto que não deixa ninguém indiferente e que, em qualquer lugar onde para, atrai atenções e conversas, então clique aqui para consultar o nosso catálogo.
andardemoto.pt @ 1-9-2015 14:20:39
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