Teste Yamaha Ténéré 700 - Memórias do Dakar

Uma moto de perfil aventureiro herdeira de uma linhagem que definiu a aventura em duas rodas.

andardemoto.pt @ 21-5-2019 08:10:00 - Texto: Pedro Pereira

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Yamaha Ténéré 700 | Moto | Moto

Era impossível resistir ao convite da Yamaha Portugal, para assistir à apresentação internacional de uma das mais aguardadas motos de média cilindrada dos últimos tempos! 

Saber que essa moto era de perfil aventureiro e herdeira do espírito Ténéré só veio aumentar o meu desejo de estar presente e partilhar com os nossos leitores as minhas primeiras impressões, num ensaio dinâmico que se revelou extenso e mais do que suficiente.

O mesmo teve lugar no país vizinho, mais concretamente na região de Tortosa, na província de Tarragona, comunidade autónoma da Catalunha, uma zona que reúne todos os requisitos para testar esta moto, nomeadamente locais quase desérticos, estradas de montanha, praias, trilhos técnicos… um pouco de tudo!


Efectivamente tive oportunidade de percorrer cerca de 500 quilómetros nas mais variadas condições que me permitiram traçar um quadro bastante claro sobre esta aventureira com espírito do deserto, que nitidamente convida à evasão. Apenas faltaram à chamada a chuva e a lama para se perceber um pouco mais das reais capacidades desta moto e dos respectivos pneus, mas não se pode ter tudo, e comer um pouco de pó também não faz mal a ninguém…

Não há segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão, e nisso a Yamaha Ténéré 700 passou o exame com distinção. Olhando para a moto, de frente, de perfil ou de traseira, rapidamente se percebe que ali há genes de Dakar, de superação e até de sacrifício, mas no bom sentido da palavra.

A moto afigura-se esguia e alta, mas sem exageros. Para os meus 1,74 metros, a altura do assento standard ao chão está perfeita. Os 24 centímetros de altura livre ao solo garantem uma boa dose de segurança, mesmo nos trilhos mais complicados e, acreditem, ela foi mesmo posta à prova durante estes dias, até com alguns saltos!


A posição de condução é agradável e natural, com os braços ligeiramente abertos, e convida a andar de pé, mais ainda se removermos os apoios de borracha dos poisa-pés que permitem ganhar aderência nas botas. Nessa posição apenas a zona do depósito é ligeiramente mais larga que o desejável, mas nada que comprometa o equilíbrio geral da moto e a sensação de controlo quase absoluto.

O painel de instrumentos, situado bem à frente dos nossos olhos, tem a informação essencial, mas podia ser mais visível, nomeadamente em situações de incidência de luz solar direta, e ter carateres um pouco maiores, para quem for um pouco pitosga.

Devido à concepção espartana, ninguém espere encontrar um ecrã TFT de última geração, mas o que existe tem tudo o que faz falta no mundo real: luzes indicadoras, contadores, taquímetro, médias de consumo, temperatura, mas tudo em modo monocromático… o acesso à diversa informação faz-se por um pequeno gatilho situado no punho direito ou diretamente no painel de instrumentos.

Também ninguém deve esperar encontrar muitas mordomias electrónicas, pois não é essa a filosofia (nem a lógica de custos) do modelo. Apenas há ABS (muito suave, por sinal) que disponibiliza apenas duas posições: on e off. Nem sequer existe a possibilidade de manter o sistema activo na roda da frente e desligado atrás, algo que seria muito útil no fora de estrada, sobretudo em caminhos mais técnicos, com pisos mais escorregadios e duros, como os que encontrei nesta apresentação.

A caixa de velocidades permite explorar bem o motor, mas não faz milagres. O CP2 é um belo motor, quase isento de vibrações, mas os valores de potência (cerca de 72 cv às 9000 rpm) e um binário de 68 nm às 6500 rpm ficam um pouco aquém do que a concorrência oferece. No entanto não desiludem, mesmo numa condição mais animada. Quando muito podem implicar usar mais a caixa e a embraiagem. No meu caso não gostei do pedal das mudanças por o achar um pouco curto, mas a embraiagem é leve e silenciosa.

Ainda sobre o motor, esse nosso velho conhecido das MT-07, foi trabalhado para este tipo específico de moto, sofrendo modificações ao nível de caixa do filtro de ar, caixa de velocidades, injeção, escape, mas continua a ter muito caráter e a ser algo pontudo, ou seja, a gostar bastante de rotação, facto que pode não ser do agrado de todos, mais ainda no fora de estrada onde se dá mais preferência ao binário que à rotação.


Por seu lado, as suspensões funcionam bem e em sintonia, mas a frente, para alguns, pode necessitar de alguma regulação ou até mais que isso, mas não tenham pressa. Antes de alterar o quer que seja, faz sentido um período de rodagem e adaptação.

Até porque a suspensão dianteira é totalmente regulável e 2 ou 3 clicks fazem logo uma grande diferença. Já o acesso à regulação da suspensão traseira exige algum trabalho, mas nada de contorcionismo exagerado.

Os travões são suaves, mas potentes (obrigado Brembo) e combinam muito bem com o quadro, que ajuda a um comportamento são e divertido de todo o conjunto, na estrada e, também fora dela, ou em alcatrão de má qualidade que Espanha também tem com fartura!

A medida das jantes de 18 e 21 polegadas, na traseira e na frente , respetivamente, é ótima para sair do alcatrão e abre o leque de escolha de pneus, mas faz com que a dianteira perca alguma acutilância no asfalto (aqui uma roda de 19 polegadas faria melhor), mas nada de grave. As jantes são de raios e equipadas com câmaras de ar, nada de tubeless e, acreditem, a moto curva que se farta. Haja coragem e mãozinhas para tal! 

Nota positiva ainda para a ponteira de escape, de belo efeito sonoro, sem ser ruidosa, nem castrar o motor, e ainda para a efetiva proteção de cárter, para as generosas de proteções de mãos e os bem desenhados espelhos retrovisores que em nada interferem com a condução de pé. 

Quem se preocupar com os consumos (penso que todos nós, pois basta pensar nos preços da gasolina cá no burgo e comparar com Espanha, onde as diferenças chegam a superar os 20 cts/litro) é natural que consiga facilmente  valores próximo dos 4,5 litros/100km, anunciados pela marca, e conseguir autonomias aproximadas a 350 quilómetros, proporcionadas pelo depósito de 16 litros.

No meu caso, fruto de um motor ainda em rodagem e de alguns exageros, a média de consumo ficou ligeiramente acima dos 5,5 litros/100km, mas a contenção não foi muita, nem pretendia ser! De qualquer modo, se os consumos forem A prioridade, talvez não seja esta a moto mais adequada. É económica, mas não são de esperar recordes de consumo.

Infelizmente, não me foi possível testar 2 aspetos importantes para muitos consumidores, onde eu próprio me incluo: a iluminação e a condução com pendura. No primeiro caso será importante avaliar como funcionam os leds em condução noturna. E depois andar com passageiro/a é também importante para muitos, e fico expectante sobre o conforto que esta moto irá proporcionar, dada a pouca densidade da espuma do assento do pendura.

Existem 3 cores à escolha: Ceramic Ice (predomina o azul), Competition White (branco e vermelho) e Power Black (abunda o preto). Inicialmente a minha cor favorita era o ice, mas no final acabei dividido entre o branco e vermelho. Parece que tenho 2 amores e não tenho a certeza de qual eu gosto mais.

De entre um vasto leque de extras (incluindo 2 packs - Rally e Explorer) destaque também para a bonita ponteira de escape Akrapovic, apesar de eu pensar que o seu preço pode ser melhor investido num kit de rebaixamento (banco e bielas) para os de estaturamais baixa, num banco mais alto se forem de estatura mais alta, ou proteções ou até mesmo em punhos aquecidos…

Em suma, a primeira impressão da Yamaha Ténéré 700 pode resumir-se numa só palavra, independentemente das considerações de natureza técnica ou estética: FÀCIL. Muito fácil! Escandalosamente fácil, mesmo para quem não tenha muita experiência de fora de estrada. Ao fim de meia hora já parece uma velha conhecida, tal a confiança que inspira!

A quem recomendo a Ténéré 700?

Pois primeiro, aos que vão utilizar a moto diariamente, ou quase, para ir trabalhar, e que apenas a usarão de forma mais intensa nas férias, seja em voltas a solo ou a duo, com pequenas saídas do alcatrão… esses têm na nova Yamaha Ténéré 700 uma excelente escolha que pode ser enriquecida com alguns extras, tipo a topcase, punhos aquecidos, etc.

Depois aos viajantes por excelência, os também conhecidos por globetrotters, que vão apreciar esta moto pela sua ligeireza e facilidade de condução, e que vão querer certamente extras como as malas laterais, descanso central, proteção de radiador, proteções de motor e talvez até um ecrã mais alto, embora o original seja bastante efetivo, mesmo a velocidades acima dos 120 km/h. Claro que mais peso representará pior performance por parte do “pequeno” motor.

E por último, recomendo-a aos que querem uma moto para um uso mais intensivo e radical fora de estrada, e que não vão ficar defraudados com as reais capacidades da nova Ténéré. Podem até mudar os pneus (apesar de os Pirelli Scorpion Rally darem boa conta do recado), alterar suspensões, colocar uma proteção de cárter maior, um assento mais alto, outras proteções de mãos, uns “acrescentos” na base do guiador e, talvez até, encurtar a transmissão final (15-46 de origem) para espicaçar o motor. Quanto ao peso, ele está lá e sente-se! São cerca de 200 kg e há momentos em que se tornam demasiado presentes, para alguns até provavelmente mais do que o desejado!


Do lado da razão temos uma moto com um preço contido (pelo menos na fase de lançamento, até 31 de julho, em que o preço está ali juntinho à barreira psicológica dos 10.000€), paga IUC num escalão intermédio (próximo dos 60 euros), permite andar no asfalto e fora dele (com inevitáveis cedências nos dois ambientes, mas sem comprometer em nenhum), motor mais que testado e fiável em que até as operações de manutenção mais complexas e onerosas, tipo afinar válvulas, estão previstas a intervalos de 40.000 km, quando muitas concorrentes o exigem logo aos 20.000 km!

Em termos mais emocionais, esta é uma moto que desperta sorrisos com uma grande facilidade. Para muitos bastará sentar-se no assento (bem confortável para o condutor, por sinal), recolher o descanso (uma bonita peça em alumínio, esperemos que robusto) e carregar na ignição, que o ronronar é logo alegre e contagioso. Depois de 5 ou 10 minutos de estrada ou fora dela a moto revela-se uma inesgotável fonte de prazer.

Naturalmente que, no meio de tanta sensação boa, nem tudo é perfeito, nem podia ser, mais ainda nesta gama de preços, mas são pormenores que não mancham ou comprometem o equilíbrio do conjunto.Para ser uma moto (ainda) mais eficaz, e ao mesmo tempo divertida e brincalhona, teria sido fantástico baixar um pouco o centro de gravidade (o motor está em posição bastante elevada). 

Também a acessibilidade mecânica poderia ser melhorada (deixei essa sugestão aos técnicos japoneses, já que estávamos perante motos de pré-produção): por exemplo, para aceder ao filtro de ar, é necessário retirar o assento do pendura, onde está uma chave sextavada, para com ela se retirarem dois parafusos para remover o assento do condutor, e depois desapertar mais 4 parafusos para retirar uma tampa que cobre a caixa do filtro de ar, e ainda mais um para, finalmente, se poder retirar o elemento filtrante.

É demasiado para uma moto com reais capacidades para andar fora de estrada. Por isso espero sinceramente que o sistema seja melhorado nas motos de produção.

Em resumo e enquanto a Yamaha Ténéré 700 não chega ao nosso mercado, podem ter a certeza que é uma moto bem nascida e criada, que os cerca de 3 anos de desenvolvimento desde a sua apresentação foram bem aproveitados e que vai dar grandes alegrias, sobretudo aos que tiverem um espírito mais aventureiro, mesmo que esteja entorpecido e à espera de uma boa razão para despertar.

Sobretudo porque não se trata de uma moto de extremos: nem de potência (até existe em versão A2 para os recém encartados), nem de tecnologia. É antes uma moto de um equilíbrio notável e uma facilidade de condução desconcertante, que vai seguramente fazer mossa num segmento pleno de novidades e poderosas adversárias.

Até porque a Ténéré 700 nos brinda com memórias do Dakar, que a tornam verdadeiramente irresistível.

Equipamento

Neste teste usámos o seguinte equipamento de protecção e segurança:


Equipamento visível:

  • Camisolas/jersey Alpinestars e Scott
  • Calças Troy Lee Designs

Equipamento não visível:
  • Colete integral de duas peças Acerbis
  • Joelheiras EVS 
  • Calções de proteção Fox
  • Meias Thor

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