Teste Suzuki Katana - Performance acutilante

Um modelo que representa a história de sucesso da marca de Hamamatsu, e que vem reivindicar um merecido lugar no segmento de mercado das motos neo-clássicas

andardemoto.pt @ 29-7-2019 16:30:27 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Rui Jorge

As motos neo-clássicas estão cada vez mais na moda, e as marcas, desde que possam, não perdem tempo a lançar novos modelos inspirados em antigos marcos históricos do motociclismo, daqueles que fazem sonhar com os “bons velhos tempos”.

Seja americana, europeia ou inglesa, nenhuma marca com um mínimo de pergaminhos resiste à tentação de evocar a sua história, chamando a atenção dos motociclistas mais nostálgicos.

Foi em 1981 que a Suzuki apresentou ao mundo a (então futurista) GSX1100S Katana, uma moto agressiva, com um estilo muito próprio e uma performance acima da média, que se veio a revelar um estrondoso sucesso de vendas e um alicerce fundamental para a reputação da marca, em todo o mundo.

Inspirada no modelo original, a Suzuki apresentou em Milão, na EICMA, em 2017, o protótipo da nova Katana, uma “naked” clássica moderna desenhada por Rodolfo Frascoli, um designer bem conhecido no mundo das motos, por criações espectaculares como a VR46 MYA, a “Flat Tracker” de Valentino Rossi, a Moto Morini Corsaro 1200 ZZ, a Triumph Tiger Sport 1050 ou a Bajaj Dominar 400, isto para não falar noutras motos icónicas como a Moto Guzzi Griso ou a Vespa Granturismo.

A Katana actual tem linhas inspiradas no design da moto original, num misto de modernidade e futurismo, com traços clássicos imediatamente reconhecíveis, resumidos na farol quadrado e na traseira elevada, com um resultado final que dificilmente passa despercebido pela sua silhueta facilmente reconhecível.

Tecnologicamente, a Suzuki Katana de 2020 assenta na base da GSX-R 1000 produzida entre 2005 e 2008, mas o motor “4 em linha” de dupla árvore de cames à cabeça (DOHC) com uma cilindrada de 999cc, que debita uns confortáveis 148cv de potência, foi alvo de pequenas modificações para garantir uma melhor e mais suave resposta ao acelerador.

Para facilitar a tarefa a motociclistas menos experientes, a Suzuki equipou a nova Katana com o seu sistema “Low RPM Assist”, que torna quase impossível deixar o motor “ir abaixo” no arranque ou em manobra, já que automaticamente regula o acelerador para o regime necessário. Para melhor pactuar com as exigentes normas anti-poluição, o sistema de refrigeração conta agora com um permutador óleo por líquido.
Este sistema, mais compacto, permitiu a recolocação da linha de escape 4-2-1 e a sua optimização para, a par com a nova válvula de contra-pressão, conseguir um binário mais forte nos regimes intermédios.

Para ajudar a digerir a cavalagem em pisos menos aderentes, a Suzuki instalou na Katana um sistema de controlo de tracção, regulável em 3 níveis de intervenção, que podem ser facilmente seleccionados em andamento.

O quadro extremamente leve (com um peso equivalente ao das GSX-R 1000 actuais) contribui para uma grande agilidade e o braço oscilante é originário das GSX-R 1000 de 2016, garantindo um excelente desempenho da suspensão, que por sua vez se reflecte na capacidade tracção.

A suspensão conta com uma forquilha invertida KYB, completamente regulável, com 43mm de diâmetro e um curso de 120mm, com uma afinação desportiva, mas sem ser demasiado castigadora, assim como o amortecedor traseiro que também conta com regulação de pré-carga e extensão.

Na travagem, encontramos material de fricção Brembo, com dois discos de 320mm de diâmetro, na frente, mordidos por pinças monobloco de aplicação radial, de quatro pistões, semelhantes às que actualmente equipam as desportivas GSX-R 1000. O obrigatório ABS tem como cérebro uma unidade Bosch.


As rodas de 17 polegadas foram redesenhadas, apresentando uma construção em alumínio fundido, de seis braços, que calçam pneus tubeless Dunlop Roadsport 2, especificamente desenhados para a Katana, de medidas 120/70 na frente e 190/50 na traseira.

A ergonomia foi revista para uma condução despreocupada, de cabeça elevada e muito confortável, com o assento a uma altura muito aceitável que, a par com a linha de cintura estreita, favorece os condutores de baixa estatura. A iluminação é integralmente feita por LED.

Quanto à protecção aerodinâmica, ela é superior à de uma convencional moto “naked” já que a carenagem frontal e o ecrã que cobre o painel de instrumentos, apesar de minimalistas, garantem alguma protecção ao nível do peito, permitindo algum conforto a velocidades máximas bastante acima do normal para uma moto deste tipo.

O painel de instrumentos, em LCD negativo, apresenta-se bastante legível, de consulta fácil, e inclui a informação necessária para qualquer viagem tranquila, indicando médias de consumo, o nível de combustível, a mudança engrenada, a selecção do controlo de tracção, dois contadores de quilómetros parciais, relógio, e cronómetro. O regime de motor (taquímetro) é representado por uma barra gráfica num desenho bastante bem conseguido.

Como é que tudo isto se traduz na prática?

Basicamente a Katana é uma moto simples, descomplicada, capaz de inspirar muita confiança logo a partir do momento que se dá ao motor de arranque, e mesmo a ritmos elevados onde mostra uma performance verdadeiramente acutilante, como o fio da lâmina da espada japonesa que lhe dá o nome e a inspiração.

Mas a Suzuki também equipou a Katana com o seu sistema de arranque “Easy Start” que permite que o motor entre em funcionamento praticamente sozinho, bastando dar apenas um ligeiro toque no botão de Start, e sem ser necessário apertar a manete da embraiagem desde que a caixa de velocidades esteja em ponto morto.

A preocupação com a facilidade de condução verifica-se também na caixa de velocidades que se mostra leve e suave, engrenando as mudanças com muita precisão, num curso muito reduzido do pedal.

O motor responde com uma serenidade impressionante e potência suficiente para permitir rolar muitos quilómetros apenas na sexta velocidade. Tal como é apanágio dos tetracilindricos, na metade inferior do regime de rotação a resposta ao acelerador é dócil, enquanto que na metade superior da faixa de regime a resposta é contundente e a subida de rotação é muito rápida.

A total ausência de vibrações e a sonoridade forte mas bastante civilizada, a facilidade com que muda de direcção e a resposta do motor ao acelerador  contribuem para uma experiência de condução muito gratificante.

A suspensão mostra-se firme na entrada em ângulo, mantendo o conjunto estável, mesmo quando o andamento sobre para ritmos já pouco aconselháveis em estradas públicas, mas a sua afinação desportiva fica um pouco prejudicada tanto em termos de conforto como em termos de aderência em pisos mais degradados.

Os travões mostram-se potentes, apesar de a sensibilidade da manete e do pedal não ser tão grande quanto seria de esperar, provavelmente devido ao equipamento hidráulico não ser Brembo, não estando por isso ao mesmo nível do material de fricção. 


Em termos de qualidade de construção, e além do equipamento já referido, a Suzuki fez um excelente trabalho, dotando-a de pormenores interessantes como o suporte de matrícula incorporado no braço oscilante ou o assento em dois tons, e de acabamentos cuidados.

 O contacto que tive com a Katana, proporcionado pelo importador Suzuki para Portugal, a Moteo, foi escasso, reduzido a apenas um par de horas e a menos de uma centena de quilómetros, pelo que tenho algumas limitações nesta avaliação. Gostava de ter podido conduzir à noite, para avaliar a eficácia da iluminação.

Tampouco tive oportunidade de confirmar os consumos, um pouco curioso para saber quantos quilómetros se conseguem fazer entre abastecimentos, já que o depósito da Katana apenas tem capacidade para 12 litros, e muitas vezes o computador de bordo indicou consumos bastante elevados, apesar de em recta, em sexta, a uma velocidade de 90km/h, o painel revelar valores na ordem dos 5,5 l/100km.

Tampouco tive oportunidade de abastecer, ou de andar com pendura, ou de me sentar numa esplanada a olhar para ela. Mas posso afirmar que, em termos de condução, a Katana resulta bastante agradável e confere muita confiança.

No entanto, tendo em conta o seu preço e as suas pretensões, precisava, sem sombra de dúvida, de um quickshifter integral, para uma experiência ainda mais prazenteira, de um acelerador electrónico, que permitisse uma regulação da entrega de potência, assim como uns pneus com características mais desportivas, que potenciassem a travagem (e o respectivo desempenho do ABS) e a velocidade de passagem em curva, para poder ser realmente desfrutada.

 Fico aguardar uma nova oportunidade, mas com uma grande dúvida: Que cor escolheria? A Preta ou a Cinzenta?

Equipamento

andardemoto.pt @ 29-7-2019 16:30:27 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Rui Jorge