Teste Aprilia Tuono 660 - O poder do trovão de Noale
A Aprilia volta a aventurar-se nas naked de média cilindrada. O regresso a este segmento faz-se com a nova Tuono 660, uma naked com genes de desportiva mas que ao mesmo tempo é confortável.
andardemoto.pt @ 10-5-2021 18:50:49 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte
Sendo
eu um fã dos modelos desportivos, a nova Aprilia RS 660 é uma das motos que
claramente não me importava de ter na minha garagem. Tudo nesta moto faz
sentido, e nem mesmo o preço será capaz de me fazer pensar o contrário.
Quando tive a oportunidade de a testar em Itália, durante a apresentação
mundial que decorreu no final de 2020, fui informado de que no início de 2021
teria a oportunidade de testar a variante naked Tuono 660.
Desde esse momento que a minha mente desejava poder absorver tudo aquilo que
senti na RS, mas desta feita usufruindo de uma posição de condução ainda mais
confortável. A oportunidade para testar a Tuono 660 – n.d.r.: Tuono quer dizer
trovão em italiano – finalmente chegou quando o importador da Aprilia, a
Officina Moto, ligou-me a dizer que a primeira unidade deste modelo estava
agora disponível para testar em solo nacional.
Se o caro leitor teve a oportunidade de ler o meu teste à RS 660 – se não teve pode clicar aqui para o ler –
já estará bem informado das características técnicas da nova Tuono 660.
Sim, eu sei que são dois modelos diferentes. Mas no entanto a plataforma em que
se baseiam é a mesma, embora com ligeiras diferenças.
Por isso, e em vez de me focar naquilo em que são tão iguais, prefiro focar a
minha (e a sua) atenção nas diferenças que tornam a nova Tuono 660 num dos
modelos mais interessantes de toda a gama Aprilia, na moto que se adapta a
todos os tipos de condutor, provocando os mais experientes a chegarem ao seu
limite, e que ao mesmo tempo vai crescer juntamente com os motociclistas menos
experientes e que estão agora a passar pelas cilindradas intermédias a caminho
de algo mais potente.
Apesar do motor bicilídrico paralelo ser exatamente o mesmo daquele que equipa
a RS, no caso da Tuono 660 a Aprilia optou por trabalhar um pouco mais a nível
da injeção. No caso da naked isso resulta numa potência ligeiramente inferior:
95 cv contra os 100 cv da RS. Mas os 67 Nm de binário permanecem inalterados! E
isso, aliado a uma transmissão mais curta, permite que a Aprilia Tuono 660
ofereça uma aceleração mais contundente e seja mais divertida nas estradas de
serra retorcidas.
O som que emana das ponteiras escondidas debaixo do motor é absolutamente
divinal! A fazer lembrar um V-twin devido à cambota com ordem de ignição de 270
graus, o som da Tuono 660 condiz na perfeição com o seu nome: um trovão!
O motor empurra o conjunto de 183 kg com extrema facilidade para lá das
velocidades impostas pelo Código da Estrada. Em qualquer um dos modos de
condução – e temos três modos de estrada e dois de pista à escolha – o motor
sobe de rotações de forma vertiginosa. Talvez abaixo das 4.000 rpm tenha uma
resposta menos acutilante do que algumas naked de média cilindrada menos
potentes.
Mas assim que chegamos às 4.000 rpm o som do motor torna-se ainda mais vincado
e os 67 Nm passam para o asfalto de forma impecável, cortesia do braço
oscilante assimétrico, e que pela primeira vez na história da Aprilia está fixo
diretamente ao motor, que maximiza a tração conferindo à Tuono 660 uma
capacidade de aceleração à saída das curvas que deixará qualquer motociclista
de sorriso nos lábios.
Alguns motores bicilíndricos de média cilindrada tornam-se um pouco ásperos de
explorar quando levados até regimes mais elevados. Mas isso não acontece com o
dois cilindros da Aprilia.
Sente-se confortável, com os pulmões sempre cheios de oxigénio, prontos a
expirar tudo e elevar a diversão para um patamar superior.
É um motor polivalente, pois sente-se igualmente confortável em ambientes
urbanos e mantendo um consumo de apenas 4,5 litros, como se deixa levar como um
pequeno diabinho numa estrada de curvas fazendo frente a motos de maior
potência. E isso também se deve, claramente, ao acerto quase perfeito do
chassis italiano.
Se há alguma coisa pela qual temos de dar os parabéns aos engenheiros da
Aprilia, desde há muitos anos, é à sua capacidade de criarem uma ciclística
que, não escondendo os seus genes de competição, se revela sempre muito
acertada e equilibrada numa utilização em estrada. E no caso da Tuono 660 isso
não é diferente.
O quadro dupla trave em alumínio mostra-se capaz de aguentar os esforços sem se
“torcer” todo quando pedimos mais do conjunto. A estabilidade proporcionada
pela estrutura que utiliza o motor bicilíndrico como elemento de reforço é
equilibrada, sendo de notar que o motor tem apenas dois pontos de fixação às
traves em vez de três pontos como na RS, o que contribui para um comportamento
mais neutro e confortável.
Mesmo tendo em conta que estamos a falar de uma naked (sim, embora com uma
pequena carenagem dianteira, esta ainda é uma naked), a alta velocidade não
deixa de impressionar a certeza da direção e facilidade com que a Tuono 660 se
deixa levar para as trajetórias mais fechadas.
O comportamento intuitivo da Tuono 660 também se deve às pequenas alterações ao
nível da direção em comparação com a RS.
No caso da naked, a Aprilia instala mesas de direção inferior e superior que
alteram ligeiramente o ângulo da forquilha Kayaba. E depois temos o guiador ao
melhor estilo “streetfighter”, largo e elevado, que proporciona um controlo
excecional sobre a roda dianteira.
Para manter a Tuono na trajetória não é necessário adotar uma postura “full
racing”, até porque isso é mais complicado do que parece, pois o triângulo
composto pelas distâncias entre guiador / assento / poisa-pés foi bastante
alterado em comparação com a RS.
Principalmente ao nível dos poisa-pés, mais para a frente e para baixo, o que
por um lado garante uma postura mais descontraída das pernas, mas por outro
dificulta um pouco deitar o tronco sobre o depósito bem esculpido para nos
escondermos atrás do pequeno para-brisas dianteiro a alta velocidade.
O “hardware” das suspensões é virtualmente igual ao da RS. No entanto, a
Aprilia Tuono 660 utiliza uma forquilha Kayaba de 41 mm que permite a afinação
da pré-carga e extensão apenas na bainha direita. Contudo, e apesar de ser de
menor especificação, o conjunto de suspensões da Tuono 660 revela um
comportamento muito agradável, mesmo em pisos menos lisos.
As afinações de fábrica, um pouco mais suaves do que o exigido para um ritmo
mais desportivo, com a frente a baixar nas travagens mais fortes cortesia da
muita potência de travagem proveniente das pinças Brembo e discos de 320 mm,
complementam a rigidez do quadro, maximizando a agilidade do conjunto, tornando
todas as reações prevísiveis e permitindo assim antecipar e digerir qualquer
excesso.
Por diversas vezes, pois o teste a esta italiana foi realizado ainda nos dias
frios do início do ano, senti a traseira a escorregar enquanto o pneu Pirelli
Rosso Corsa II procurava colar-se ao asfalto frio, e antes do controlo de
tração intervir já eu estava a conseguir corrigir o derrapar da traseira pois
toda a ciclística transmite muita informação ao condutor.
E aqui temos de analisar o sistema eletrónico que acompanha a Aprilia Tuono
660. Ao contrário da RS 660, a Tuono não vem equipada de fábrica com a mais
evoluída plataforma de medição de inércia de seis eixos.
E o que é que isto significa? Significa que a naked não usufrui de uma
eletrónica tão precisa como a RS 660. Claro que podemos instalar a IMU como
opcional. Tal como o “quickshift” bidirecional. Foi aqui que a Aprilia
conseguiu reduzir os custos de fabrico da Tuono e criar o fosso de cerca de
1000€ que a separa da RS 660.
Em condução, o aPRC da Tuono 660 revela algumas limitações em termos de perceção
do momento em que deve intervir, e na rapidez e suavidade com que intervém.
Nota-se claramente que enquanto a eletrónica da RS intervém ainda antes de
podermos atuar sobre o acelerador, no caso da Tuono 660 estamos muito mais
dependentes da forma como rodamos o punho direito.
É uma moto mais analógica, se assim posso dizer, e menos digital. Mas será que
isso significa que o pacote eletrónico da Tuono é mau?
Nem por isso. Continuamos a ter diversos modos de condução que são rapidamente
selecionados através de um botão dedicado no punho direito. No punho esquerdo,
e tal como notei no teste à RS 660, o comutador é bastante grande e por vezes
ao usar a embraiagem (recordo que a Tuono não tem “quickshift” de série!)
liguei os máximos.
Mas é aí que encontramos os quatro botões que permitem ajustar as diferentes
opções do aPRC: mapa de potência do motor, efeito travão-motor, controlo de
tração, “antiwheelie” e ainda o ABS que não conta com função em curva devido à
ausência da IMU. Basta instalar esse opcional e o controlo de tração e ABS
passam a ser sensíveis ao ângulo de inclinação, sendo por isso mais eficazes.
De referir ainda que só com a IMU é que é possível ajustar de forma
independente os níveis de controlo de tração e o “anti-wheelie”. Será um extra
que recomendo vivamente adquirir.
Veredicto Aprilia Tuono 660
A posição de condução ainda mais confortável, aliada a um
conjunto que mantém todas as características dinâmicas muito positivas da RS,
torna a Tuono 660 numa das melhores motos que a Aprilia atualmente coloca à
venda nos concessionários.
O seu design moderno, a qualidade dos acabamentos e de construção, e os
pequenos detalhes como as muito reduzidas carenagens duplas fazem deste trovão
de Noale uma moto bem apetecível.
Com um pacote eletrónico menos evoluído do que a RS 660, isso traduz-se num
preço mais aliciante do que a sua irmã carenada. No entanto, a Tuono 660 ainda
se posiciona no topo da tabela de preços das naked de média cilindrada, o que é
algo a ter em conta, particularmente num segmento tão procurado e competitivo.
Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de proteção
Capacete – X-lite X803 RS Ultra Carbon
Blusão – REV’IT! Hyperspeed Pro
Calças – REV’IT! Orlando H2O
Luvas – REV’IT! Chevron 3
Botas – REV’IT! Mission
Galeria de fotos Aprilia Tuono 660
andardemoto.pt @ 10-5-2021 18:50:49 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte
Clique aqui para ver mais sobre: Test drives