Teste Voge 500DS - Uma trail acessível mas com caráter
O segmento das trail para carta A2 acaba de ganhar uma opção acessível mas cheia de caráter. Testámos a nova Voge 500DS e descobrimos uma proposta asiática com argumentos surpreendentes.
andardemoto.pt @ 17-6-2021 08:30:00 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte
Quando
em agosto de 2019 foi anunciado que a Loncin iria comercializar em Portugal a
sua marca “premium” Voge, muitos motociclistas terão ficado com a ideia que
esta seria apenas mais uma marca asiática a chegar ao nosso país.
Mas a Voge (ler “Vogue”, como a revista) faz parte de um dos maiores grupos
empresariais chineses, e através da Desmontron Portugal, a marca tem em marcha
um plano estratégico que irá elevar o patamar daquilo que pensamos que são as
motos asiáticas.
Quase dois anos após ficarmos a saber que teríamos a Voge em Portugal,
conseguimos agora testar aquela que é, até ao momento, a sua proposta topo de
gama: a 500DS.
Com um preço ajustado e que a posiciona num patamar bastante competitivo tendo
em conta aquilo que oferece de série, a 500DS que aqui testamos prepara-se para
impulsionar a Voge para outros voos, a nível europeu, mas principalmente em
Portugal, onde as trail média cilindrada têm obtido muito sucesso em termos de
vendas.
Se não tem estado atento ao mercado global, fique a saber que algumas marcas
europeias de renome têm apostado em parcerias com grupos chineses para o
fabrico de componentes, de motores ou até mesmo de motos completas.
Por exemplo, o grupo Loncin fornece a BMW Motorrad com motores bicilíndricos
para as F 900 R e F 900 XR. Mais recentemente assinaram um acordo com a exótica
MV Agusta, no qual recebem acesso ao motor tricilíndrico italiano, e em
contrapartida as novas MV de baixa e média cilindrada serão produzidas pela
Loncin. Serão no entanto desenhadas pela MV Agusta, claro.
Isto quer dizer que a Voge colhe os frutos destas parcerias com marcas
europeias, e assim apresenta uma gama reforçada de produtos “premium”. E isto
não é apenas teoria, pois a Voge passou mesmo à prática com a 500DS que se
revela uma trail acessível mas recheada de caráter para boas aventuras!
As suas dimensões colocam a nova Voge 500DS entre as propostas de maior
envergadura dentro do segmento trail média cilindrada. As proporções estão bem
conseguidas, as linhas modernas não escondem a sua semelhança com as Honda
CB500X ou NC750X (a cópia é a mais sincera forma de elogio, como se costuma
dizer), e todo o conjunto aparenta ser robusto de construção.
Até porque a Voge instala de série umas generosas proteções em forma de tubos
de aço que protegem toda a frente da 500DS. Isto permitirá desfrutar desta trail
“soft” em percursos de terra sem receio de estragar carenagens caso ocorra uma
queda. Até mesmo o motor ficará a salvo de danos.
A sensação de moto de porte maior continua quando nos sentamos aos comandos da
Voge 500DS. O assento largo e bastante confortável está a apenas 821 mm do
solo. Em conjunto com os poisa-pés bem posicionados proporciona uma posição de
condução descontraída, onde o guiador também ajuda, pois permite que os braços
adotem uma posição natural e sem esforço.
A posição de condução da 500DS é típica de uma trail. Com o tronco bem
vertical, permitindo que o condutor consiga visualizar a estrada mais à frente,
antecipando qualquer perigo. À frente do condutor brilha um esbelto painel de
instrumentos TFT a cores. Boas dimensões e muita informação disponível são as
suas maiores qualidades. Até permite conectar o nosso smartphone através de
Bluetooth, embora apenas forneça a indicação de chamada, não permitindo
controlar o telemóvel.
A vocação “premium” de uma moto nota-se nos detalhes. E se a iluminação “full
LED” já é uma característica que se torna cada vez mais comum, o mesmo não se
pode dizer da indicação de pressão dos pneus. Sim, a Voge 500DS, tal como as
trail de segmento superior (e outros preços!) inclui de série um valioso sistema
de monitorização da pressão dos pneus.
Ao nível do painel, a única coisa que podemos criticar são os números demasiado
pequenos para uma visualização imediata das várias informações, e o próprio
ecrã fica bastante exposto à luz solar e com isso os reflexos impedem a correta
visualização das informações durante o dia.
Com um breve toque no botão de arranque, rapidamente o motor bicilíndrico
paralelo de 471 cc acorda para a vida emanando uma sonoridade rouca, típica dos
motores com esta arquitetura. Primeira relação engrenada – aqui não há “quick shift”
que nos ajude – e rapidamente passamos para 2ª, 3ª... as trocas de caixa são
realizadas de forma rápida.
Demasiado rápida! Desde o primeiro momento que conduzimos a Voge 500DS
percebemos que a transmissão está demasiado curta. Em cidade, isso não é um
problema. Aliás, deixa rolar por entre o trânsito sem qualquer esforço e
permite que o condutor se concentre inteiramente na condução da 500DS sem se
preocupar em reduzir caixa para andar a baixa velocidade, pois o bicilíndrico
revela-se suave e reativo desde baixas rotações.
O maior problema está nos percursos extraurbanos, nas vias rápidas ou nos
percursos de montanha. Nestes cenários a 500DS rapidamente atinge um regime de
rotação elevado, demasiado elevado, com o motor a sentir-se em esforço. Em
autoestrada a 120 km/h parece que o motor já não tem mais para dar, quando na
realidade ainda tem bastante mais. Aliás, nas condições certas, a 500DS atinge
os 170 km/h.
No entanto esta não é uma trail para grandes correrias. É para ser explorada de
forma descontraída. Até porque assim maximizamos a excelente autonomia que
deriva dos consumos muito baixos! Neste teste conseguimos que a 500DS atingisse
uma média inferior aos 4,5 litros, o que tendo em conta que o depósito
transporta 17 litros, significa uma autonomia teórica bem perto dos 400 km.
Com 46,9 cv de potência e um binário que atinge os 40,5 Nm, este bicilíndrico
em linha é fácil de explorar. Não há modos de condução que permitam alterar o
seu caráter, mas isso nem é relevante numa trail que se mostra tão acessível e
até divertida de conduzir.
Como referi, o comportamento a baixos regimes é agrável e suave, e embora na
faixa entre as 6.000 rpm e as 7.000 rpm se sintam bastante vibrações,
principalmente nos poisa-pés e punhos, o motor que equipa a Voge 500DS recebe
nota positiva. De facto é uma pena que a transmissão seja tão curta.
Digo isto pois a ciclística da Voge 500DS está bem conseguida. O quadro tubular
revela uma rigidez e um equilíbrio assinaláveis para uma trail deste segmento.
A estabilidade em linha reta é muito boa, e aqui tenho de referir a boa
proteção aerodinâmica proveniente do pára-brisas ajustável em altura. Ainda que
não seja possível ajustar em andamento, o mecanismo é fácil de usar, desenroscando
o grande parafuso que se destaca na dianteira da 500DS.
Depois, chegados a uma estrada de curvas, os 205 kg de peso a cheio não se
notam de sobremaneira nos momentos de trocas de inclinação. A distribuição de
pesos bem conseguida permite que as suspensões Kayaba suportem facilmente as
transferências de massa nos momentos de travagem e de curva.
No momento de travagem, as pinças Nissin mordem os discos de 298 mm. Embora o
sistema de travagem, que conta com ABS da Bosch, cumpra com as necessidades de
uma moto trail que deve ser conduzida de forma descontraída, gostaria de
usufruir de um tato na manete mais progressivo, menos duro.
Já as suspensões Kayaba garantem um excelente amortecimentos dos impactos, com
uma afinação mais dura do que o esperado, o que permite inclinar o conjunto sem
sentir abanões, com a frente a manter-se estável na trajetória e o amortecedor
traseiro a trabalhar relativamente bem para garantir que o condutor sente a
tração na roda traseira.
Numa estrada de curvas a maior limitação que encontramos na Voge 500DS será a
reduzida altura ao solo, pois os poisa-pés estarão a raspar no asfalto
rapidamente, enquanto os pneus Pirelli Angel ST ainda têm muita margem de
borracha para gastar antes de atingirem o seu limite.
VEREDICTO
Inserida num segmento muito competitivo e onde os potenciais clientes procuram
qualidade a preços acessíveis, a Voge 500DS, nesta geração Euro 5, mostra-se
uma proposta com muito caráter e bons argumentos.
De série vem equipada com tudo o que podemos esperar de uma trail de média
cilindrada. Aliás, até inclui detalhes como a monitorização da pressão dos
pneus, algo que as rivais diretas não oferecem nem como opcional! O motor está
no limite da carta A2. Tem força e é generoso na forma como entrega a sua potência
e binário.
A Voge, no futuro, terá de pensar em alterar a transmissão, tornando-a mais
longa. Quando o fizer a 500DS será uma moto ainda mais agradável de conduzir.
Até porque a ciclística equilibrada e eficaz coloca esta trail como uma das
mais interessantes do segmento.
Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de proteção
Capacete Shark
Evo-One 2
Blusão Macna Mountain Nighteye
Calças REV’IT! Orlando H2O
Luvas Macna Attila RTX
Botas Gaerne G.Stelvio
Galeria de fotos Voge 500DS
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