Teste Yamaha MT-10 - A insustentável leveza do Binário

Mais potente, com mais electrónica e com um visual renovado, a Yamaha MT-10 está de volta. E mantém a capacidade de poupar o pneu da frente…

andardemoto.pt @ 6-6-2022 17:48:08 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

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Yamaha MT-10 | Moto | Hyper Naked

Começo este teste por vos confessar algo que me atormenta nestas várias décadas a andar em duas rodas. Os meus cavalinhos são miseráveis. Adorava poder dizer-vos que sou perito em fazer navegar a roda da frente no ar por longos e felizes quilómetros, num misto de perícia e desafio da Física. Tal não acontece, nunca o ponto de equilíbrio foi procurado (conscientemente) por esta pessoa. Poderia encontrar-vos várias razões para tal, nunca tive uma DT/LC quando era novo (as Vespas eram menos dadas a estas manobras) e é nesses primórdios de imortalidade que tentamos números de circo. Hoje em dia, vivo na penumbra daqueles que gloriosamente poupam o pneu da frente. Numa apologia das condições de segurança para o fazer, obviamente.

Apresentado o triste paradigma, resumo o enfoque na máquina em questão. Já voltaremos a este assunto…

A renovação da MT-10 suscitava algum receio dos mais fervorosos fãs da gama Hyper-naked da marca de Iwata. A tempestade ciclópica que arrasou os restantes modelos da gama poderia alastrar ao modelo que serve de porta-estandarte, e o exagero estético poderia render alguns sustos aos menos desprevenidos. Felizmente, a Yamaha escolheu uma estilização da imagem icónica que identifica a MT-10, o semblante continua carregado, o duplo olhar "transformer-insectóide" ganhou personalidade e a máquina está muito mais minimalista. Na verdade, está bastante interessante ao vivo, continua a distinguir-se de tudo o que existe no mercado. O quadro Deltabox e as entradas de ar ganham destaque e a sensação visual geral é de perda de peso. Tal não é exatamente verdade, porque o nosso amigo Euro 5 obrigou a aumentar a "fábrica" restritora de emissões, com mais dois catalisadores a serem acrescentados ao sistema de escape em titânio (mais 2Kg, pesando agora 212 Kg). A elegância futurista da nova silhueta dá-nos a impressão de uma moto completamente nova.


O motor (um tetracilíndrico de 998cc com cambota desfasada, derivado da R1) CP4 sofreu alterações a nível interno, ganhando pistons em alumínio forjado, o redimensionamento da massa da cambota e a injecção revista para favorecer uma melhor distribuição do binário ao longo de todo regime de utilização. O resultado é um ligeiro aumento de potência (agora com 165,9 cv @ 11 500 rpm) e valores de binário semelhantes à geração anterior, entregando 112 Nm @ 9 000 rpm (Toma lá couves, ó Bruxelas…).

Tendo em consideração que estamos a salvar mais ursos polares que nunca, os engenheiros da Yamaha conseguiram devolver a paixão sonora (inexistente através do escape) que nos embriaga o espírito. O redimensionamento das condutas de admissão originou o posicionamento de umas grelhas no topo do depósito, onde conseguimos ouvir o rouco trabalhar do CP4 com todo o seu exibicionismo. Eficaz e viciante forma de mantermos o acelerador aberto (que por sinal, agora é completamente electrónico, com um toque muito mais apurado e directo). 


Na prática, a MT-10 está mais refinada, o acerto do punho direito a baixas rotações está mais civilizado e o carácter intempestivo dos médios regimes mantém toda a sua atitude. Os donos do modelo anterior reconhecerão a linguagem, apenas são utilizadas palavras mais caras… 

A inclusão de um IMU de 6 eixos faz com que a electrónica suba um patamar, ganhando sensibilidade à inclinação nas suas ajudas. São quatro os mapas de condução, com diferentes níveis de potência, controlo de tracção, controlo de deslizamento da roda traseira, travão motriz, levantamento da roda dianteira e ABS. Tudo parametrizável individualmente. O quick-shift bidireccional é de série e para além do cruise control, ganha também um limitador de velocidade electrónico (para aqueles que não querem perder mais pontos na carta…). Esta era a evolução esperada, colocando a mais potente das Hypernaked da Yamaha a par das suas rivais. A interação com todo o algoritmo passa agora através do novo TFT colorido, que estranhamente mantém as dimensões do LCD anterior. Não há dificuldades na leitura da informação, mas o generoso painel merecia um display que aproveitasse melhor o espaço. São detalhes, é certo, porque as MT´s são motos para serem conduzidas, e não discutidas no café.


Há uma linha comum a toda esta família, a diversão que oferecem assim que passamos a perna por cima da máquina, parece que não se levam muito a sério. Com a nova posição de condução (alterações no guiador, poisa-pés e até mesmo o formato do depósito), estamos confortavelmente em cima do acontecimento (novo assento também redesenhado) e o que nos espera é qualquer coisa de fantástico. A MT-10 continua a sentir-se ágil e livre de dramas quando lhe pedimos entradas em curva e apoios mais forçados. A direcção é assertiva e directa, e o amortecedor da mesma é bem-vindo nas alturas em que a frente tende a levantar. 


Lembram-se da minha mágoa motociclística? Pois… esta moto faz de mim um herói. Qualquer saída de curva mais entusiasta, na passagem de caixa de 2ª para 3ª, as flutuações da roda dianteira rendem largos sorrisos e um ego inchado. Seja pela curta distância entre eixos, seja pelo fôlego que o CP4 mostra, tudo acontece de forma fácil (até mesmo responsável) e controlada, ao ponto de se tornar intencional. O inepto dos cavalinhos agradece esta gloriosa capacidade que a MT-10 tem de o fazer pensar que está a sobrevoar mais uma lomba da Ilha de Man. A soberba parametrização do “anti-lift” electrónico (tem 3 níveis, sendo que o menos interventivo permite a frente levantar significativamente, em potência) alivia um pouco as rédeas do pânico latente… 

As suspensões Kayaba (totalmente ajustáveis em ambos eixos) foram trabalhadas na sua rigidez, sendo que o ligeiro aumento do curso da suspensão traseira ajuda a um posicionamento mais pronunciado sobre a frente da moto. Estão perfeitamente adequadas ao espírito que a máquina propõe, competentes nas alturas em que a ciclística pede eficácia, perdulárias quando o corpo pede clemência. 

Esta postura mais intencional sobre a dianteira não é exagerada nem cansativa, muito pelo contrário, o número de quilómetros só é limitado pela sua parca autonomia (depósito de 17 L). Os consumos melhoraram, de facto, mas não se esperem milagres de um motor tão “solto” como o CP4. 


Outro dos upgrades anunciados pela Yamaha era a nova bomba de travão radial da Brembo (casando com o sistema de pinças de 4 pistons a morderem discos duplos flutuantes de 320mm na dianteira e piston duplo com disco de 220 mm na traseira), prometendo um maior poder de travagem. As melhorias em relação ao modelo anterior são de facto notórias, existe uma maior capacidade de estancar os ímpetos de fúria motociclística a que estamos sujeitos, mas um pouco mais de mordacidade no toque inicial permitiria outro conforto mental. Considerando que esta é uma característica comum a outros membros da família MT, temos em crer que não é defeito… já é feitio.

Começando nos 15.550 €, existem muitos acessórios para lhe moldar a personalidade (Sport Pack com escape Akrapovic e mais uns agressivos extras, e Weekend Pack com vidro deflector, banco confortável e saco para o banco traseiro) ao gosto do cliente. A Yamaha continua a insistir que não são precisos 200 cv para uma naked se tornar “Hyper”. Tem razão na sua linha de raciocínio, grande parte do sucesso da MT-10 tem a ver com a sua capacidade de surpreender. Contudo, com a ligeireza de atitude fazemos coisas muito sérias, e o CP4 é a prova disso mesmo. Até os brilhantes Bridgestone S22 ficam bem nas joviais jantes verde água, uma estranha sensação de vermos sapatos de gala combinados com calções de banho. Se resulta? Tive de entregá-la mais cedo, porque a irresponsabilidade crescia de um modo assustador…


Equipamento:


Capacete: Nolan N80-8 50th Anniversary

Blusão: REV’IT! Hyperspeed Air

Calças: RSW Jeans Peter

Luvas: REV’IT! Chevron

Botas: TCX RO4D WP 

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Yamaha MT-10 | Moto | Hyper Naked

andardemoto.pt @ 6-6-2022 17:48:08 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

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