Teste Benelli TRK 702 / 702 X - Um acessível degrau acima

Quando uma marca descobre um best seller, torna-se difícil não tentar repetir a fórmula vencedora. A Benelli tem na sigla TRK um tremendo caso de sucesso, e a nova 702 promete dar-lhe seguimento. Fomos testar as suas duas versões.

andardemoto.pt @ 16-1-2024 07:22:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


“Se ao longe virmos uma silhueta de formas voluptuosas e bico proeminente, com pisar confiante de maxi-trail e sonoridade caracteristicamente rouca, poderá não ser uma GS…”

A Benelli TRK goza de um carinho muito especial no mercado português. A sua presença simpática e acessível caiu no goto daqueles motociclistas que querem ter uma trail competente sem terem de pedir financiamento aos bancos. Com uma legião de fãs em crescimento por toda a Europa, a velhinha marca italiana de motos (agora pertencente ao grupo Qianjiang Motorcycle) decidiu surpreender o mundo das duas rodas apresentando na EICMA de 2022 um vistoso protótipo que lhe chamou de TRK 800. Passado pouco menos de um ano, o aparecimento da 702 veio confirmar o aumento da família com um modelo completamente novo. Mais potência, ciclística melhorada e uma estética apelativa fará certamente parte da receita para continuarem a ser vendidas que nem pãezinhos quentes. Pedimos logo um par delas para este teste…


Comecemos por dar uns fortes parabéns ao gabinete de design da Benelli. As linhas deste novo modelo estão francamente mais bem conseguidas. Não rompendo com os cânones do que está estabelecido, celebram a continuidade da 500 e marcam a diferença para a concorrência de forma estilizada e elegante. Continuamos a ter um depósito dominante e um assento “enterrado” na estrutura da moto, e sobretudo uma escolha de cores (na versão X) bastante cativante e original. O modelo creme e laranja-avermelhado (ou vermelho-alaranjado) que nos calhou para teste tinha uma presença na estrada bastante vistosa sem ser berrante ou espalhafatoso. Já a versão estradista apresentava uma demasiado banal cor preta. Nada contra os amantes de motos escuras, mas adventure rima com algum sal na presença, afinal de contas, vende-se um estilo de vida com vontade de escapar ao cinzentismo do dia-a-dia.

Um dos aspectos que imediatamente salta à vista, é a atenção ao detalhe. Houve uma clara dedicação da marca em tornar determinadas peças em objectos identificáveis. A profusão de logotipos da TRK e da Benelli surgem um pouco por toda a moto (na ponteira de escape, nas proteções de punho em alumínio, nas maxilas do travão, no assento e no calço de metal que tem como função preencher o espaço entre o mesmo e o do pendura). e simbolizam o orgulho e a sensação de fidelidade a um modelo que fez história. Os comutadores são iguais aos da prima QJ Motor SRT 700 (uma prima nascida da mesma casa mãe, imagine-se), e o facto de serem retroiluminados não lhes desculpa o toque demasiado plástico. Temos uma tomada USB que permitirá prolongar a bateria dos periféricos e um ecrã TFT colorido com um design simples e informativo (com possibilidade de ligação bluetooth a um smartphone). 


Quando nos sentamos aos seus comandos, a posição de condução não é das mais intuitivas. Voltamos à nossa infância e imaginamo-nos aos comandos das nossas saudosas BMX, gritando barulhos de moto e ensaiando tropelias. As pernas vão encolhidas devido aos poisa-pés altos e os braços vão quase levantados ao nível dos ombros, mas não há desconforto associado a este triângulo ergonómico, é apenas estranho, só isso. Até porque, o fácil acesso ao solo é certamente uma das mais valias que promovem o sucesso deste modelo. Na versão mais aventureira, quando nos colocamos em pé, em incursões fora de estrada, o posicionamento em cima da moto é excelente e tudo encaixa no sítio certo. 

Em andamento, aprecia-se o assento amplo e de consistência agradável, e sente-se a falta de um ecrã defletor ligeiramente maior. Se este formato não choca na versão “X”, na estradista faria sentido termos uma bolha de conforto aerodinâmico que cobrisse pelo menos a zona dos ombros e pescoço. 

É neste contexto que surge a peça de engenharia que eleva todo o conjunto: o seu motor. 

Este bicilíndrico paralelo (com 689 cc, é um DOHC refrigerado a líquido, que debita 70 cv às 8000 rpm e 70 Nm às 6000 rpm) com atitude e disponibilidade para surpreender o condutor. 


O seu desenvolvimento final é muito interessante. Muito embora os baixos regimes não sejam particularmente excitantes, mesmo com a mudança mais alta engrenada basta rodar o punho que a partir das 6.000 rpm sente-se folego e disponibilidade para ultrapassar em segurança. Apercebemo-nos de é uma moto que não tem medo de viajar. As vibrações perfeitamente controladas nos punhos e nos poisa-pés irão favorecer esta realidade, e os baixos consumos associados a um depósito de 20 litros também…

No capítulo da ciclística a diferenças avolumam-se entre as duas versões. A “X” serve-se das suas suspensões de maior curso (totalmente ajustável no eixo posterior) e da jante dianteira de 19” para apimentar a sua existência mais polivalente. Na prática, a sua maior altura ao solo (sem comprometer a muito razoável acessibilidade) faz com o centro de gravidade mais elevado ajude na altura de “mergulhar” a moto para o centro da curva. A jante 17” da versão de estrada ajuda na precisão da inserção, mas o comportamento das suspensões (com menor curso) é bastante distinto.

É muito interessante apercebemo-nos das diferenças de funcionamento do amortecimento dos dois modelos. A atitude mais focada da versão estradista promove uma entrada em curva bastante mais rápida, mas a verdade é que as suas suspensões são bruscas e demasiado reactivas. Acabamos por rolar mais rápido na versão X quando o piso se encontra mais degradado. Sente-se mais filtrada e por conseguinte, mais agarrada ao asfalto. Mesmo com pneus mistos, a ausência de controlo de tracção não levanta grandes questões…


Neste registo mais dinâmico apreciámos particularmente a capacidade de travagem destes modelos, pese embora o facto de termos uma dosagem da manete de travão algo vaga e errática. 

Num registo mais urbano, o peso a baixas velocidades (235 Kg em ordem de marcha) não intimida, e a manobrabilidade ligada a um motor que se mostra atreito a ganhar ímpeto, faz da TRK uma moto que viverá sem problemas a realizar trajetos casa-trabalho.

Isto, sem deixarmos as malas de alumínio (disponíveis no catálogo de acessórios) em casa e não aborrecermos meio mundo ao servirmos de rolha a quem quer  furar o trânsito.

Com a concorrência directa de modelos como as QJ motor SRT, as Moto Morini X-Cape ou até mesmo as Suzuki V-Strom 650, este segmento faz questão de ser dos mais competitivos do mercado, e com mais novidades a chegarem todos os anos. A nova Benelli TRK 702 está pronta para o desafio, mostrando-se confiante nos seus atributos. Para nós, a versão X é a mais racional, cuja polivalência não lhe diminui a sua capacidade estradista. O seu caminho de sucesso está assegurado.


andardemoto.pt @ 16-1-2024 07:22:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte


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