Entrevista Kiko Maria - Promessa lusa de olhos no mundial

Francisco “Kiko” Maria é mais um jovem talento que está a mostrar o que vale no motociclismo de velocidade. Este ano conseguiu entrar na Leopard Impala Junior Team e olha para o European Talent Cup como mais um passo rumo ao Mundial de Velocidade. Falámos com o Kiko Maria sobre as suas expectativas e a sua carreira de piloto.

andardemoto.pt @ 23-4-2019 14:38:22 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira

Com 15 anos de idade completados há bem pouco tempo (4 de abril), o Francisco “Kiko” Maria, natural do Porto mas radicado em Lisboa, tem vindo a crescer no motociclismo de velocidade, tanto nos campeonatos fora das fronteiras nacionais, como também no Campeonato Nacional de Velocidade. Na temporada que se iníciou no início de abril, com a ronda de abertura da European Talent Cup no Circuito do Estoril, Kiko Maria terá muito com que se entreter, pois irá competir em nada menos do que três campeonatos durante 2019.

Este ano será particularmente especial para Kiko Maria, pois não só vai competir no Campeonato Nacional de Velocidade (CNV) e no Campeonato Espanhol de Velocidade (CEV), na categoria PréMoto3, como voltará a marcar presença pelo segundo ano no bem conhecido, e competitivo, European Talent Cup, um campeonato onde mais de 60 jovens talentos de 18 países diferentes tentam mostrar o que valem, pois sabem que o European Talent Cup é uma das portas de entrada no Mundial de Velocidade.

Para Kiko Maria, 2019 será um ano de grandes e importantes mudanças. A nível nacional e também em Espanha, o jovem talento português, sempre apoiado pela família que o acompanha em todos os passos na sua vida competitiva, vai agora estar inserido na equipa Moto Action Team e pilotará uma Yamaha 250, enquanto no European Talent Cup, o piloto português foi contratado por uma das melhores estruturas a nível mundial, a Leopard Racing, que já “ensinou” pilotos como Maverick Viñales.

Na European Talent Cup, Kiko Maria fica inserido na Leopard Impala Junior Team, e pilotará uma Honda NSF 250 R, moto que é igual para todos os pilotos que participam nesta competição, e onde o talento do jovem português terá de fazer a diferença, sendo que nos testes de prétemporada as boas indicações que Kiko deu, deixam antever um ano recheado de sucessos.

Numa temporada que será complicada e bastante longa, onde vai participar em duas dezenas de provas, Kiko Maria enfrenta o seu maior desafio em termos profissionais com a ambição de alcançar os títulos e abrir portas para entrar no Mundial de Velocidade. Leia aqui a nossa entrevista exclusiva ao jovem piloto luso.


Andar de Moto - Quem é que te colocou a andar de moto?

Kiko Maria - Foi a minha mãe e o meu avô. Mas foi mais o meu avô quem o meteu o bichinho de andar de moto e via as corridas com ele. Agora é o meu pai que também quer que eu siga este caminho, embora ao início ele não gostasse muito que eu andasse de moto. Comecei a andar de moto aos 11 anos mais ou menos.

Andar de Moto - Portanto começaste a andar de moto aos 11 anos, mas quando é que fizeste a tua primeira corrida?

K.M. - Foi na RAV 220 em Navarra, em 2016.

Andar de Moto - Então começaste a correr em Espanha. Por alguma razão especial?

K.M. - Por ser um campeonato que tem um nível mais competitivo.

Andar de Moto - Começaste com o teu avô e a tua mãe, e depois o teu pai também foi convencido aos poucos. Houve algum momento em que vocês decidiram que isto era mesmo aquilo que tu queres fazer e que é para apostar a sério nas corridas de motos, ou desde o primeiro momento tu disseste que era mesmo isto que querias fazer?

K.M. - Foi desde o primeiro momento. Logo no primeiro momento eu disse que era para estarmos nisto a 100%. Sem esquecer que tenho os meus estudos para cumprir.

Andar de Moto - Sim... enquanto os teus colegas na escola estão a ter aulas, tu estás nos circuitos a treinar. Como é gerir estas duas facetas da tua vida?

K.M. - Não é fácil. São duas coisas que aumentam de exigência em simultâneo, e cada vez é mais difícil. Aquilo que eu penso para mim é que eu faço isto pelas motos. Claro que se eu estivesse só na escola, se calhar o meu desempenho era diferente, era mais fácil. Mas a vida de um desportista é assim, tenho de me esforçar. E depois é como o meu pai diz: as notas (na escola) é o meu dinheiro para as motos, e é assim que eu tenho de pagar a minha temporada.

Andar de Moto - E precisamente a tua temporada está agora a começar. Este ano inserido numa equipa nova, a Leopard Impala Junior Team. O que encontraste nesta nova estrutura? O que é diferente em relação ao que estavas habituado?

K.M. - Basicamente, o que tenho agora não tem nada a ver com o que eu tinha. A moto em si, o comportamento, encontrei técnicos que penso que são excelentes, muito bons técnicos mesmo, conseguem fazer uma coisa que é a primeira vez que está a acontecer comigo, que é a cada circuito que vamos, cada vez que saio à pista, conseguem colocar a moto confortável para mim e como eu quero, e acho que isso é fantástico e contribui para a minha evolução como vimos durante a prétemporada.

Andar de Moto - E como é que analisas a tua prétemporada e como é que te sentes?

K.M. - Sinto que, comparando com o ano passado, estou bastante rápido. Nos circuitos que temos visitado para treinar, melhorei o meu melhor registo em cerca de 2 segundos. Mas claro que temos muito para evoluir, pois o meu objetivo este ano não é apenas melhorar os tempos, mas também aproximar-me ao máximo dos recordes absolutos de cada circuito na minha categoria. Vamos trabalhar para isso, estamos perto, mas não será fácil.

Andar de Moto - Tendo tu esse objetivo tão ambicioso, acabaste também por alterar a forma como te preparas fora das pistas. Tens um novo preparador físico. Sentes que isso também te está a ajudar? Ou seja, sentes que quando estás em pista o teu corpo está preparado para responder às exigências?

K.M. - Penso que o físico é uma componente fundamental no motociclismo de competição. Não vou dizer que é 60% físico e 40% técnica, pois quando começamos temos de trabalhar bastante a nossa técnica, habituarmo-nos ao que é pilotar uma moto. Mas agora que já tenho esses conhecimentos, essas competências, sinto que a preparação física é o mais importante para andar rápido. Aliás, a minha performance em pista e os tempos estão bastante melhores pois sinto-me melhor preparado, e desde já quero agradecer ao Miguel, e também aos meus preparadores fora de Portugal, e penso que temos feito um trabalho fantástico semanalmente. Treinos diários aqui em Portugal, uma semana de estágio em Barcelona, tudo para conseguir os meus objetivos e dar alegrias a todos aqueles que me têm ajudado a chegar aqui.

Andar de Moto - Voltando um pouco atrás e à tua chegada à equipa Leopard Impala Junior Team. Tens dois colegas novos na equipa. Já os conhecias ou são completamente desconhecidos para ti? Como é a tua relação com eles, sendo que, normalmente, dizemos que os companheiros de equipa são os primeiros rivais que tens de bater.

K.M. - São companheiros de equipa totalmente novos, não os conhecia. Adaptei-me bem, tenho uma boa comunicação com eles. É uma situação engraçada pois tenho um companheiro de equipa italiano, o outro é espanhol. Depois a equipa é Catalã. E eu sou de Portugal, e a forma de comunicação não é muito fácil por vezes. Mas consegui adaptar-me rápido a eles, são companheiros de equipa que me podem ajudar muito, são fortes.


Andar de Moto - Tendo em conta o que foram os teus anos anteriores, em particular o ano passado na European Talent Cup, quais são os teus objetivos para esta temporada?

K.M. - Bom, este ano, e para quem não sabe a ETC vai ter 62 pilotos, vão existir duas corridas destinadas aos mais rápidos e outra ao grupo dos mais lentos. O meu objetivo, claro, será entrar sempre nas corridas do grupo dos mais rápidos, e depois andar nos 15 a 20 primeiros. Depois dependendo do circuito, penso que conseguirei rodar dentro dos 10 primeiros, talvez chegar a um resultado bastante bom. Mas os objetivos claros são entrar nos pontos em todas as corridas.

Andar de Moto - Já pudeste rodar com a tua moto nova. O que é que sentes?

K.M. - Toda a ciclística como o motor são basicamente iguais ao que tinha o ano passado. É uma Honda NSF 250. Ainda não está tudo perfeito, pois se estivesse eu já teria dado aquele passo que falta para estar mais à frente, mas grande parte do trabalho de afinações está feito durante a prétemporada, e penso que agora as diferenças na equipa técnica vão permitir ganhar em cada circuito mais aceleração, mais velocidade, já conseguimos trabalhar melhor com o mapa de injeção.

Andar de Moto - Mas nem sempre tudo corre bem, e é normal no motociclismo de competição os pilotos caírem. Como é que lidas com essas situações e com as lesões?

K.M. - É um tema complicado de comentar. Eu nunca penso nas quedas nem nas lesões. Na minha opinião os pilotos que estão aqui não pensam nisso, não vão andar mais devagar por estarem a pensar evitar lesões e quedas. Para mim o pensamento tem de ser dar sempre o máximo, e se cair, caí. Claro que quando caio, tenho de admitir, fico com um pouco de azia. Mas é assim que as coisas são, e tenho de habituar-me.

Andar de Moto - E como é a tua relação com os amigos na escola? Não é habitual em Portugal os jovens seguirem a carreira de piloto de moto. Não é propriamente a mesma coisa que dizeres aos amigos que jogas futebol.

K.M. - Os meus colegas relacionam-se comigo de uma forma normal, têm a noção que eu faço um desporto que não é futebol. Estão sempre a “chagar” casacos do Kiko Maria (risos), mas tenho amigos fenomenais. Na realidade o tema das motos não é o tema das nossas conversas na escola, nem é algo que eu quero que seja falado. Mas tenho sempre os meus amigos sempre a apoiar-me e isso deixa-me muito satisfeito.

Andar de Moto - Fora das pistas, quais são os teus outros interesses?

K.M. - Sou sincero, gosto de todo o tipo de desportos. Mas queria mesmo deixar o meu primo Tiago orgulhoso de mim, e seguir o caminho que ele fez, engenharia mecânica. Estou focado nesse objetivo, gostava de ser como ele, ele é o meu ídolo fora das motos.

Andar de Moto - E nas motos, qual é o teu ídolo?

K.M. - Tenho dois ídolos: Valentino Rossi e o Miguel Oliveira. Isso está claro!

Andar de Moto - Portanto, se não fosses piloto...

K.M. - Queria ser engenheiro mecânico. Aliás, queria não. Quero! Quando terminar a minha carreira de piloto de motos é o que eu quero ser.

Andar de Moto - Todos os pilotos têm os seus pontos fortes e pontos fracos, coisas que têm a melhorar. Como é que te defines enquanto piloto?

K.M. - Penso que os meus dois pontos fortes são na aceleração e nas travagens. Penso que o meu ponto mais fraco, e sempre foi, mas não é por isso que deixarei de ser um piloto rápido, é a velocidade de passagem em curva. Mas como consigo travar mais tarde e acelerar bem, acabo por conseguir atingir os bons tempos. Penso que outro defeito que tenho é que demoro muito tempo até encontrar o meu limite, mas por outro lado vou sempre melhorando cada vez que saio à pista e sei que ainda tenho muita margem de progressão.

Galeria de fotos entrevista Kiko Maria

andardemoto.pt @ 23-4-2019 14:38:22 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: ToZé Canaveira